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verde enigma de anita

Foto do escritor: DESIGUALblog
DESIGUALblog
10 de dez. de 2020
3 min de leitura

Atualizado: 11 de dez. de 2020

Verde Enigma de Anita


Marcela Verônica da Silva



Anita Malfatti (des)norteia os processos imagéticos ao introduzir neles uma sombra. A desconstrução da realidade que ela realiza tem nas cores o elemento de maior destaque, pois há uma escolha inusitada que se imprime nos títulos de suas pinturas, a exemplo de “A mulher de cabelos verdes”.

Olhando para a imagem da mulher, penso, com Mário de Andrade, que ela nos conduz a alguns “estados emocionais”. O escritor diz que dentro da impetuosidade de seu temperamento, dentro da máscula força com que lida com as suas cores e risca os seus esboços, ou da trágica energia com que escolhe seus assuntos, indelevelmente imprime aos seus trabalhos o delicioso que dá graça ou dá tristeza.

A mulher de cabelos verdes posta ali, na tela, parece causar mesmo algo – um incômodo? – naquele que a vê. Monteiro Lobato foi um desses incomodados, que a respeito de seus quadros, no dia 20 de dezembro de 1917, publicou o artigo “Paranóia ou Mistificação?”. Nele, critica a arte de Anita Malfatti, que culminou no início da estética modernista no Brasil. Lobato diz que sua pintura é caricatura “Caricatura da cor, caricatura da forma – mas caricatura que não visa, como a verdadeira, ressaltar uma ideia, mas sim desnortear, aparvalhar, atordoar a ingenuidade do espectador”.

Mas o que dizer desse desnorteio, aparvalhamento, atordoamento que essa caricatura não-verdadeira causa? Ele estaria nesse traço peculiar tão incomum, os cabelos não-exatamente-verdes, mas que se dizem verdes no escrito? Cabelos, que por si são símbolo da feminilidade? ainda mais esses verdes, que crescem como plantas, formando ramagens...

A imagem mostrada é a de uma mulher idosa, mas que parece conservar algo que não se deixa apreender. Nesse sentido, a cor verde parece remeter a esse insondável que não se dá a ver com nitidez, e que põe lado a lado elementos como a velhice e uma vivacidade que a ela faz contraste. O contraste também se dá na deformação da imagem, responsável por causar o estranhamento necessário a colocar em evidência os sentimentos e o tom introspectivo da mulher representada.

Há, no entanto, outro elemento que chama a atenção - o olhar da figura feminina – seria este o ponto ápice de expressão dos mais recônditos e profundos sentimentos, sugerindo um momento de mergulho que acaba por refletir a alma nos olhos? Esse olhar ambíguo, que nada fixa, que parece perdido em meio a lembranças e que se conserva sereno e enigmático pode associar-se à loucura ou mesmo à tranquilidade...

Assim, se a velhice indica a efemeridade da vida, Anita Malfatti apresenta a mulher idosa com um olhar sem-tempo, porque perdido. Estaria contido nele a presença da morte? Se sim, essa presença não parece ser sentida como algo inquietante, mas antes como uma espera serena.

Essa espera é também tema de um relato da própria artista. Ela diz: Eu tinha 13 anos, e sofria porque não sabia que rumo tomar na vida. Nada ainda me revelara o fundo da minha sensibilidade [...]. Resolvi, então, me submeter a uma estranha experiência: sofrer a sensação absorvente da morte. Achava que uma forte emoção, que me aproximasse violentamente do perigo, me daria a decifração definitiva da minha personalidade. E veja o que fiz. Nossa casa ficava próxima da estação da Barra Funda. Um dia saí de casa, amarrei fortemente as minhas tranças de menina, deitei-me debaixo dos dormentes e esperei o trem passar por cima de mim. Foi uma coisa horrível, indescritível. O barulho ensurdecedor, a deslocação de ar, a temperatura asfixiante deram-me uma impressão de delírio e de loucura. E eu via cores, cores e cores riscando o espaço, cores que eu desejaria fixar para sempre na retina assombrada. Foi a revelação: voltei decidida a me dedicar à pintura.

Se esse limiar foi um dos momentos de revelação na juventude, teria isso trazido a ela uma intimidade com a morte e teria sido dessa intimidade que surgiu a mulher, esta que, apesar da máscula força, contempla - o nada, entre o centro e a ausência?



Marcela Veronica da Silva é pós-doutoranda em Teoria e Críticas Literárias no IEL/UNICAMP e interessada nos nós dos cabelos das mulheres que podem (ou não) se fazer escrita.

 
 
 

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