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#VERSOS CLÍNICOS

Foto do escritor: DESIGUALblog
DESIGUALblog
18 de jun. de 2021
1 min de leitura


(com agradecimento a Cibele Kiss)


(coisas que as meninas não dizem por que não há palavras para dizê-lo mas encenam no tratamento psicanalítico desde que haja alguém que, ao saber, não o diga em voz própria para que assim haja chance do seu diz-mentido na voz d’um outro)




1.

alguma coisa foi arrancada

sou coisa arrancada

mamãe mille-fois arrancada


cortada, re-cortada

pedaço em pedaços

recolada, diz-colada

com ela toda colada

nela eu toda errada




2.

a mulher surgiu tão errática

quis ser arrumada

não podia ser mã-dada


endiabrada

quando deixa a mãe

por causa da fome passada

devastada

quando deixa a mãe

passando a fome calada




3.

a menina não disse nada

esticou a barra da blusa

muda, sumida no espaço


quando depois encontrada

guardou as coisas na mochila

subiu as escadas apressada

ninguém soube mais

da menina nem-nada




4.

a mulher levantou cedo e ajeitou o cabelo

entrou na cozinha com a cara lavada

o rosto que um sonho ainda espantava


um homem alto, magro e desconhecido

aparecia para buscá-la

no cinto, uma arma para impedi-la da fuga

“serás dele para toda aternidade”

disse quem?


a palavra sonhou ser voz

para dizer a palavra que faltava?

o pai não fora senão o mito

do minto materno que amedrontava?


na paz d’um interdito

a voz fez da palavra

sopro vivo

sol

quase um nada




MT Lemos

Joanopolis, 16 de Junho










 
 
 

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