É NO VÃO, É EM VÃO QUE (SE) HABITA A SENHORA


É NO VÃO, É EM VÃO QUE (SE) HABITA A SENHORA
desconheces quase toda tua totalidade, que contornos havia aos quinze anos aos vinte, lá dentro do ventre, que águas, plasma e sangue, que rio te contornava? que geografia se desenhava no teu rosto, e o rosto daquela que te carregava na barriga, como era? como te carregava essa que habitavas?
Parto de uma letra – a letra D,indicativa do verbete Derrelição, anotado – na acepção de notatio de Roland Barthes – no nível do “real”, como isso que comparece na linguagem ininterrupta: a vida, constituída que é das marcas nela inscritas. “O corpo é quem grita esses vazios tristes”.
“D de Derrelição, ouviu? desamparo, abandono”, anota a voz plural do monólogo de Hilda Hilst*.
A letra obscena do desamparo grafada na senhora D é, no entanto, nada. Ela não permite que aí se instale um nome, uma operação de nomeação, que possa garantir que haja significação. N’ A obscena senhora D, aquele que timbra a letra, é também aquele que parte, deixando-a no vão da escada, ou nos desvãos onde se refugia, “afastada do centro de alguma coisa que não sei dar nome [...] eu Hillé também chamada por Ehud A Senhora D, eu Nada, eu Nome de Ninguém”.
Esse eu Nada, esse eu Nome de Ninguém – Nome D’Ⱥ Mulher, cujo D, concedido por Ehud poderia bem ser o do Desejo, mas é outra coisa, não dá conta de dar forma a Hillé, nome que em grego [hylé] designa o amorfo. A concessão do significante Derrelição é feita em vão, pois este nome, diz Ehud, “me perguntas a cada dia e não reténs”.
Ehud concede o nome, nomeia o sentido, impõe o sexo como isso que para o sentido é condição, quer situar o insituável da Senhora D, que insiste em permanecer no inabitável vão, no qual se encerra: “olhe, esse teu fechado tem muito a ver com o corpo, as pessoas precisam foder, ouviu Hillé? [...] antes de você escolher esse maldito vão da escada, nós fodíamos, não fodíamos Senhora D? sim”.
O vão escancara o interior de um Nada-Tudo, que o termo Derrelição tenta circunscrever, embora dele só se retenha a letra. Mas é aí mesmo que uma senhora habita – entre o centro e a ausência... a ausência – uma senhora “sempre com a alma em vaziez, busca nomes, tateia cantos, vincos, acaricia dobras, buscando quem sabe nos frisos, nos fios, nas torçuras, no fundo das calças, nos nós, nos visíveis cotidianos, no ínfimo absurdo, nos mínimos, um dia a luz, o entender de nós todos o destino”.
Ehud acredita criar. Lacan** diz que “ele crê-crê-crê, ele cria-cria-cria. Ele cria-cria-cria a mulher”. Mas esse que cria o corpo é espelho roto, que invertendo o sentido das palavras as torna estranhas: para Hillé corpo é porco.
Já marcada pelo desamparo, a senhora D resta sem os significantes do amparo, ela é advertida de que entre os sexos, no ser falante, a relação não há, uma vez que se interroga: “nem sei de mim, como posso ser extensão num outro?” Mas mesmo assim há uma insistência, há uma obsessão do a-deus. Morrer, para Hillé, é aderir ao Outro. Se Hillé goza, não é para Ehud, que inconformado constata: “tu gemes, pro invisível [...] fornicas com aquele Outro, não fodes comigo, maldita, tu não fodes comigo”.
É no vão, é em vão que (se) habita a senhora.
Marcela Verônica da Silva

*HILST, Hilda. A Obscena Senhora D. São Paulo: Globo, 2001.
**LACAN, Jacques. O seminário - livro 20. Mais, ainda. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.



A mulher, sempre um misterio! gostei muito do texto