Desigual/blog: um começo

Desigual/blog: um começo
MTLemos
O feminino está por toda a parte mas escapando sempre de ser. Da língua falada e escutada, dos signos, dos símbolos e de tudo que está representado ou é representável, do feminino só sabemos que ainda-não-é. O que não significa que não hajam uns-femininos. É impossível definir o que seria um-feminino, pode-se apenas descobrir um ao acaso: um-feminino Barthes, um-feminino Didier-Weill, um-feminino Mira Shendel. Peço que não digam “um homem feminino”, muito menos “um ser feminino”. É o tipo da facilidade que estragaria tudo. Um-feminino não é gente, um-feminino é uma preferência sexual: a preferência pelo in-significante.
Um-feminino nasceu de uma experiência, nela verificou que é apenas com a insignificância se pode fazer alguma coisa com a linguagem já que a significação fálica nos aprisionaria para sempre na Era do monolito, quando o macaco descobriu o computador e foi hipnotizado. A experiência de um-feminino pode ser analítica, mas nem sempre é e, quando é analítica, é não-toda analítica porque é também literária.
Um-feminino é sempre mais difícil para nós mulheres porque pensamos que a insignificância não nos cai bem, confundindo insignificância com o ser-castrada-da-nossa-voz. Se tivemos um dia que admitir a castração no corpo foi apenas para abraçar melhor o poder fálico das palavras. Já está provado que é impossível calar a boca de uma mulher. Além disso, o olho-mau do supereu materno pode fazer a menina ficar disléxica de tanto medo de trocar as letras já que foi proibida de sujar o vestido no dia do aniversário.
Para os homens o assunto também é complicado e não-poucos costumam deixar a insignificância na mão de mulheres-que-tomam-conta-de-tudo porque assim eles acreditam que todos serão beneficiados. A experiência mostra que esses homens são impermeáveis à psicanálise mas não à religião. Outros-tantos aprendem, de alguma maneira, que o in-significante está sempre à espreita mas o ainda-não-é, mesmo assim, continua sempre ainda-não-sendo. E vida que segue! Esse pode ser mesmo o destino mais apreciado pela civilização mas há ainda um enigma pois apesar dos-todos, sempre existiram e existirão homens e mulheres com a aventura do feminino no sangue e fazendo questão de vivê-la, isto é, de escrever.
É por isso que estou hoje aqui para inaugurar, com minha colega Jane Silveira, um blog que quer só-letrar o feminino, convidando vocês para verificar o valor desta experiência. O príncipio - que não precisa ser aceito como verdadeiro nem falso - é que o feminino só pode ser coisa escrita com a experiência da escrita de cada um. Minha colega cunhou, para isso, o termo dizcrita e para mim ele está valendo!
Preciso fazer apenas três homenagens antes de terminar.
A primeira homenagem é à minha mãe porque sem ela eu não estaria aqui. Aqui-viva e aqui-escrevendo. Homenagem à paixão com a qual vive sua vida. Paixão pela linguagem, pela poesia e pela psicanálise. E mesmo vivendo suas paixões ainda se dedicou a amar, se interessar e incentivar três filhos. A mãe é a inspiração primeira.
A segunda homenagem é à Lacan, porque sem ele eu também não estaria aqui-escrevendo. Hoje a minha língua materna é o lacanês, um lacanês-caipira, da cidade de Campinas, interior do estado de São Paulo. Não penso que Lacan tenha sido um-feminino porque sua virilidade era robusta demais para permitir isso, mas ele mostrou de maneira pública e sem pudor sua inveja do ainda-não-é, rendendo lhe homenagens, como à Duras, ou dedicando-se à loucura feminina, como à Aimée. Agradeço-lhe porque, no que me diz respeito, acredito que nenhum psicanalista bem-disse o feminino e a mulher como ele, atirando suas semi-verdades na cara dos-todos e não poupando ninguém, muitos menos os-todos psicanalistas.
A terceira e última homenagem é ao famoso objeto-a, o objeto inimaginável, o des-objeto, o anti-objeto, a-letra-que-objeta. Enfim, o-objeto-que-te-causa. Graças à ele eu não estou aqui, mas você sim. Seja bem vindo. Este aqui é apenas mais um blog sobre o feminino porque do feminino e dos uns-femininos só existe mais-um. Bem vindos!



O melhor escrito que já escutei sob sua pena. Escutei seu escrito, porque ele precisa ser so-letrado para ser lido. Só-letrando Maria Teresa, só letrando se passa da fala ao escrito, mas é também só letrando que se escuta o que se lê. Acabo de passar por algumas páginas dos Problemas Cruciais. Qual a questão de abertura? O ponto de desvanecimento do sujeito sob o sentido. Um ponto de abre-fecha. De fecha-abre. Basta um ponto para que tenhamos uma superfície aberta e com isso, nosso campo, o analítico. Seu ponto de abertura é: insignificância. Mas penso que cercar o campo com as barreiras que este mesmo campo levanta pode ser tarefa equívoca se delimitamos o campo e jogamos a chav…