#VERSOS CLÍNICOS


(com agradecimento a Cibele Kiss)
(coisas que as meninas não dizem por que não há palavras para dizê-lo mas encenam no tratamento psicanalítico desde que haja alguém que, ao saber, não o diga em voz própria para que assim haja chance do seu diz-mentido na voz d’um outro)
1.
alguma coisa foi arrancada
sou coisa arrancada
mamãe mille-fois arrancada
cortada, re-cortada
pedaço em pedaços
recolada, diz-colada
com ela toda colada
nela eu toda errada
2.
a mulher surgiu tão errática
quis ser arrumada
não podia ser mã-dada
endiabrada
quando deixa a mãe
por causa da fome passada
devastada
quando deixa a mãe
passando a fome calada
3.
a menina não disse nada
esticou a barra da blusa
muda, sumida no espaço
quando depois encontrada
guardou as coisas na mochila
subiu as escadas apressada
ninguém soube mais
da menina nem-nada
4.
a mulher levantou cedo e ajeitou o cabelo
entrou na cozinha com a cara lavada
o rosto que um sonho ainda espantava
um homem alto, magro e desconhecido
aparecia para buscá-la
no cinto, uma arma para impedi-la da fuga
“serás dele para toda aternidade”
disse quem?
a palavra sonhou ser voz
para dizer a palavra que faltava?
o pai não fora senão o mito
do minto materno que amedrontava?
na paz d’um interdito
a voz fez da palavra
sopro vivo
sol
quase um nada
MT Lemos
Joanopolis, 16 de Junho




Comentários