UM ENCONTRO COM BARBARA CASSIN

Um encontro com Barbara Cassin
Nestor Lobo Lima Vaz
Membro da Escola Letra Freudiana do Rio de Janeiro/RJ
(texto inédito)
Em setembro de 2019, recebi um convite de Claudio Oliveira e de Carla Francalanci para participar de um debate sobre um livro de Bárbara Cassin, Jacques, o Sofista, que havia sido traduzido para o português e publicado em 2017 pela Editora Autêntica. O encontro e o debate com Barbara Cassin, se deu em outubro, no IFCS, da UFRJ, juntamente com lançamento do dicionário dos intraduzíveis em português.
Essa obra, por fazer aparecerem as diferenças, as singularidades de cada língua, ou mesmo d’alíngua, trouxe uma movimentação ao mundo acadêmico e uma repercussão nos vários países onde foi publicada. Eu conhecia a versão francesa desde o seu lançamento na França. O encontro era um momento de expectativa pelo fato de que eu já havia lido livros da autora e de admirá-la na sua empreitada como helenista, filóloga e por ter acompanhado alguns de seus debates com Alain Badiou. O lançamento de um livro falando sobre Lacan e a Psicanálise e, um pouco antes, um livro sobre a célebre frase de Lacan de que não há relação sexual, isto é, um livro sobre o “Aturdito”, mostrou-me seu interesse e afinidade com a psicanálise e mais particularmente com Lacan.
Foi através de Claudio Oliveira que pude acompanhar o percurso de Barbara Cassin. No prefácio da Edição brasileira do livro “Se Parmênides”, ele descreve bem o percurso e a importância de Bárbara Cassin e também da aproximação que a autora faz da psicanálise em relação à sofística.
A história do encontro da autora com Lacan é bem anedótica e, para além de ilustrar as idiossincrasias de Lacan, marcou bem o interesse dele pela doxografia. O modo de descrever a causa desse interesse nos traz o estilo singular da exposição da autora que tem trabalhos importantes sobre os sofistas e os ditos filósofos pré-socráticos utilizando a doxografia. E a doxografia trata justamente de uma transmissão de fragmentos, pedaços de obras coligidas da filosofia grega e quase toda filosofia pré-socrática e muitas coisas do epicurismo e do estoicismo. Recolher o dizer desses filósofos sem saber exatamente o sentido original. A tradição filológica se instituía assim pela citação.
[...]” especificamente a palavra como independente de quem a profere, e não enquanto ela significa, mas enquanto ela existe”. (BENVENISTE, Emile. O vocabulário das Instituições indo-européias. Campinas: UNICAMP. 1995, v. 2.)
O sentido original não é dado na letra e não se encontra em lugar algum e o que resta é um jogo infinito de interpretações sobre esse sentido. Ao articular o significante doxografia, Barbara Cassin inicia pela grafia e nos mostra duas formas de transmissão. A primeira é uma transmissão oral, ilustrada pelo Íon de Platão: transmissão pela palavra, cadeia de presenças, transmissão do entusiasmo, pois o entusiasmo é oral para os gregos. A segunda é uma transmissão pelo escrito, ilustrada pelo Fedro de Platão, onde numa retransmissão de Derrida “o escrito não tem nada a fazer senão se virar sozinho.” (CASSIN, Barbara. Jacques, o Sofista, Belo Horizonte: Autêntica, 2017, p. 38)
Barbara Cassin nos mostra imediatamente duas citações: uma do Discurso de Roma e a outra do seminário sobre a carta roubada de Lacan como exemplos da segunda forma de transmissão:
“Um nada de entusiasmo é, num escrito, o traço mais seguro a deixar para que ele marque uma data, no sentido lamentável” (LACAN, Discurso de Roma, in: Outros Escritos, Rio de Janeiro: Zahar, 1998, p. 229)
e, em seguida,
“Sua essência é que a carta/letra tanto pôde surtir seus efeitos internamente, nos atores do conto, inclusive o narrador, quanto do lado de fora: em nós, leitores, e também em seu autor, sem que ninguém jamais tenha tido que se preocupar com o que ela queria dizer: destino comum de tudo o que se escreve”. (LACAN, O seminário sobre “A Carta Roubada” in: Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998, p. 61)
Essa segunda forma é que tem a ver com a grafia da doxografia, pois ninguém se preocupou com o que ela queria dizer mas com aquilo que ela passava na transmissão. Quanto ao significante doxa o sentido oscila e muitas vezes passa a significar o oposto: opinião, fama, glória, aparência enganosa, fux semblante.
“De tal modo que o sentido de doxa deve ser a cada vez negociado em relação ao sentido de alêtheia, opinião versus verdade [...]” (CASSIN, B. Jacques, o sofista. Belo Horizonte: Autêntica 2017, p. 44)
Uma oposição entre a Sofistica e a Filosofia que se encontra entre doxa e alêtheia pode ser lida pela sofística como “fazer com que a doxa seja tal que a alêtheia não possa dela se separar”. Em seguida num fragmento de Górgias:
“O ser é invisível [aphanes] se ele não alcança o parecer [dokein], e o parecer é fraco [asthenes] se ele não alcança o ser”. (Górgias. 82B 26 DK, citado por Barbara Cassin)
Mas no que diz respeito a aproximação da Sofistica e Psicanálise, ela nos diz que “[...]o campo compartilhado pela sofística e pela psicanálise lacaniana é o discurso em sua relação rebelde com o sentido, que passa pelo significante e pela performance, e sua distância para com a verdade da filosofia”. (CASSIN, B. Jacques, o sofista. Belo Horizonte: Autêntica, 2017, p. 120)
“O psicanalista é a presença do sofista em nossa época, mas com outro estatuto”. (Lacan Seminário inédito 12) O início do debate trouxe uma referência a esta frase de Lacan e a uma outra de Jean-Paul Dumont, em sua primeira tradução dos sofistas onde se dizia que o primeiro consultório teria sido aberto na ágora por Antifonte, o sofista:
“Antifonte compôs, além da poesia, uma arte do desentristecimento [teknê alupias] como a terapia em uso entre os médicos para os doentes. Ele instaurou um consultório [oikêma ti] perto da ágora, em Corinto, e sobre a placa inscreveu [proegraphen] que ele podia tratar aqueles sofrem [tous lupomenous, os entristecidos, os aflitos] com nada além de palavras [dia logôn therapeuein], e que, pela tomada de consciência das causas [punthanomenos tas aitias], ele reconfortaria os fatigados exortando-os pela palavra [paremutheito tous kamnontas].” (DUMONT , J.P. Les Sophistes, Fragments et témoignages. Paris: PUF, 1969) (SUP : Les Grans textes).
Barbara Cassin toma alguns dos traços da escola fundada e dissolvida por Lacan a partir dos seus estudos de doxografia e os agrupa em duas séries: o estatuto do ensino, por um lado, e o estatuto do fato e da verdade, por outro lado. Essas séries convergem sob um ponto que é o de ficção ou de fixão, usando um significante de Lacan do Aturdito.
Uma primeira questão é “o que é uma escola?”
“Escola Freudiana de Paris, ‘Freudiana’, o mestre tem um mestre; ‘de Paris’, o lugar se opõe a outros lugares. Seja então o lugar: Paris. Trata-se, para Lacan, de deixar clara a diferença entre a linhagem francesa e a obediência anglófona, diferença explicitada no preâmbulo publicado após o Ato de Fundação”. (CASSIN, B. Jacques, o sofista. Belo Horizonte: Autêntica, 2017, p. 93)
Barbara Cassin nos remete assim às origens da filosofia em Anaximandro e Pitágoras: uma linhagem jônica e outra itálica, segundo Diógenes Laércio. Marcadas pelos ensinos desses dois mestres.
“A identidade desses topoi tem por função sublinhar que a origem de uma escola é, ao mesmo tempo, uma ficção de origem.” (CASSIN, B. Jacques, o sofista. Belo Horizonte: Autêntica, 2017, p. 95)
A segunda questão: “o que se transmite em uma escola? O que é que passa?” Isso nos remeteria a uma oscilação entre citação literal e matema. Ela utiliza o termo logion de Milner, “designando com isso uma proposição transmissível marcada por sua sintaxe a mais simples possível e por sua recorrência[...]”. (MILNER, J.C. A obra clara: Lacan, a ciência, a filosofia. Rio de Janeiro: ZAHAR, 1996) Teríamos assim “O inconsciente é estruturado como uma linguagem” ou “Tudo é água” ou “Tudo é Um” ou ainda “O homem é a medida de todas as coisas”. Proposições que se referem a Lacan, a Tales de Mileto, a Parmênides e a Protágoras.
“A citação literal procede, assim, do bem-dizer, na medida em que ele passa – à posteridade”. (MILNER, J.C. A obra clara: Lacan, a ciência, a filosofia. Rio de Janeiro: Zahar, 1996)
Milner se refere ao matema como um segundo classicismo de Lacan que viria substituir o logion. Barbara Cassin cita duas frases de Lacan que marcariam essa oscilação: a primeira recolhida do seminário Mais Ainda e a segunda do Aturdito.
“A formalização matemática é nosso fim, nosso ideal. Por quê? Porque só ela é matema, quer dizer, capaz de se transmitir integralmente”.
“Do não-ensinável criei um matema por assegurá-lo pela fixão da opinião verdadeira – fixão escrita com x, mas não sem recorrer ao equívoco”. (LACAN, J. O Seminário: Mais ainda. Rio de Janeiro: Zahar, 1985, p.161)
Para Barbara Cassin, a doxa, seria esse “’não-ensinável integralmente ‘fix(ion)ado’”. Ela adota a posição de Milner de que a dissolução da Escola seria uma dissolução do matema. Ela nos lembra da célebre frase de Lacan por ocasião do encerramento do 9º Congresso da Escola Freudiana de Paris sobre a transmissão:
“[...]minha proposição, aquela que instaura o que chamamos o passe, no qual confiei em alguma coisa que se chamaria transmissão, caso houvesse uma transmissão da psicanálise.
Tal como agora chego a pensá-la, a psicanálise é intransmissível. É muito desagradável. É bem desagradável que cada analista seja forçado – pois é preciso que ele seja forçado – a reinventar a psicanálise.” (LACAN, J. Congresso sobre a transmissão. 1979)
Não chegamos a discutir muitas questões, mas a posição de Barbara Cassin é sempre muito crítica em relação ao matema como podemos ver em alguns debates com Alain Badiou. E, no entanto, é preciso recorrer a ele se quisermos entender muitas das posições de Lacan e, principalmente, em questões clínicas onde o debate de conceitos não traziam uma resposta empírica aos labirintos dos ditos dos analisantes em relação ao dizer. Mas ela própria recorreu a tábua da sexuação quando falou da posição feminina de não-toda.
Continuando por essa via encontramos duas citações de Lacan feitas por Barbara Cassin:
“De repente dei-me um tapa na cabeça dizendo: ‘mas não há palavra grega para designar o sexo’”. (LACAN, J. O avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1992, p. 60)
Sabemos por que os sofistas ao mesmo tempo operavam com tanta força e também sem saber por quê. Essa grande força repousa nisto, que a análise nos ensina, a saber, na raiz de toda díade há a díade sexual, o masculino e o feminino”. (LACAN, J. O avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1992, p. 60)
Barbara Cassin se detém algum tempo em falar do Elogio de Helena de Górgias.
“o interesse da sequência pharmakon-magia-retórica, presente no Elogio de Helena, é que ela é vetorizada pela potência não apenas de produzir afetos sobre o outro, curar e persuadir, mas também de produzir objetos novos como Helena (efeito-mundo) e, ao mesmo tempo ou por isso, gozar e fazer gozar (poesia)”. (CASSIN, B. Jacques, o sofista. Belo horizonte: Autêntica, 2017, p.193)
A cena que ela descreve acontece na Odisséia, depois da guerra acabada, quando Helena está de volta a Esparta com seu marido Menelau. Na cena do casamento de um dos filhos de Helena e Menelau há um choro imprevisto de Telêmaco estragando a festa. Helena utiliza um pharmakon para “dissipar a dor e a cólera” para tornar possível um gozo discursivo. Estórias sobre a guerra de Troia onde ela viveu por dez anos, com Páris e depois da morte dele com seu irmão. Isso narrado na presença de Menelau.
“Vejam a complexa situação: Helena, o que quer que tenha sido sua pretensão pouco antes, está traindo os guerreiros gregos, dentre os quais se encontram Ulisses e Menelau, seu esposo ora reencontrado. E é ele quem conta hoje a história. Ela desconfiava de que eles estivessem no interior da máquina-cavalo, ela queria que eles se traíssem. E, para que eles se traíssem, elas os tornou desvairados de desejo – conta ele, então- imitando, para cada um deles, a voz da mulher de Ajax, ‘Ulisses’ com a voz de Penélope, e ‘Menelau’ com sua própria voz de Helena”. (CASSIN, B. Jacques, o sofista. Belo Horizonte: Autêntica, 2017, p. 201)
Barbara Cassin conclui então que voz humana é o pharmakon por excelência.
“O objeto do desejo é a voz don juana que chama cada homem por seu nome, um por um: ‘A voz está livre, se posso assim dizer, livre pelo fato de ser outra coisa que não substância’” (CASSIN, B. Jacques, o sofista. Belo Horizonte: Autêntica, 2017, p. 203-204)
Diante da ontologia, a tese sofística e a tese lacaniana são uma só: o ser é um efeito do dizer, um ‘fato de dito’. É sobre esse ponto, nesse posicionamento, que Lacan não pode não ser dito sofista [...] Helena equivaleria a todas as mulheres, faria existir a/uma mulher.
Talvez aqui pudéssemos marcar um uso do matema, justamente o da compacidade para realçar o mito de Don Juan, do qual Lacan nos diz que é um mito feminino, porque nos permitiria extrair dos transfinitos cantorianos o poder contar uma a uma, ou um a um numa sequência finita que suporia uma ordem, mas que não fundaria um universalizável na medida em que não se trata do particular do um a um, mas de uma singularidade que advém como surpresa. Poderíamos dizer de Helena como mito que ela não pertence a nenhuma categoria de realidade por ser um personagem da literatura, da poesia e ao mesmo tempo em que nos apresenta uma outra dimensão por onde olhar o real da vida.
O livro de Barbara Cassin tem muitas outros brilhos que um pequeno resumo não tem como reunir. É preciso ir ao texto.
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