À caça do desejo masculino

Atualizado: 11 de mar. de 2022

Ser psicanalista é uma decisão realmente lavrada em pedra. É ter os ouvidos mais abelhudos do planeta, pois parece que essa escutação de significantes e o deslizamento da cadeia destes, não para nem quando se decide estar de férias.
Meus ouvidos estavam em Madri, uma cidade incrível, cujo idioma sempre me soou a palos de flamenco, fortes, ritmados, dramáticos e alegres ao extremo. Decidimos que estas férias seriam mais culturais e, portanto, alugamos um apartamento no bairro histórico da cidade. Tínhamos como vizinhos de andar um casal de idosos e uma outra família também de férias. Em um belo domingo de sol no inverno de Madri, meu marido e filha decidiram ir ao Rastro, uma sorte de feira livre gigante, que se vende todo tipo de quinquilharia, animais e comidas. Como eu havia vivido em Madri por alguns anos, o passeio não me atraiu e decidi tomar um café com uma amiga no Mercado de San Miguel. Ao voltar ao apartamento me dei conta que não estava com as chaves e que minha família não havia retornado. Sentei-me no corredor em frente a porta, pretendendo aguardá-los enquanto me distraia nas redes sociais. De repente, no apartamento ao lado inicia-se um diálogo que meus ouvidos tentaram em vão não dar atenção.
Descrevo aos leitores algumas partes, farei em português, mas acreditem, em castelhano a cadência e a intensidade é outra, é pungente e divertida ao mesmo tempo.
A conversa começa com uma voz masculina dizendo:
— Antes de irmos ao Retiro, quero ir à Vallecas na loja de produtos de caça. Avise sua irmã que chegaremos mais tarde.
Uma voz feminina responde:
— Mas não foi isso que combinamos. Em Budapeste você pode comprar tudo isso e muito mais barato. Quero disfrutar do sol, do Parque do Retiro e da presença da minha família. Essas férias foram feitas para isso, para que eu pudesse vê-los e matar a saudades da minha cidade. Além do que as crianças precisam conviver mais com eles. Se formos a Vallecas perderemos toda a manhã, além de ser um bairro que não tem nada para as crianças conhecerem.
— As férias não são suas, você não pode decidir sozinha o que fazer.
— Eu não decidi nada sozinha, faz um ano que estamos organizando esses trinta dias aqui e o fizemos juntos.
— Preciso das minhas tralhas de caça. Podemos ver Madri e sua família outra hora.
— Vamos fazer assim, você vai a Vallecas e eu e as crianças ao Retiro. Você nos encontra lá quando tiver terminado as compras.
Em tom mais alto, ele arremeteu:
— Você nunca faz o que eu te peço.
Ouviu-se o choro delicado de uma criança.
— Não se trata disso. Eu vou ao Retiro com as crianças e você fica tranquilo fazendo suas compras.
— Sempre do seu jeito, nunca do meu. Essa viagem não é sua. O que te custa me acompanhar?
— Eu não quero ir, as crianças não querem ir, é longe. Não comecemos uma discussão infrutífera na frente deles.
— Eu faço tudo por vocês e quando peço algo, vocês me ignoram.
— Mas por que você faz tanta questão que estejamos com você na loja?
— Porque quem sabe assim posso dividir algo meu com vocês. Quem sabe as crianças se orgulhem do meu esporte.
— É isso? Você está falando sério? Está com ciúmes porque eu estou feliz aqui?
Ouviu-se uma outra voz feminina:
— Pai, nós não gostamos de caça. Somos a favor dos animais, não dos caçadores. Somos espanhóis e nunca fomos a uma corrida de toros.
Ele se alterou ainda mais:
— Veja, você está fazendo escola com seu feminismo, nem nossa filha me admira.
— Pai, não foi isso que eu disse.
— Nossa relação era outra quando nos conhecemos, você me admirava, achava incrível meu trabalho. Quando fomos para a Hungria, seus olhos brilhavam por mim.
— Antônio, estamos juntos há dezessete anos e temos três filhos. Os brilhos são outros.
A esta altura da discussão eu já me perguntava quantos anos de análise as figuras femininas desta narrativa fizeram e quão envergonhado o rapaz estaria se pudesse se ouvir. Pensei também nas milhares de vezes que escutei a descrição de diálogos como este no cotidiano da clínica. Outra questão que não me saia da cabeça era por quê os homens geralmente usam apenas dois recursos discursivos para argumentar com uma mulher. O primeiro, o recurso fálico que tenta se impor até às raias da agressividade física, o segundo, o recurso obsessivo da vitimização, onde a falta fica na mulher, numa tentativa óbvia de anular o mais imprevisível do sujeito feminino.
Tive a sensação de que ele não estava fazendo um pedido de atenção ou buscando uma prova de amor, Antônio queria apenas descarrilhar o trem onde havia embarcado o desejo de sua companheira. Minha intepretação selvagem é de que ela havia desejado muito estar na sua cidade natal, com seus amigos e familiares, tentando, talvez, lembrar-se de outros desejos que não aqueles que envolviam o casamento, o trabalho e a maternidade. E pior, estava conseguindo vivenciar cada um desses desejos.
É claro que ele tentou alongar a discussão, até que a porta se abriu e as crianças saíram. Uma garota de uns quatorze anos, dois meninos entre dez e seis anos. Ao me virem, fizeram um aceno com as mãos e sentaram-se no corredor ao meu lado. O pequeno, que já havia me interpelado para perguntar que língua eu falava com minha família, sentou-se e perguntou:
— Seu marido caça?
— Não Davi, por quê?
— Ele diz para você que seus olhos não brilham mais?
— Não me lembro, por quê?
— Isso parece bom para você, essas discussões sobre mulheres e homens são muito chatas, deveriam ser proibidas pelo rei Felipe VI.
Todos rimos.
Quando voltei a ouvir o casal, Antônio falava dos votos que ela lhe fez no dia do casamento. Ele listou muitas coisas como se ela as tivesse prometido a ele e não cumprido. Ela retrucou:
— Tudo que eu disse naquele dia foi verdade, mas eram votos e não promessas, você os ouviu como quis.
— Que garantias você me dá, Macarena, sobre o quanto posso contar com você?
— Não sei, o quê você chama de garantias?
— Por exemplo, acompanhar-me na loja de caça e abrir mão do seu plano inicial.
Depois de certa pausa de um silêncio sepulcral, ela desferiu uma flecha.
— Nenhuma, segundo os seus termos eu sou uma mulher sem garantias. E basta já destas bobagens todas.
Ela abriu a porta, chamou a crianças e eles se foram a um dos lugares mais encantadores de Madri.
Eu continuei no corredor esperando minha chave, atônita e feliz ao mesmo tempo. Já estava pensando que Uma Mulher sem Garantias valeria um textão, dando muitas voltas ao Seminário 20 do Lacan.
Não obstante, depois de muito refletir, fui tomada por uma questão: Uma Mulher sem Garantias falava mais do desejo masculino do que do desejo feminino? Faria mais referência a passividade na qual se permite ficar o homem na divisão fálica do que do enigma d(A) Mulher? Qual desejo persiste no homem? Só o desejo que desponta na série fálica? Simples demais para os nossos tempos, onde a heteronormatividade já não consegue manter a rigidez dos papéis de gênero.
Uma imagem insistia em vir a minha cabeça, pensava numa cena na qual havia uma lebre selvagem, aquelas típicas dos campos espanhóis, de um cinza mesclado com bege, correndo de um lado para o outro, metendo-se em pequenos buracos, porque sabem farejar os cães e seus caçadores à quilômetros de distância. No entanto, a lebre, do nosso tempo, é o enigmático desejo feminino advinda da famosa questão freudiana “O que quer uma mulher?” ou a lebre que nos intriga é a que faz pensar no que desejam os homens, que viram suas garantias correndo pelos campos? Estou segura de que deveríamos nos debruçar nessa caça sobre a atualidade do desejo masculino, que não encontra garantias nem em sua própria mãe, quem dirá em uma mulher.
Boa caça e boa sorte, Antônio!

Ana Cláudia Fossen



Ana Cláudia, é muito bom te ter aqui no blog. Teu texto me fez pensar sobre a inversão do enigma "o que quer uma mulher?" para "o que quer um homem?". Tenho observado que essa inversão tem se atualizado no discurso de muitas mulheres, como um reflexo do fato de não ser nada simples para uma mulher sustentar, na sua vida cotidiana, o "não-toda" de que fala Lacan... a lebre que corre pelos campos? Sim, não dar garantias, o que falta saber é o que isso é para cada mulher.
Jane Silveira
Ana, só posso ficar feliz de você ter levantado a lebre do desejo masculino, essa coisa nada enigmática mas da qual tantas coisas dependem nesse mundo! Oxalá esse Desejo sobreviva à falta de garantia que, nós mulheres, de fato, nunca lhe poderemos oferecer.
Ana Cláudia, adorei teu texto. Admirável teu ouvido analítico que não deixa escapar um detalhe se quer sobre o diálogo do casal vizinho. Este me fez pensar que Antonio provavelmente deve ter sido não só o grande falo de sua mãe como também sua única garantia. Ele não quer só a lebre, quer também ser visto com a pose. Já Macarena me lembra Alice, prefere ir atrás do "coelho branco" e descobrir os encantos de Madrid. Homem e mulher, que raças diferentes!! rsrs....curtí demais a leitura, obrigada!