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SOPA DE LETRINHAS EM COPACABANA BEACH

Foto do escritor: DESIGUALblog
DESIGUALblog
12 de fev. de 2021
3 min de leitura

Capítulo 3


Uma hora antes de sair rumo ao apartamento de Alberto Almeida, enquanto a sopa cozinhava na panela de pressão elétrica, Janete ordenou a assistente virtual, Siri, a reproduzir a música de Barry Manilow, Copacabana. Achava que essa música tinha tudo a ver com a ocasião, porque acreditava que comida e música combinam do mesmo modo que certos pratos combinam melhor com água, vinho ou champagne.

Sem pressa e, em frente ao espelho, ela penteou os cabelos e pintou a boca com um batom da cor vermelho carmim. Depois, calmamente, calçou as sandálias de salto alto de tiras finas e, finalmente, colocou duas gotas de perfume francês de aroma fresco nos pulsos, o preferido de Gustavo Faral.

A sopa estava pronta; cuidadosamente, Janete a colocou numa sacola, como se pusesse ali um objeto frágil. Pegou as chaves, saiu de casa e, já no elevador, fixou o olhar no movimento das portas pantográficas de metal dourado, que se abriram diante dela. Então, se viu refletida no espelho que cobria as paredes do elevador.

Já em frente ao prédio em que Alberto Almeida morava, desceu do carro e, depois de alguns passos, comunicou ao porteiro:

- Boa noite, eu gostaria de ir ao apartamento de Alberto, apartamento 304. O senhor poderia me anunciar? Meu nome é Janete. Ele está me esperando.

- Boa noite. A senhora quer ir ao apartamento do Alberto da Regininha? Claro! Um momento.

Janete surpresa e com certa curiosidade pensou: Alberto da Regininha? Que Alberto é esse? O fato era que Alberto Almeida havia se engraçado com uma mulher que, além de lhe visitar com frequência, tinha certa intimidade com o porteiro do prédio.

Diante da porta do 304, quem a recebe é uma ex-namorada que, mais tarde Janete ficou sabendo, lhe prestava mimos e cuidados que aquele momento de enfermidade exigia. De súbito, pensou: ao contrário de Gustavo Faral, Alberto Almeida seguia à risca as ideias de Nelson Rodrigues, “homem que é homem não perde uma ex-namorada, nem uma se quer.”

Pouco a pouco, entre a narrativa de como tinha sido a cirurgia e o pós operatório, o diálogo correu solto entre os três. A ex-namorada, uma mulher de fala solta e descolada, estava de saída. Minutos antes de deixar o apartamento, contou, sem inibição e com senso de humor que lhe era característico, que namorava um rapaz por quem não nutria nenhuma paixão, embora fosse muito bom de cama. Ao ouvir atento a confissão da ex, Alberto Almeida, que ainda sentia desconforto na região operada, sentiu um grande alívio e convicto advertiu:

- Oh, não larga esse cara não! Esse cara é bom pra você.

Com essas palavras, na tentativa de persuadir a si mesmo, Alberto Almeida sustentava a maior de suas vaidades de que, apesar de gostar da companhia feminina e receber afeto, era um homem solitário.

A ex-namorada enfim partiu com a promessa de voltar no dia seguinte. Janete, no mesmo instante, lembrou da sopa que havia deixado em cima do balcão da cozinha e tratou de servi-la. Alberto Almeida, prostrado no sofá da sala, em que lia as notícias no computador que colocara sobre a barriga, parecia ter sido pego por uma angústia naquele momento exato em que iria provar a sopa da madame. Com o olhar assustado, interrompeu os gestos elegantes de Janete que estendia a toalha na mesa e não se contendo perguntou:

-Tanta felicidade! de onde você tira essa felicidade?

Embora o som dos tiros de fuzis vindos da favela, iluminando o céu de Copacabana, e a felicidade de Janete irritassem Alberto Almeida, isso não foi suficiente para tirar o apetite diante daquela sopa deliciosa. Por um instante, a felicidade que se apresentava como um enigma naquela mulher, se confundiu com o mistério em torno do homem assim nomeado pelo porteiro do prédio de “Alberto da Regininha”.

Quem era Regininha? Naquela noite, depois do jantar, Janete iria subornar o porteiro e se encontraria com Gustavo Faral.


J Silveira

 
 
 

1 comentário


rmisailidis
rmisailidis
14 de fev. de 2021

Quanto suspense em "Sopa de letrinhas" , vamos em frente, Jane!! não perco uma

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