RIR É O MELHOR RECALQUE

Basta ler os episódios de fala de crianças citados no texto “A diferença sexual na fala de crianças”, publicados aqui no blog, para não só ser afetado pelo efeito chistoso que esses enunciados são capazes de produzir, bem como sacar que as crianças ao pronunciá-los não têm a intenção de fazer rir.
Veja-se o episódio abaixo:
(J dá uma batida no braço; forma um galo; a mãe mostra à avó, dizendo:)
M: Fez um galo.
J: Não é “galo”, é “galinha”.
(D -3anos e 3 meses)
É possível dizer que passa despercebido para a criança o efeito chistoso criado junto ao adulto, uma vez que a palavra “galinha” pode ser interpretada como a fêmea do animal galo e não como um machucado.
Freud, no seu livro Os chistes e sua relação com o inconsciente, ao se deparar com a técnica presente nos chistes a serviço do ingênuo na fala da criança, afirma que a criança é indiferente à possibilidade de seu enunciado ser potencialmente capaz de provocar o riso no seu interlocutor.
Nesse sentido, no capítulo, “Os chistes e as espécies do cômico”, Freud descreve e analisa um episódio de fala de crianças e o qual descrevo aqui. Trata-se de duas crianças que montam um drama para um público de tios e tias. A cena representa um casal, um pobre pescador e sua honesta esposa que, lamentando-se dos duros tempos e seus parcos ganhos, se separam, indo o marido em busca de fortuna. Ao cabo de alguns anos, o pescador retorna rico com uma grande mala de dinheiro e a mulher o acolhe em seu retorno, dizendo-lhe: “eu também não perdi tempo com sua ausência”. Abre então a porta da cabana e revela aos olhos do marido doze grandes bonecas deitadas no chão, adormecidas. A esse ponto da apresentação, as crianças atônitas assistem explodir o riso entre os adultos.
Nota-se que Freud se vale de um episódio de fala de crianças que implica a questão da sexualidade para fazer ver que, diferentemente dos adultos, as crianças não são afetadas pelo efeito chistoso que seus enunciados são capazes de produzir. Ainda, segundo Freud, a criança carece do sentimento do cômico decorrente da ausência de inibição interna, inexistente nela e isso explicaria a razão pela qual a criança não obtém prazer na produção de chistes ingênuos, diferentemente do adulto que tendo a inibição sob suspensão obtém prazer no chiste.
Essa importante afirmação, leva a pensar no conceito freudiano de recalque e permite supor que os episódios de fala de crianças que exibem uma modificação de gênero e que são potencialmente provocadores de riso no adulto, mas não na criança que os produz, são passíveis de ser interpretados como indicativos de que a questão da diferença sexual ainda não caiu sob recalque para a criança.
Uma vez sob recalque e levando em conta o retorno do recalcado, o insólito que irrompe na fala da criança desaparece para surgir de outros modos, em outro tempo e em outro lugar como nos atos falhos, nos chistes, na literatura, no sonho e na poesia.
JSilveira



Comentários