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à vera colucci

Foto do escritor: DESIGUALblog
DESIGUALblog
10 de dez. de 2020
2 min de leitura

Á Vera Colucci



Agora já sei meu último pedido. Aos que tiverem a tarefa de me enterrar peço que façam um minuto de silêncio em minha homenagem pois desde pequena o silêncio tem sido o que eu mais amei. Há dois anos você me disse que queria fazer o que sempre tinha deixado para depois, a literatura, e me convidou para ler o conto do Machado de Assis, “O Espelho: esboço de uma nova teoria da alma” com você e mais alguns outros colegas que se interessassem. O que a gente deixa para depois não é aquilo que mais amamos?

Você havia deixado a literatura para depois e eu o silêncio. O encontro dos nossos deixados-para-depois foi uma paixão explosiva mas bem-dita pois uma atendia prontamente a tudo que a outra queria. Montamos um grupo de leitura de Literatura e Espelho no Outrarte/IEL/UNICAMP apenas para levar a sério o prazer de conversar sobre as nossas leituras. Assim foi e assim continua ainda, mais ainda.

Graças a você e ao meu pai revi a minha relação com o silêncio, com a falta de resposta. Dessa paixão fóbica pelo silêncio alguém havia dito na infância que era timidez. Essa e outras tantas injustiças que a fala, a linguagem e a língua me fizeram me motivam ainda hoje a fazer o que mais me importa: escutar crianças. De todas as idades que se possa imaginar. Ignoro insolentemente a persona-adulto e escuto somente a criança porque o caminho mais difícil – como você me disse alguns dias antes de partir – é o caminho melhor.

Mas você, minha amiga, não quis o silêncio. Seu marido nos contou que você quis que cantassem para você e eu, surpresa e com a voz embargada, apenas consegui cantar uma vez o refrão : “é a vida, é bonita e é bonita!”. Cantei por você porque eu não sei se acho a vida bonita só que ela é tudo que a gente tem. Mas a tua fé tem mais grandeza que a minha lucidez. Quando te conheci houve um momento em que descobri que a sua grandeza era maior que a minha. Decidi imediatamente incluir você na minha vida para sempre, porque preciso de grandeza.

Para voltar logo ao meu silêncio, pois você bem sabe que o tempo urge, vou finalizar rapidamente dizendo da sua beleza.

Bem ao seu estilo lusitano-zombeteiro, meu pai me disse uma vez que todas as mulheres eram iguais porque todas mulheres eram belas. Ao que eu lhe respondi prontamente: “neste caso, serei feia”. Vou homenagea-los juntos, diz-crevendo a tua luz própria como a da menina interessada, os olhos abertos e sujeitos a explosão do sorriso. Só de pirraça eu poderia te dizer que você partiu sem me passar a tua fórmula do amor pois continuo alérgica a essa flor roxa que nasce no coração dos trouxas. Você riria disso e eu também. Você sabe mais. Agora você sabe tudo, minha amiga. E só Deus sabe quando iremos nos reencontrar.

Campinas, 07 de Dezembro

MTLemos







 
 
 

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