O SILÊNCIO DE CORDÉLIA

Atualizado: 25 de set.

Three daughters of King Lear - Gustave Pope
Na tragédia Rei Lear, de William Shakespeare, ainda em vida, o velho Rei Lear decide dividir o seu reino entre as filhas Goneril, Regan e Cordélia, em proporção ao amor que cada uma delas é capaz de expressar por ele em palavras. As duas filhas mais velhas, Goneril e Regan, se desdobram em discursos calorosos de louvor e amor devotado. Cordélia, a filha mais nova e favorita, recusa-se a fazê-lo; não porque não amasse o velho pai, mas porque nutria um amor despretensioso e preferia demonstrá-lo de forma silenciosa.
Ato I, Cena I:
“Lear: (...) que poderás tu dizer que mereça um terço mais opulento do que o delas duas? Fala.
Cordélia: Nada, meu senhor.
Lear: Nada?
Cordélia: Nada.
Lear: Nada virá do nada. Fala outra vez.
Cordélia: Infeliz de mim que não consigo trazer meu coração até minha boca. Amo Vossa Majestade como é meu dever, nem mais nem menos.”
(Shakespeare, William. Rei Lear p. 5 L&PM Editores. Edição do Kindle.)
Diante da recusa de Cordélia em discursar sobre o amor que sente, o velho Rei Lear a repudia e a destitui da herança, dividindo seu reino, para sua ruína e ruína geral, entre as outras duas filhas.
Cordélia ama e cala. Na peça shakesperiana, o amor de Cordélia é marcado por uma mudez e, por isso, não é reconhecido e nem recompensado.
Freud em seu texto, O tema dos três escrínios, se debruça sobre o tema das três irmãs e se atém ao modo como Shakespeare faz uso disso na tragédia Rei Lear. Referindo-se à mitologia, aos contos de fadas, à literatura e ao relato de um sonho de um amigo - sem negar que a tragédia trata sobre a ingratidão, além de duas lições: o valor da própria vida e da lisonja pelo seu valor aparente - Freud argumenta que o silêncio de Cordélia é símbolo da Morte.
“Mas o homem condenado não está disposto a renunciar o amor das mulheres; insiste em ouvir quanto é amado. Permitam-nos agora recordar a comovente cena final, um dos pontos culminantes da tragédia no teatro moderno. Lear carrega o corpo morto de Cordélia para o palco. Cordélia é a Morte. Se invertermos a situação, ela se torna inteligível e familiar para nós. Ela é Deusa da Morte que, como as Valquírias na mitologia germânica, recolhe do campo de batalha o herói morto."
(FREUD, O tema dos três escrínios, Vol XII)
Essa breve menção e recorte sobre a peça Rei Lear e sobre o texto de Freud, servem para pontuar algo sobre a fala e o silêncio em relação ao feminino.
A esse respeito, o que se pode observar na clínica psicanalítica – lugar marcado por uma fala sobre o amor e a não existência da relação sexual - é uma diferença, sentida por vezes, entre um homem e uma mulher que demandam uma análise.
Quando se trata de uma relação amorosa hetero afetiva é um comum uma mulher se dirigir ao analista e enunciar, sem muitos rodeios, o motivo pelo qual procurou uma análise. Seja a não correspondência amorosa, seja o fim de uma relação ou mesmo um abandono, ela prossegue ligada a uma queixa, falando, por um bom tempo, sobre o modo como um determinado homem a fez ou a faz sofrer.
É comum também, que um homem, no início de uma análise – na ocasião em que esse trate de uma questão amorosa – pontue sua queixa em relação a uma questão que o causa, embora prefira tomar um bom tempo falando sobre as insígnias masculinas que o constituem como um homem na sociedade.
No cotidiano e na clínica, frequentemente, ouve-se a queixa de uma mulher sobre o silêncio dos homens no término de uma relação. Sabe-se que é um tanto difícil um homem terminar uma relação quando o amor acaba e, não raro, age de modo que suas ações forcem uma mulher a tomar a decisão de um término e afastamento.
O silêncio de um homem sobre o amor pode advir do engano: “perco o amor de uma mulher, mas fico com o falo”, ou ainda, “mais drástico seria perder o falo, do que perder o amor de uma mulher”. É certo que o amor pode ir além do falo, mas, em alguns casos, por uma covardia de certos homens em relação ao amor, convém a eles ceder o falo a uma outra mulher.
Em outro texto aqui no blog, Lady Macbeth, escrevi que a mulher inventa “seu” homem e, com isso, investe na própria singularidade. Não é que o homem dê ou atribua singularidade a uma mulher, mas ele, a partir do encontro amoroso, torna possível que a singularidade feminina se evidencie, entre outras formas. Desse modo, uma vez morto o amor numa relação, uma mulher pode experimentar um silenciamento de sua singularidade e, como efeito, a perda de si mesma - outro modo de dizer do desamparo.
Não se teria aqui, de certa forma, do lado de uma mulher a evocação da figura feminina shakesperiana, Cordélia, que une amor, silêncio, perda e morte?
Jane Silveira



quando o Homem é o espelho
no qual a mulher se mira
brilhando sob as insignias do Pai
o abandono emudece o Eu,
que se via singular entre os outros
diferente é o silêncio de Cordélia/Shakespeare
que priva o pai do consolo narcíssico no justo momento em que tudo que resta a ele é suportar o símbolo Rei/Pai
a crueldade desse silêncio é sustentáculo de uma verdade,
a única que não se pode dizer,
castração
maria teresa