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SOPA DE LETRINHAS EM COPACABANA BEACH

Foto do escritor: DESIGUALblog
DESIGUALblog
4 de fev. de 2021
2 min de leitura

Atualizado: 7 de fev. de 2021



Capítulo 2



Quando saiu do supermercado, Janete, munida dos ingredientes da sopa, foi direto para casa. Quem atende a porta toda serelepe é Zélia.

– Deixei a casa que é um brinco, madame! Veja!

A diarista, uma mulher suburbana, vaidosa e com o corpo tatuado, pegou as sacolas da mão de sua patroa e percorreu o corredor orgulhosa de ter limpo e encerado o taco, a ponto de refletir as pernas longas e bem desenhadas de Janete, que por sugestão de Alberto Almeida estavam no seguro.

Não era difícil adivinhar a peça de roupa preferida da madame. Ma-da-me, era assim que Alberto Almeida fazia questão de chamá-la. Janete frequentemente vestia saias curtas e longas, essas últimas de seda pura, geralmente compradas em lojas de grifes exclusivas que combinavam com seu andar elegante. As mini saias, outro hábito, usava para caminhar e andar de bicicleta na orla de Copacabana, Ipanema e Lebon. Tinha um estilo denominado pelas pessoas com quem convivia de hippie chic.

Acabado o serviço, a diarista comunica:

- São duzentas e cinquenta pratas, madame. Vou usar esse dinheiro para pagar o tatuador, diz, exibindo a nova tatuagem. Uma carta de tarô tatuada na batata da perna.

Curiosa e confiante de que poderia palpitar na vida da patroa e entender por que Janete havia deixado Gustavo Faral, um homem rico, carinhoso, de uma família tradicional, para se envolver com o seu oposto, Alberto Almeida um homem sedutor de meia idade, com experiência e esperteza adquirida na vida mambembe, Zélia faz o convite:

- A madame não quer tirar o tarô? Custa bem menos do que uma sessão de psicanálise, eu garanto. Dizem que o tarô lê até o inconsciente e, acariciando a tatuagem na batata da perna que retratava a carta os enamorados, prossegue, “pra mim, melhor que tarô só um detetive”.

Não se deixando, naquele momento, ser levada pela conversa da diarista, Janete foi categórica:

-Tarô, benzedeira, bruxaria e afins não tem nada a ver com a psicanálise, Zélia! Pelo menos a que eu acredito. Tu tens cada uma! Está aqui o dinheiro, obrigada.

A diarista colocou o dinheiro na bolsa e partiu. O diálogo com Zélia deixou Janete pensativa. O fato é que a curiosidade da diarista e, sobretudo a hipótese de um detetive, desencadeou uma série de perguntas que ainda não se tinha feito. Será que Alberto Almeida estava acompanhado? Se sim, quem estaria lhe fazendo companhia? Apressada correu para a cozinha para colocar a panela no fogo e descascar os legumes, logo mais levaria a sopa para o enfermo. Agora o que ocupava seus pensamentos era o rosto triste, de solteirão, com ar de estar à deriva na vida, de Alberto Almeida que, num jantar na Lagoa Rodrigues de Freitas, lhe mostrara a receita médica com a indicação da cirurgia.

J Silveira




 
 
 

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