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O trauma irremediável da traição na vida como ela é

Foto do escritor: DESIGUALblog
DESIGUALblog
17 de set. de 2021
5 min de leitura

O trauma irremediável da traição na vida como ela é


Falar de traição é um assunto vasto e complexo. Faz parte da natureza humana e cedo ou tarde nos surpreenderá de alguma maneira. Aqui tratarei especificamente do que diz respeito à traição extraconjugal, sabendo que esta não é sua única modalidade.

Desde a alvorada do homem ouvimos falar dela. A história está cheia de farto material sobre traição. Das aventuras de alcova na mitologia grega aos dias de hoje, abordar o tema faz qualquer enredo ganhar ibope, já que pode ser vista como maldita e condenada, ao mesmo tempo, que de grande atrativo ao público. Se os deuses do Olímpo eram levados à pratica da hybris, uso e abuso da desmedida, da insubmissão e/ou a violação da lei (Até tu, Zeus!) que podemos esperar de nós, simples mortais?


Além da literatura, o consultório do psicanalista é outro lugar onde se escuta a dor do traído e do traidor. Nem sempre é tarefa fácil descobrir qual é o sujeito da ação, que é cheia de meandros e paradoxos. “Te perdoo por te trair” canta Chico Buarque em “Mil perdoes”, ou então “Perdoa-me por me traires”, peça de Nelson Rodrigues (1957). Afinal, quem assume a responsabilidade da transgressão?


Todo relacionamento começa com um pacto de fidelidade, seja explícito ou implícito, ambos prometem amor eterno e leal, por contrato escrito ou falado. Mas deveria haver uma clausula admitindo que os compromissados de dita aliança carregam em partes iguais uma boa parcela de mal caráter, simplesmente porque são humanos. Já seria meio caminho andado e evitaria o sofrimento e a devastação que causam os desencontros e tropeços repetitivos na vida do neurótico.


A questão óbvia é que se começa por uma promessa impossível. Como pode-se imputar monogamia ao desejo se, de cara, todo mundo sabe que nele ninguém manda?


Ana de Assis, a mulher do escritor Euclídes da Cunha, teria dito a Dilermando, seu amante, depois de saber que agora ela era a traída: “Você era o único que não podia prevaricar.” O que leva uma mulher a pensar desta forma? Por que se sofre tanto com a traição? Por que temos a necessidade de sermos únicos e amados eternamente?

A mulher, tanto quanto o homem, realizam esforços imensos tentando cobrir a falta no outro com o intuito de preencher o vazio de ambos e manter o parceiro assegurado. Para poder compreender os efeitos devastadores da traição é preciso entender como se pensa o amor.


Os fantasmas da solidão fazem com que as defesas construam fantasias impossíveis de realizar. O amor não tem nada a ver com o que um amante faz ou dá para o outro. O amor tem a ver com o que cada um é para o outro. Sendo assim, o que traumatiza é o conceito de amor mequetrefe que construímos pautado no único interesse de obter dele somente as garantias. Quando alguém é traído, a ferida de morte recai sobre a imagem ideal que construímos abalando os alicerces do narcisismo. Imagens fantasmagóricas que nos acompanham vida a fora e que só o tempo será capaz de mostrar que não passam de um engodo. Como é primário o funcionamento do psiquismo e que ridículas são as justificativas que inventamos para salvar o orgulho ferido, como é frágil e patife essa instância chamada Eu!


Assim como tudo aquilo que fica pendente não caduca, a traição exige seu luto e o seu trabalho consiste em resgatar o amor próprio perdido para evitar incorrer na escolha desesperançada da melancolia ou na saída triste e perversa de castigar o traidor até o fim dos tempos.


O eu ideal se sustenta e fortalece com uma lista infindável de apaixonados e ilustres personagens da vida cotidiana que para nada servem se não alimentar uma série de mentiras esfarrapadas de sí mesmo. Deste fertilizante se nutrem as ilusões. No entanto, as ilusões cumprem um papel importante no relacionamento amoroso, não só porque o enchem de esperança mas também o ajudam a torna-lo durável. Quem não teme perder o que dá estabilidade e segurança? Muitas vezes um casal não desfaz o vínculo para não ter que voltar à casa paterna. Outras vezes a relação fica de pé à custa de muito esforço e as ilusões dão sustentação até que os filhos cresçam e possam sair de casa. Por estas e por outras, deixar cair as ilusões não é para iniciantes.


Não faço apologia à traidora e nem ao traidor, mas muitos pacientes revelam na sessão de análise que uma aventura extraconjugal salvou seu casamento. Para muitos casos a traição vem para desmontar uma relação fracassada, acomodada e estéril, mas é fato que também se trai mesmo existindo amor entre os cônjuges. As ilusões que mantem os casais unidos podem ter data de validade assim como a imagem que temos de nós mesmos e quando se esgota ou se desgasta exige ser confirmada e validada por um outro. Trair pode ser a saída para restabelecer a própria imagem ou senti-la renovada. Quanta imaginação é preciso para viver!!


Manter ilusões é assunto sério. Ruim com elas, pior sem elas e tentar restabelece-las através da traição pode custar vidas. São inúmeros os relatos clínicos de crianças e adolescentes que nos contam sobre os traumas insolúveis causados por conta de uma traição dentro da família.


Certa ocasião, Maria Mulher me fez a pergunta: “ A traição mata o amor ou a traição produz a descrença no homem?”. Respondi: “Acredito que a traição abala a ilusão que homens e mulheres carregam consigo desde a infância, a fantasia adolescente do par perfeito, do homem/mulher sem macula. Não creio que a traição por si só mate o amor ou produza a descrença no homem. O desejo de repetir a experiência de amar e ser amado não é tão fácil de destituir, talvez porque sabemos que cada novo amor é capaz de promover um jogo diferente e mais bem sucedido entre o real e o imaginário.

Podemos aprender muito com a traição. Aprender que perder faz parte da vida, que a perda do objeto amado não amputa nem esvazia. Aprender a deixar cair os ideais românticos. Sim, depois de uma traição pode-se sair inteiro, voltar amar com menos medo, menos super-ego e por que não dizer, com ilusões mais realistas. A vida nos dá seu testemunho de que é possível.


Mas essas são histórias com final feliz e, como diz Nelson Rodrigues: “O amor bem sucedido não interessa a ninguém”. Uma de suas peças mais conhecidas e encenadas no teatro foi “Vestido de Noiva”. A peça dividia o palco em três planos. O de menor destaque cabia à realidade, os de maior presença e espaço, para a “memória”. Na frente o mais importante: o plano da “alucinação”.


Será esse nosso destino? Estaremos predestinados a ir em busca do amor em estado hipnótico, deixando a realidade sempre na coxia para montarmos a cena com base na imaginação? Se é assim, que Deus nos proteja!


Maria Del Rosario Misailidis





















































 
 
 

2 comentários


Convidado:
22 de set. de 2021

Eu já sou um poço de saudade e você ainda me faz sentir mais essa. A vida como ela é, Nelson Rodrigues. Que obra! As palavras encarregadas da verdade para que a vida humana nao consiga esconder sua aptidão à canalhice.

Quanto à traição, acredito que é um crime que não compensa. Substituir o objeto e manter a mesma modalidade esportiva não é inteligente. A criatividade em materia de desejo nao é o ponto forte do ser humano.


abraço!


m teresa

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Convidado:
23 de set. de 2021
Respondendo a

Obrigada, Maria Teresa! adorei teu comentário!: "A traição é um crime que não compensa"...é verdade, não vale o preço que se paga, e é pura falta de imaginação, quase sempre....forte abraço!

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