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MARIA MULHER ENTREVISTA BRIGIT SOLANO

Foto do escritor: DESIGUALblog
DESIGUALblog
9 de jul. de 2021
5 min de leitura

Atualizado: 1 de out. de 2021




Maria Mulher viajou a Salvador especialmente para fazer a entrevista da cineasta Brigit Solano para a Revista Per Tutti. Brigit sempre se assumiu discípula de Ingmar Bergman e afirmou que, depois de ver seus filmes, “seguir os seus passos foi muito natural porque Bergman filmava a mulher real, ao contrário dos cineastas que eu conhecia”. Saiba um pouco mais dessa brilhante cineasta e de sua instigante filmografia.


M. Mulher: Brigit, sua obra é fascinante. Sempre tão longe e tão próxima de seu mestre. Gostaria de começar te perguntando como foi o encontro com Bergman?


B. Solano: A verdade é que começamos muito mal. Quando eu lancei em Veneza meu primeiro filme, Despersona, Ingmar ficou furioso, foi até o meu hotel me acusar de plágio.

M. Mulher: Nossa, que macho-alfa! Aposto que você o enfrentou.


B. Solano: Nada disso! Eu o convidei para um scotch on-the-rocks no bar do hotel, mas infelizmente ele só tomava iogurte sueco com bolachas maria. Não estava nada simpático porque, além de tudo, eu havia dito numa entrevista que era hora de deixar de gritos e berros. Eu disse: “Ing, foi só uma brincadeirinha, né?”. Acho que meu approach latino o encantou.


M. Mulher: Na época houve boatos de que “Monica e o percevejo” foi inspirado na intimidade de vocês?


B. Solano: Nada a declarar.


M. Mulher: Ora, Brigit, depois de tantos anos você ainda insiste em negar? Está pregando de boa-moça?


B. Solano: Não tenho nada a esconder, Maria. Logo caímos em um triângulo. Ing queria me envolver no seu rolo com Elizabeth Vogler. Achei muito interessante a paquera a três na gôndola. Além disso, Giuseppe, o gondoleiro, me olhava com um olhar sedutor. Mas vamos parar por aqui.


M. Mulher: Puxa, nossas leitoras gostariam de saber o final dessa estória... Agora me conte, de que forma ele influenciou sua obra?


B. Solano: Seu olhar sobre o feminino. Isso é muito evidente no meu segundo filme “A mulher monocular”. Anna é aterrorizada pela luz do meio dia, só conseguia suportar a luz do fogo. Quando o marido a interna num sanatório, Anna se recusa a falar à psicanalista da clínica. Trata-se de uma mulher que não abre mão do seu sintoma!


M. Mulher: Que interessante! Uma mulher persistente!


B. Solano: Sim, porém, a monocularidade de Anna a fazia tropeçar em si mesma a cada passo. O médico da clínica se apaixonou por ela e queria ajudá-la com o auxílio de uma bengala, mas Anna tudo recusava. O final você já sabe.


M. Mulher: A crítica feminista gosta de dizer que nos seus filmes as mulheres estão sempre à beira de um desastre. É fato?


B. Solano: Evidente! O drama dá consistência ao feminino mas te digo que, pessoalmente, prefiro a comédia. É mais generosa com o espectador. De certa forma, faz com que aguente até o final. Não é fácil suportar o close-up do rosto feminino.


M. Mulher: Recentemente li no Desigualblog dois artigos excelentes sobre Bergman, “As mulheres de Bergman não são de Hollywood” e “Um homem passivo num filme de Bergman”. Você já leu o blog?


B. Solano. Sim, mas não entendi nada. Desculpa qualquer coisa.


M. Mulher: Preciso te dizer que meu filme predileto é Despersona. C’est génial!


B. Solano: O que te agrada nele?


M. Mulher: Você deixou Sven Nykvist no chinelo filmando a imagem de Yo invertida no espelho. Arrasou em Cannes e conseguiu um incrível financiamento para “O Sétimo Belo”. Money talks!


B. Solano: Maria, você só pensa nisso? A história que eu contei é tão pungente!. A personagem Yo é uma mulher que sabe de tudo e não acredita na existência da alma. Um dia é levada por uma colega do escritório a uma sessão de espiritismo. Ao escutar seu próprio silêncio, Yo saiu de si mesma, procurou-se no espelho e se desconheceu. Na verdade, eu quis falar da raridade do silêncio feminino, uma jóia rara.


M. Mulher: Jóia raras também são interessantes! Fale-me então do “Sétimo Belo”, você já disse que é seu preferido.


B. Solano: Fui muito feliz realizando este filme mas a história não é nada singela: a viúva Ids matava seus maridos um a um. A razão era a passividade deles que a irritava. O primeiro não queria lavar a louça no horário combinado, o segundo atrasou o horário do filho no dentista e foi envenenado.


M. Mulher: Tão enigmático o último sobreviver.! Ela o poupou da morte apenas por ser belo?


B. Solano: A beleza não faz grande coisas pelos homens, Maria.

M. Mulher: C’est vrai!


B. Solano; Marco Wanderley era um tanto infiel mas um homem de atitude. Ids enlouqueceu de paixão. Filmei o sexo a la Bergman, sem produção.


M. Mulher: Não podemos terminar sem falar de “Monica e o percevejo”! Todos consideram este seu filme mais polêmico. Sucesso de crítica, fracassou nas bilheterias. Lars Von Trier disse não ter conseguido chegar ao final. O que você queria era provocar?

B. Solano: Não! É que sempre quis colocar em filme uma das idéias mais caras ao meu mestre, a de que o amor verdadeiro é sempre maltratado. Monica é uma cientista que se especializou no estudo da vida dos percevejos desde que seu pai morreu infectado pelo inseto sugador. Vivia para sua pesquisa. Ao se apaixonar, Monica tem um sonho estranho: um percevejo sorri para ela e logo ela o mata com seu salto agulha. Na cena seguinte, aparece em sua cozinha, num vestido longo escarlate e lábios idem. Num close-up abusivo, vemos seu rosto em êxtase enquanto prepara um cordeiro com batatas ao murro. Seu amante, um homem que havia conhecido no metro quando voltava de seu laboratório, Max Vencidou, chega justo nesse momento e há uma troca de palavras violentíssimas entre eles.


M. Mulher: Sim, muito dramático. Ela havia esquecido que ele era vegano. Quelle gaffe!


B. Solano: A crítica considerou o ataque de fúria dele como um grande exagero de minha parte, mas sinceramente já vi coisas muito piores fora da ficção. Devastada pelo abandono, Monica acaba se envolvendo com seu melhor amigo, o super-Edi, e engravida dele. Na última cena, Monica já mãe de uma menina, encontra um livro antigo de seu pai e descobre que ele era um apaixonado pelo estudo dos caramujos. Quando assistiu o filme no festival de Veneza, Ing ficou fascinado com a sequência das cenas e disse aos jornalistas: “Monica, c’est moi!”.


M. Mulher: Trés bien! Uma última perguntinha que não posso deixar de fazer: você tem algum plano para quando isto tudo terminar?


B. Solano: Puxa Maria, você já deveria ter sacado o desfecho. Eu e o Ingmar somos almas gêmeas, ele escolheu a ilha de Faro como refúgio e eu tenho um pequeno sítio em Joaquim Egídio onde comecei a cultivar morangos orgânicos. Só posso dizer “gracias a la vida”.


M. Mulher: E eu digo gracias a você! Obrigada pela entrevista!


(Maria del Rosario Misailidis e Maria Teresa G. de Lemos)



















 
 
 

5 comentários


mhorner
16 de jul. de 2021

Adorei a entrevista!


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Convidado:
10 de jul. de 2021

Brigit Solano e Maria Mulher, ri muito com o texto. Vocês podem imaginar, toda a sexta-feira aguardo ansiosa para ler o blog. O feminino inteligentemente escancarado com humor me faz muito bem. "O amor verdadeiro é sempre maltratado" - adoro esse tema, ou melhor, esses dramas, pq gosto de acompanhar como a personagem se meteu nessa enrascada e o modo como encontra saídas a partir do nonsense. Isso inspira o meu trabalho de coach de relacionamento para mulher hetero. Gracias as duas!

Sargenta Eva Willis

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Convidado:
10 de jul. de 2021
Respondendo a

Caríssima Sargenta Eva Willis, muito obrigada pelas suas palavras, também acho que o humor há de salvar o mundo. Encantada de saber que as personagens a tem inspirado no seu bem sucedido trabalho de coach de relacionamento para mulher hetero. Fuerte abrazo y hasta la vista baby!

Con cariño, Brigit Solano

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Convidado:
10 de jul. de 2021

Grande Brigit, sou fã de sua obra. Despersona marcou a minha vida.

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Convidado:
10 de jul. de 2021
Respondendo a

Obrigada, Luis! lisonjeada com o seu interesse pelo meu trabalho!

Besos de Brigit Solano

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