SOPA DE LETRINHAS EM COPACABANA BEACH

Atualizado: 2 de mar. de 2021
Capítulo 4
Final
O jantar que Janete serviu de maneira elegante sob a toalha quadriculada na mesa da sala foi logo degustado por Alberto Almeida.
A janela do apartamento alugado por ele fazia moldura à noite desencontrada, à música e ao beijo inusitado, em Copacabana. A madame tragou o cigarro fino, longo e, o sujando de batom vermelho, baforou na cara de Alberto Almeida. Ele, com o rosto envelhecido envolto na fumaça e de olhos vidrados, como que capturado de súbito por um gozo, imaginou ser servido de uma sopa de sachê, daquelas prontas em dez minutos e encontradas facilmente em promoção nas gondolas dos mercadinhos espalhados pela cidade. Gozo, essa é a palavra.
Receoso de que essa cena de fato viesse a acontecer, declarou abruptamente com certa docilidade: “onde vou encontrar uma mulher como você, Janete?” Concomitantemente com um sorriso, a resposta de Janete Carvalhal a Alberto Almeida foi interrompida pelo toque do seu celular; era Gustavo Faral que prometera, assim que chegasse de viagem, dar um alô. Contou que estava hospedado no Hotel Copacabana Palace e que estava ansioso para vê-la naquela noite.
Contente e excitada com a ligação, Janete junto a mesa próxima à saída, onde se depositava uma garrafa de uísque e um terço de contas de plástico multicoloridas, se apressou em se despedir de Alberto Almeida. Não sem elogiar a sopa, ele se despediu com um certo azedume.
Madame desceu as escadas com o pensamento na ligação que acabara de receber de Gustavo Faral. Na portaria do prédio, se deparou com o porteiro que, lustrando vigorosamente com uma flanela os metais da porta do elevador, deu boa noite e lançou um olhar atento e curioso às pernas longas da madame. A curiosidade do porteiro instigou em Janete a lembrança do que o porteiro pronunciara algumas horas atrás: “A senhora quer ir ao apartamento do ‘Alberto da Regininha’?”
Naquele mesmo instante, as palavras de Zélia, a diarista, vieram à memória “melhor do que tarô, só um detetive”. Janete não podia perder a oportunidade, nem que fosse só por pura curiosidade. Afinal, quem era Regininha?
Depois de receber uma grana da madame, ou de uma forma mais refinada, um agrado, o porteiro confidenciou que Regininha era uma garota do tipo formiga saúva que, para sobreviver, oferecia, além da liberdade e companhia, a bunda em troca de dinheiro. A narrativa do porteiro era como uma sopa instantânea em pó, criando bolinhas que teimam em se misturar à água; aquilo bastava, não queria ouvir mais nada. Enfim, assim como a puta é a mais antiga das profissões, o que o porteiro dissera não era novidade nenhuma.
Janete tirou da bolsa o perfume francês, colocou duas gotas em cada pulso e seguiu em direção ao Hotel Copacabana Palace. Gustavo Faral a esperava na calçada, em Copacabana, com seu perfume e charme habitual, com o corpo bronzeado das praias da Califórnia.
J Silveira



Jane, gostando muito dessa historia toda! é divertido demais..