SOPA DE LETRINHAS EM COPACABANA BEACH

Atualizado: 30 de jan. de 2021
(uma história em 4 capítulos)
Capítulo 1
A loucura feminina parece ter encarnado em Janete e se misturado ao mormaço daquele dia quente e sonolento em Copacabana. Os velhos, sem camisa e de calção de banho de uma cor só, jogavam xadrez no tabuleiro pintado no tampo de cimento das mesas cravadas na praça. O gosto e a fidelidade ao jogo se aliavam à aposentadoria, à fuga da vida compartilhada com suas esposas e, claro, a curiosidade pelos corpos dos travestis e das putas pobres. Essa era a velha novidade: as putas! as putas! as putas! As palavras “as putas!” preenchiam a boca dos velhos e faziam gozar os ouvidos e as orelhas cansadas do som que faziam as peças arrastadas e deslocadas no tabuleiro preto e branco.
A cena fez com que Janete lembrasse de ter lido uma pesquisa de um professor universitário que certos travestis não gostavam que lhe tomassem como homens, mas como mulheres, e isso deveria ficar registrado nas palavras. Os seios volumosos, a bunda siliconada, a boca pintada de batom vermelho, as unhas longas, os cílios e cabelo postiços, a saia curta e o decote não faziam o trabalho sozinhos. Por exemplo, a palavra “querido”, se alguém assim os chamassem, denunciava o endereçamento da palavra a um homem. As palavras deveriam ser pronunciadas no feminino, “querida” portanto.
“Querido” e “querida”, feminino/masculino, homem/mulher, pensou Janete. Mas “querides”? Ou ainda, “queridxs”? Apagamento da diferença sexual? Nenhum nem outro? Talvez isso representasse o politicamente correto que está a um passo do moralismo contemporâneo, cuja ideia não admite discordância.
Não era hora para pensar sobre as palavras, afinal havia saído de casa para ir ao supermercado. Tinha sido tomada por um forte desejo de fazer uma sopa. Músculo, cenoura, batata, couve, abóbora, milho verde. Mas não era qualquer sopa, era uma sopa para Alberto Almeida. Ele havia feito uma cirurgia de varizes e deveria estar naquele apartamento soturno, entediado e sozinho. Era uma boa oportunidade de checar o clima entre nós. A ideia de ir até lá dava medo, um medo excitante e pueril. Não poderia faltar o pacote grande de Cheetos da Elma Chips. E não podia ser o amarelo, tinha que ser o laranja sabor parmesão.
J Silveira




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