La belle indifferénce

Atualizado: 11 de mar. de 2022

“La belle indifferénce”
(Recorte da apresentação feita no “Encore”/”Fazenda Freudiana”, Goiânia, 29/04/2021, sob o nome “La belle indifférence: o sublime suplício histérico”. Agradeço aos colegas pelo convite e a boa interlocução!)
Diferentemente do que muitos supõem, a expressão “a bela indiferença das histéricas” não foi cunhada por Freud, mas sim por Pierre Janet. Devem haver inúmeras razões pelas quais é repetida até hoje, a mais evidente delas sendo a recorrência na clínica médica de uma situação aparentemente paradoxal: apesar de sintomas francamente incapacitantes, não se reconhece no paciente nenhum empenho autêntico em eliminá-los.
A indiferença da histeria continua, sem dúvida alguma, a nos enganar nos dias atuais. Nem tanto mais os desmaios e as cegueiras, mas também os cortes, as bulimias, as anorexias, as compulsões pornográficas, as reviravoltas no gênero e as intrigas midiáticas nas redes sociais. Muitas dessas queixas, mas nem todas, tem participação especial da combativa mas vacilante verdade que a histeria se incumbe de representar. E quem mais o faria? É o que ela não cansa de nos perguntar.
Quando bem conduzida, a clínica psicanalítica, ao contrário da médica, não tem tantos pés atrás com a histeria. O único engano grave que um analista nunca deve cometer com ela é considerá-la uma neurose e, por causa disso, querer tratá-la. Para Lacan, a histeria é um dos discursos com o qual fazemos laço social e nem é dos piores. Também disse (mas não me lembro onde) que podemos curar uma histérica de tudo menos de sua histeria. Concordo e diria mais: não é necessário curar uma histérica de sua histeria porque é apenas necessário que ela saiba o que ela deve saber. Voltaremos a isso no final.
Antes disso, quero que imaginem uma outra narrativa, em que a histeria não seria uma neurose mas uma espécie de conquista da civilização. O que não significa necessariamente algo belo! Se pensarmos a civilização como responsável por um mal-estar específico, que é o excedente libidinal que não pode ser reabsorvido pelos recursos próprios à civilização, talvez pudéssemos entender a histeria como resposta ao seu mal-estar.
A civilização, nos termos freudianos do termo, seria bem ilustrada pelo filme que Stanley Kubrick realizou a partir da obra de ficção cientifica de Arthur Clarke, “2001: uma Odisséia no Espaço”. Penso particularmente nas cenas iniciais: uma planície vasta, feita apenas de terra, pedra e alguma vegetação rasteira, uma espécie de palco primitivo. Alguns hominídeos ou macacos encontram um monolito negro que se instalou ali. Eles o circundam, o perscrutam e juntam-se em torno do estranho objeto. Na estória contada, o monolito teria sido enviado por extraterrestres mas não é sua origem e sim os desdobramentos dessa presença ad-vinda, que nos levam ao cerne da questão.
A civilização está toda inscrita nesse grande monolito negro. Dele, o que importa é que seja um símbolo. Por favor, não se apressem em dizer que é fálico. Ele é certamente um símbolo, mas não é símbolo de algo senão apenas símbolo de símbolo, símbolo de haver símbolo, algo que apenas representa a existência da representação. É por isso que, ao contrário do que se diz, já vivíamos no mundo virtual, no mundo da representação, desde a chegada do monolito.
A operação encenada por Kubrick não depende apenas do aparecimento do grande monolito negro, o totem-sem-tabu, a reta-monolito traçada em meio às repetidas e indistintas formas naturais, vivas ou inertes, do paraíso original. Ainda é preciso incluir na leitura da cena a marcação acintosa da trilha sonora que acompanha os desdobramentos da cena introduzindo o tempo. É o faz o imponente poema sinfônico de Richard Strauss, “Assim falou Zaratustra”, com seus trovões seguidos de tambores formando sons em enxames, uma temporalidade marcada pelo corte e seus desdobramentos. O aparecimento do monolito não se resume ao surgimento de um objeto, nem ao falo imaginário que seria depois significado em seu lugar, mas à leitura da marca do corte significante que cava o intervalo, o faz vibrar. Logo em seguida o hominídeo/macaco descobre num outro objeto-reta-marca, um fêmur animal encontrado entre restos, o que muitos comentadores chamaram de “uso do instrumento”, instrumento que ele usa primeiro para matar um outro animal e depois como arma para guerrear.
Temos então: aparecimento do monolito, descoberta do instrumento que mata o animal que será comido e depois, a guerra contra a tribo de irmãos. Símbolo-instrumento-guerra. Não está completa a ordem da civilização?
A partir do momento em que somos todos tomados pelo símbolo, somos todos irmãos, filhos da linguagem. Não há escapatória da civilização, assim como não há escapatória da linguagem. Isso significa, de modo muito simples, que nossos corpos não nos pertencem, estão à serviço do símbolo. Trago essas imagens e esses termos, civilização e símbolo, para reduzir ao mínimo os elementos necessários para pensar a histeria como inscrição necessária do mal estar da civilização (e da linguagem) na medida em que nossos corpos servem à sua lei. O que não significa que nossos corpos a obedeçam! Como, se trata-se justamente de uma lei impossível?
Essa lei que nos reconhece/marca como humanos, isto é, como seres-falantes, guerreadores do sentido, é a mesma lei que impõe o Gozo como impossível, o Desejo como metonímico e o Amor como metafórico. O que nós chamamos de sexualidade deriva, de modo não indireto mas sim bastante direto, do fato de que essa sexualidade, seja ela o que for, não é em absoluto um questão de gosto individual mas de relações simbólicas que definem possíveis e impossíveis, representável, não-representável e irrepresentável.
Não é que a lei da linguagem organize os falantes em homens e mulheres e desse modo os coloca a seu serviço, gozando deles à la Matrix para reproduzir apenas à ela mesma, a linguagem ou a civilização. É que a lei da linguagem impõe ao corpo esse mesmo valor de instrumento que o hominídeo descobriu, pois marcado pelo significante o gozo apenas pode ser um gozo de sentido, um gozo desenhado, marcado pelas vias significantes. A diferença sexual não é uma significação vinda de fora, mas uma resposta à ausência que a marca do monolito inscreveu como inconsciente: aquilo que excede. A sexualidade será aquilo que excede a marca, que a marca não pode senão fazer faltar. O que nós hominídios chamamos de sexualidade é o meio pelo qual tentaremos buscar, recuperar o gozo que a marca fez faltar. Tentar arrancar do monolito um pedaço de carne?
Se a repartição homem-mulher dependesse realmente de um cálculo factível, os homens poderiam ser o suportadores do excedente de excitação enquanto às mulheres caberia suportar a falta ou a espera. Homens e mulheres seriam, então, a configuração imaginária da repartição sexual, aquela que apenas tornaria resolvida a conta do excedente e da falta de gozo que derivam da linguagem e da civilização?
Mas não é justamente a histeria que traz a má noticia de que homens e mulheres estão muito longe de quererem acertar as contas e repartir fraternalmente a dor, o trabalho e o gozo?
Outra coisa que o monolito nos impôs é que para que uma necessidade seja satisfeita ela deve ser endereçada. Não digo aqui se a alguém, ou se ao Outro. O fato é que a histeria revolta-se contra essa ordem, essa lei inexorável, e se recusa a pedir. É o que ouvimos o tempo todo nas análises: “O outro não faz isso, não faz aquilo, não tira o lixo, não me dá um beijo, não me ajuda... mas será possível que eu tenho que pedir?”. Na verdade, a histeria é indiferente ao sintoma apenas quando ele , o sintoma, está falando. A fibromiálgica é indiferente ao sintoma falando ao médico, a menina que se corta é indiferente ao sintoma enquanto seja possível que a mãe o veja, mas isso não significa que o corpo não dói o dia todo ou que a menina não sofra cortando sua pele até sangrar. Que indiferença é essa?
Já que estamos aqui, porque não lembrar outra bela, a açougueira cujo sonho revelou tão lindamente a Freud que o desejo é sempre desejo do outro, desejo recusado e, além do mais, inconsciente. Porque a bela açougueira sonha que não pode oferecer um jantar, justamente o jantar que sua amiga magra lhe pediu para que pudesse engordar? Certamente ela não queria tornar sua amiga, já tão elogiada por seu marido, uma figura também apetitosa mas a pergunta que Freud se faz é: porque é preciso que ela mantenha a outra insatisfeita para manter o seu próprio desejo? Para que ela precisa da Outra?
O fato é que ela precisa da Outra apenas porque a Outra é o representante-da-representação do desejo indesejado-desconhecido-e-inconsciente do seu marido. Ou seja, ela precisa da Outra como lugar tenente do que não tem representação, pois que o desejo escapa entre elas, as supostas representantes-da-representação. A histeria quer garantir que o desejo Outro do outro, isto é, o desejo inconsciente, possa aceder ao plano da representação e não permanecer sempre cortado, escapando, inacessível à sua ordem. Seria melhor se a histérica des-reprimisse o sexual, isto é, se aceitasse o sanduiche de caviar ou desse à sua amiga o tão solicitado salmão porque esse desejo que ela cava à força, pela insatisfação, nunca atingirá o Desejo verdadeiramente Outro do outro? E que ainda admitisse que a escapadela do desejo pelas tangentes é a única coisa garantida do desejar? Ora, desse modo, satisfazendo a nós, os psicanalistas e médicos com sua cura, a histérica apenas emudeceria um pouco mais.
Então, afinal, o que a histérica deve saber? Não importa o quê ela deve saber, importa apenas que não seja muito, mas o mínimo suficiente. Não mais que o suficiente para que o Desejo enquanto desejo do Outro atravesse com tanta leveza a satisfação sem nela querer permanecer. Saber que a satisfação não matará o Desejo porque dela, da satisfação, não se tira sentido algum. Devido à repressão sexual, a boca e o sexo da histérica estão fechados e apenas mimetizam a receptividade que a linguagem e a civilização reservam ao feminino. Mas o receptivo do feminino, sendo sem proveito, não é receptivo para dos traços do Outro, como na histeria por via da sugestão. O receptivo do feminino, deixado a si-mesmo, reverbera auto-eróticamente qualquer oco, indistingue o ativo e o passivo
Nesse sentido, o feminino não tem nada a ver com a sexualidade do modo como a representamos, isto é, como tentativa de recuperar um pedaço desse gozo não digo perdido, mas sacrificado à civilização. Embora – como bem disse Freud – não amamos ao próximo como a nós mesmos, oferecemos nossos pedaços à civilização, através do trabalho, da produção , da criação dos filhos, da ajuda “humanitária” aos outros. Quando se trata do sexual, entretanto, do que nós hominídeos chamamos de sexo (não necessariamente do que a psicanálise chama de sexo) tentamos apenas arrancar do monolito um pedaço da sua carne, em troca pelo esforço cedido, seja pelo excedente acumulado, seja pela espera, pela falta suportada. O que não tem nada a ver com o feminino. O feminino nem pertence à civilização. Se há beleza na mulher não é porque seja indiferente ou inacessível, mas porque o feminino, isso do que ela goza, não serve para nada no trabalho da civilização. Seus vazios, seus buracos não recebem o excedente libidinal de um homem, nem o corpo de uma criança que ela cederá também à civilização. Seus vazios ecoam as falas de todos os tempos, reverberam os intervalos das palavras ditas e não-ditas, os insabidos da linguagem.
Vocês podem me dizer: mas isso está muito poético, muito distante da vida real! Nem tanto, eu diria. Na vida real isso poderia ser a solidão feminina. A histérica teme sua solidão, talvez temendo ser engolida pelo vazio materno. Mesmo assim, enquanto mulher ela também ama sua solidão embora não saiba defendê-la dos outros. Ao contrário do que as mulheres dizem, elas amam sua solidão como a si mesmas. Alguns homens também são capazes disso. Mas não-todos.
Maria Teresa Lemos



Muito bom!!!
Teu texto continua reverberando. A frase que martela : "A civilização está toda inscrita num grande monolíto negro". Para muitos o monolíto negro de 2001 representa Deus, ou a inteligência alienígena, para outros o avanço tecnológico ou da ciência. Depois do teu texto, para mim o monolito ganhou outra compreensão, hoje pode representar a distopia, o black mirror, o espelho que me devolve a imagem que não reconheço como sendo minha, ou seja, o ser dividido. Como você diz, o monolito contem o mal estar da civilização. E concordo com Jane, esse texto merece desdobramentos....bjs.
Oi, Teresa. Li e reli teu texto. Merece uma bela discussão! (quem sabe uma live? rsrs, tive a oportunidade de ver tu apresentares, foi ótimo) Fiquei pensando na palavra "monolito" e, por associação em mono/stereo/histérica/estéril. Me veio a ideia de que a histérica, enquanto "stereo, aumenta o som pra animar o desejo do outro e com isso faz laço social. Ela quer ver o outro dançar? Outra e outra música. Mas não dá pra ficar só aí, presa nessa armadilha e, nesse sentido, é estéril. Quem dança aí e o desejo. O feminino é o que faz pausa, o que descansa a agulha da vitrola? Daí a histérica entra e diz: continua o baile?
Um abração!
Jane
Não temos salvação, nem a histeria nem a civilização. Adorei o texto, Teresa, muito lindo.
Uáuuuuu! Excelente o texto, obrigada Maria Teresa!!