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O ANALISTA E O SER-SEX-SUADO

Foto do escritor: DESIGUALblog
DESIGUALblog
7 de jan. de 2021
3 min de leitura


Lacan disse que o ser falante é um ser que é sexuado, isto é, cortado, dividido pela questão do sexo. E não adianta perguntar nessa hora de que sexo Lacan está falando porque para ele só existe um sexo: o sexo oposto. O sexo do Outro, com seu desejo obscuro e seu gozo opaco e ainda por cima inexistente. O meu sexo, o seu sexo – qualquer um que não seja o do Outro - nem chega a ter um nome. Daqui da minha poltrona, o que eu vejo no horizonte é que o nosso sexo será sempre aquilo que a linguagem, o discurso e as obstruções derivadas deles permitirem que ele sexa. Quer dizer, seja. Nossa mãe, a linguagem, deixou tanto a desejar nesse quesito! Mas, como eu mesma disse, estou sentada na poltrona, oferecendo minha escuta para o outro, não posso falar por ele, nem por você.

Enfim, não é fácil falar de diferença sexual e eu não estou aqui para isso, porque meu interesse é diz-crever o feminino. O feminino tem uma relação oblíqua com a diferença sexual, se a diferença sexual significar a necessidade de falarmos em termos de homens e mulheres. A língua nos cobra a diferença sexual e a criança que habita nossa pele no espelho não admite ambiguidade na significação. Se não souberem disso, leiam as vinhetas que a Jane Silveira publica aqui no blog. Como os personagens de Lewis Carrol, a criança exige que a língua elimine o impossível, ou seja, que a repórter seja “reporta” porque assim a divisão entre os sexos não deixa restos incômodos para ninguém. Como a criança acredita na Língua, acredita nos “todos” e no “ninguém”. Ser “ninguém” é seu maior medo.

Mas a questão, como sempre, é Outra. A língua exige a distinção e o discurso regula a diferença, mas o fato é que sempre fura e a significação tem prazo de validade. Não sei se assumimos as significações ou somos assumidos por elas mas como psicanalista sei apenas que elas tem um tempo de duração. E como sei! Elas podem cair subitamente, como no caso do pânico, ou elas podem cair imperceptivelmente como no caso das depressões. Elas podem também simplesmente encherem a nossa paciência a ponto do esgotamento como é o caso das redes sociais. A linguagem, diferente do que quer a criança, não oferece estabilidade à nenhuma significação já que a única que serviria, a do falo, só faz se deslocar sem rumo aparente. Quem trata fobia de criança já sabe disso faz tempo.

Entretanto, mesmo tão cheios de significações ultrapassadas e tão saudosos dos gozos perdidos, a questão do sexo sempre baterá de novo na nossa porta. Se para o bem ou para o mal, isso nem eu nem ninguém nunca saberá. Quando a questão do sexo chega novamente é sob a forma da angústia e da pergunta: que queres? Quem és tu nessa cena: o homem, a mulher, o quarto de hotel, a cortina, o abajur?

Não nos sabemos capazes de responder qual objeto somos, pelo menos até ontem não. Talvez saibamos um pouco menos hoje. Aí é que entra o feminino. O feminino é o que sai dessa fenda que se abre na significação quando o desejo-sem-nome aparece como um sol no horizonte. Embora o feminino não seja a figura que aparece mas o próprio aparecimento em si, ele pode fascinar ou causar horror a tal ponto que a figura, que era de linguagem, torna-se uma estátua de pedra. É o caso, por exemplo, da Virgem Maria. Tente desmontar essa figura e provavelmente você a verá ressurgir das cinzas. Os psicanalistas frequentemente subestimam o imaginário. Erro grave.

Dizendo que o feminino surge com a fenda posso parecer uma citadora-de-Clarice-Lispector mas não dá para evitar a poesia quando tivermos que diz-crever o feminino como diz-não-são da linguagem. Preciso dizer que essa fenda não tem nada - absolutamente nada - a ver com a vagina?

Quer dizer, então, que a vagina não vai entrar nessa História? Não, porque é a história que entra na vagina. Pelo menos é o que tenho escutado aqui dos im-pacientes do divã há algumas décadas. Se alguém já ouviu outra coisa avise-me, mas pedirei provas e documentação. A meu ver os psicanalistas não são os mais habilitados para dizer das significações que assumimos ou que nos assumem, há pessoas muito mais qualificadas para ensinar a ler esse emaranhado linguístico, discursivo e político do momento atual e que tão pouca relação tem com a nossa vida sexual.

Mas, de novo, posso estar enganada. Talvez eles já estejam noutra porque descobriram o nome do seu Outro sexo e apenas eu ainda estou perdida. Só sei, que do ângulo que eu olho, vejo no espelho uma senhora de aspecto jovial. Mas quem me garante que o que Outro lado vê não é o abajur?



MT Lemos

Campinas, 06/01/2021



 
 
 

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