Para ensinar a não partir/ Carta ao Pai


foto de Fernando Lemos, Luz teimosa, 1949.
Fernando,
Ainda preciso aprender a te chamar. Como é que aprende a chamar na tua língua-de-Lisboa? Se você tivesse me esperado só um minuto eu teria corrido para tua sombra e teria partido com você. Eu também quero partir. Eu queria ter me escondido na sua sombra mas agora é tarde. Não existe mais ficção, restou a inerte realidade.
De tanto querer me esconder na tua sombra, me fiz de sombra, irremediavelmente nua mas invisível aos olhos. Uma menina grudada no espelho, sem saber quem havia morrido para ela poder estar ali. Se a nudez era castigo ou se a nudez era perdão.
Escrever não é para ninguém, eu não escrevo para mim, não escrevo para você. Você disse para o mar: saudade-saudade-saudade. Eu anotei: saudade-saudade-saudade. Que medo da palavra Lisboa, que medo do oceano que nos separa. Que bem que você desenha todas as coisas que você precisa que existam mas eu não sei desenhar-existir. Se não fossem meus avós, que me amaram na tua Língua eu não teria pertencimento a Lisboa. Foi apenas em Lisboa, andando atrás da tua sombra, que me aconteceu de ter tido esperança de existir. O amor se tornou a proteção da sombra.
Eu choro porque é o mínimo que eu posso fazer. Não viver saudade-saudade-saudade, não morrer saudade-saudade-saudade. Se você tivesse me esperado um minuto eu teria te ensinado a não-partir. Deixa eu te dizer uma coisa. Deixa eu desenhar minha idéia dentro da tua cabeça. Não parta.
Deixa-deixa-deixa, escrevi para substituir as tuas três saudades, as suas três dores pelas minhas. Escrever não é de ninguém, escrever é estar livre e tão perigoso quanto o teu mar.
Maria Teresa



Carta ao Pai, mais um aprendizado sobre o espelho, cheio de beleza e poesia! Simplesmente emocionante!