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Um programa de auditório na tevê

Foto do escritor: DESIGUALblog
DESIGUALblog
26 de mar. de 2021
2 min de leitura

Atualizado: 27 de mar. de 2021


(A e J, as duas irmãs, ouvem um programa de auditório na tevê; a certa altura o apresentador dirige-se ao auditório com a saudação: Bom dia!)


A (a mais velha): Bom dio!

(J, a mais nova, faz uma intervenção, “corrigindo” a irmã.)

J.: Bom dio é para homem. Bom dia é para mulher.

(D - 5;2.17)


Para quem interage com crianças e as acompanha na sua trajetória pela linguagem, não pode deixar de se afetar com o que surge de imprevisível na sua fala.

Um exemplo disso, é o insólito que comparece na fala da criança como no diálogo acima, em que a criança se vê às voltas com um conflito da ordem de um endereçamento da expressão “bom dia”, em relação a um homem e uma mulher.

Parece que o que está em jogo para a criança na formulação de uma regra de cumprimento, se assim pode se dizer, é a articulação entre a diferença sexual e o endereçamento de uma fala tomada como feminina ou como masculina. Daí dizer, “bom dia para mulher, bom dio para homem”.

Como se vê, a despeito de não existir na língua portuguesa a expressão “bom dio”, em oposição a expressão “bom dia”, a criança faz a língua se dobrar à diferença sexual, ao atribuir um saber à língua sobre o endereçamento de uma fala feminina às mulheres e o endereçamento de uma fala masculina aos homens.

Assim, à guisa de sua ingenuidade e acreditando que a língua sabe como cada sexo deve ser falado, a fala da criança exibe que, por efeito de linguagem, um sujeito pode vir a emergir como falante sexuado.

Cabe aqui lembrar o texto A carta roubada em que Lacan discorre sobre a posição de objeto que se encontra um sujeito que aceita receber a carta cuja mensagem não reconhece, porque não foi escrita para ele ou para ela, mas para o outro. Não seria o conflito da ordem de um endereçamento que a criança se vê às voltas e que a leva, como um pequeno comandante, a fazer a língua se dobrar em relação à diferença sexual, um modo da criança de se haver com sua posição de objeto do Outro? Ou ainda, um modo de recalcar a sua posição de objeto do Outro?


O episódio de fala citado nesse texto foi extraído do trabalho de pesquisa de Rosa Attie Figueira, na área de aquisição de linguagem.

 
 
 

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