Por que ela fica aqui e não com as mulheres?

Atualizado: 11 de mar. de 2022

Por que ela fica aqui e não com as mulheres?
É um sábado daqueles azuis, com um sol convidativo à beira da piscina.
Com os filhos criados, formados e encaminhados para a vida, “o futuro chegou e o projeto agora é viver”, ela pensa. Ao escutar o que pensou, a pergunta que não quer calar é “como assim, com filhos não se vive?”. Ela tinha impressão de estar cometendo uma heresia, logo ela que adorava ser mãe! E, nessa impressão, lembrava – não sem certa nostalgia – das brincadeiras com as crianças, das festas de aniversários, das perguntas curiosas dos filhos sobre o mundo que ela cuidadosamente pensava que apresentava a eles. Lembrou também das festas escolares – não sem um certo alívio de já terem acabado – e, nessa recordação sobre a educação, precisou recuperar as lembranças mais recentes dos seus encontros com os filhos, para afastar de si os julgamentos de seus fracassos que sempre lhe traziam angústias ante a tarefa impossível de educar. E, foi assim que, afastando-se desse lugar materno que, ela, mulher, surgia novamente à tona.
- Mas, então? mulher e mãe não são a mesma coisa?
- Evidente que não?!
Será tão evidente assim? Naquele lindo sábado de sol, as mulheres ali presentes só falavam de seus filhos – ora para enaltecê-los e a si próprias num exercício espe(ta)cular, ora para se queixar como eles são ingratos e as deixam só. Ali, naquele momento, ela não se encaixava, porque não lhe era possível assimilar totalmente a mulher à mãe.
Elas falavam também sobre limpeza da casa, produtos de limpeza, receitas bem picadinhas para compensar o tédio do trabalho doméstico que algumas faziam e que outras apenas comandavam. Ali, naquele momento, ela também não se encaixava, porque não lhe era possível assimilar o trabalho doméstico como compensação de nada.
Mas ali, também entre aquelas mulheres, o assunto girava em torno de vestidos, modelos, roupas e acessórios. E, nesse momento, finalmente, ela pensou que poderia estar entre elas. O engodo durou pouco porque mesmo na condição de e-fême(r)a, a moda, definitivamente não era um interesse que ela pudesse compartilhar porque ela se deu conta que preferia pensar no processo que produz a moda, nas políticas que as inflacionam e naqueles que sequer conseguem se vestir. Então, também ali, naquele momento, ela não conseguia se encaixar.
E, foi lembrando do pai. E de como sempre achou mais interessante o que ele tinha a falar. O ritmo da vida que ele lhe deu e ela não quis mais largar.
E, dirigindo-se para Outro lugar
Preferiu com seu amor ficar
Ele estava na roda com os homens
Mas ela não julgou que era o caso de se preocupar
Ele, amoroso como era,
Com um olhar risonho fez gesto de lhe abraçar
Nesse gesto, não-toda ela se encaixou, sem hesitar
E, nesse instante e lugar
Recebida nesse abraçar
Colocou-se novamente com a música da Joyce a pensar:
feminina, feminilidade, feminino, mulher estarão todos no mesmo lugar?
A piscina convidava e o sol a fez junto dele mergulhar
Mas, o real interrompe sempre de viés
e torna impossível qualquer calcular
Ele, que com ela mais se encantava
Virou-se pra ela, deixando os amigos sós a falar
E um deles, sem que se desse conta
Logo se pôs a esbravejar:
“Por que ela fica aqui e não com as mulheres?
Não vê que aqui não é seu lugar?”
E, naquele instante e lugar
Percebida por ele nesse enlaçar
Seu amor, que era como não-todo homem
Saiu dali para nunca mais e convidou-a para dançar.
Conceição Azenha




Boa noite, Ciça! queria te dizer que gostei muito do teu texto. Me identifiquei demais com teu " Porque ela está aqui e não com as mulheres", durante toda minha vida os meninos sempre me salvaram nos momentos difíceis. Teu texto também me fez pensar que a mulher tem algo de camaleoa, não como camuflagem mas como capacidade de se adaptar e desempenhar papeis diferentes e se a neurose não atrapalha, poder tirar proveito de múltiplas experiências.
Bjs.