o que quer uma mulher?

Atualizado: 10 de dez. de 2021
As frases “O que quer uma mulher?” e “A mulher não existe”, a primeira uma pergunta feita por Freud e a segunda um aforismo lançado por Lacan, condensam um trabalho árduo de reflexão sobre o feminino.
Situado desse modo, isto é, em uma pergunta e em um aforismo que por si sós convocam questões, o feminino exibe todo seu caráter de enigma. Enigma que situado em mulher, em ambas as frases citadas acima, marca uma diferença: em Freud a mulher comparece em termos genéricos, em Lacan ela é tomada em termos da lógica.
Se o que escrevi acima é um saber comum entre os psicanalistas que pode girar em torno de o feminino escapa ao universal, no entanto, no senso comum não ocorre o mesmo. No discurso corrente, não raro, se observa um movimento em defesa de um coletivo de mulheres que daria conta de unir todas as mulheres em torno de um modelo, que respondesse por todas e a todas às mulheres sobre o feminino.
Universalizar o feminino é um engodo que facilmente pode se adotar. A cilada fica do lado de como sustentar isso que foge a um modelo? Em decorrência disso é que o feminino pode ser tomado, como frequentemente é, como uma imitação e, em contrapartida, ao número indefinido do mundo das cópias. Vida longa aos ídolos, aos imitados e não- todos imitantes.
O feminino enquanto enigma, ao qual está referido e que transita nas perguntas e nos aforismos, pode ser pensado a partir do lugar em que o feminino escapa a si mesmo, isto é, quando não se mostra como propriedade das mulheres, podendo surgir como no signo vazio do ideograma, na literatura e na poesia. Mas não só aí. É o que mostra o episódio abaixo em que uma garotinha se vê às voltas com o que do feminino, no que diz respeito à língua, não é objeto de conhecimento a serviço das categorias do mundo.
(A criança pergunta ao pai, que estava lendo o jornal.)
H: Pai, quando a mulher está vestida de polícia, como é que ela chama?
P: Guarda feminina.
(A mãe estava acompanhando o diálogo à distancia; retoma o assunto com a criança.)
M: Você perguntou a seu pai como chama a mulher quando está vestida de polícia?
H: É.
M: É polícia feminina.
H: (Rindo.) Eu falei ... eu pensei que era polícia femulher. (1)
(As duas riem.)
H: E quando é homem, mãe?
M: É polícia só.
H: Não é polícia feminino? (2)
M: (Rindo.) Não.
H: Não é polícia femihomem? (3)
M: Não, é polícia só.
(D – 4;7.12) dias, meses, anos.
J Silveira



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