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O “Mal-dito” entre o materno e o feminino

Foto do escritor: DESIGUALblog
DESIGUALblog
11 de mar. de 2022
6 min de leitura



Neste ano tivemos a grata surpresa de assistir ao filme A filha perdida, adaptação do livro de Elena Ferrante de mesmo nome, dirigido por Maggie Gyllenhaal. Adaptação primorosa de uma obra polêmica e árida que chamou minha atenção na medida em que, e talvez, não sem propósito e acerto, deixou que a tônica de toda a trama recaísse sobre as angústias inenarráveis e pressões sociais que a maternidade e o feminino sofrem desde sempre. Para os leitores de Ferrante, sabe-se que o texto traz muito mais que isso, mais que essa justa e inacabada luta por uma posição social mais igualitária do feminino. A autora nos mostra em sua obra a intrincada relação entre mães e filhas, entre as gerações de mulheres, o feminino e a cultura, a sexualidade, a maternidade e principalmente a relação entre o narcisismo, o desejo e o amor.


Antes das possíveis leituras sobre a narrativa da vida de Leda, seria interessante, ainda que arriscado, tentarmos fazer uma diferenciação entre desejo materno e sua função, assim como Jacques Lacan nos propôs, e amor materno. Se faz necessário retomar as idealizações sobre o materno que se instalaram na sociedade principalmente a partir de século XIX, idealizações que Colete Soler chamou de “utopias comunitárias sobre o materno”[1], que deixaram as mulheres, que se ocupavam da maternidade divididas entre obsessivas, possessivas, desligadas, suficientes ou não. Tem sido inevitável que recaía sobre elas esse lugar de angústia. Um lugar ao mesmo tempo desejado como criador da vida, daquele momento em que o corpo da mãe e do lactente estão fundidos, onde o sujeito do inconsciente não fez ainda sua aparição. Por isso, este lugar se coloca ainda como obscuro e enigmático. A partir disso, as faltas e falhas da maternidade passaram a ter um papel central no entendimento do funcionamento do psiquismo. O feminino retorna aos holofotes das mazelas humanas, já que a maternidade, para o patriarcalismo, deve ser sempre coisa de uma mulher, com acusações em muitos momentos inapeláveis.


Sem embargo, a pergunta que pode ser formulada pela Psicanálise não é outra senão: qual o papel do desejo materno na humanização dos sujeitos?


Seguiremos as formulações de Lacan para pensarmos a lógica disso que ele chamou de desejo materno e sua função, na retomada que realizou ao Édipo freudiano. Desejo este sexuado, desejo de mulher, que deve ser diferenciado do amor materno. Ao contrário do amor, o desejo traz divisão, separação do estado alienante diria Lacan. Traz em si uma potência simbólica que vem pela fala da mãe. Seus imperativos e comentários, inscrevem o sujeito nas várias possibilidades do Édipo. É da separação entre o Imaginário, o Simbólico e o Real, ou seja, da instauração da falta, da castração, no Outro e no sujeito mesmo, que se confere o papel fundamental da função materna. Que inclusive e necessariamente não é executada pela mãe. Portanto, não é o amor materno, principalmente este amor socialmente adornado, o divisor de águas da formação do sujeito, mas sim, o desejo da mãe, que é mulher e não é toda para seu filho, aquilo que faz andar a operação entre o sujeito e seu objeto causa de desejo. O personagem de Leda e o percurso angustiante que ele faz no texto e no filme nos mostram muito bem essa separação.


O que não fica muito claro sobre Leda no filme, transborda no livro. Leda, assim como a boneca que ela subtraiu de Elena, era inanimada, vazia do ponto de vista do desejo materno, fato que não faz com que ela não amasse suas filhas e que com elas, não tenha participado de alguma forma da função materna. O que ela nos relata de forma recorrente é o fato de que tanto as filhas quanto o marido, ou mesmo a família de napolitanos que ela encontra na praia, subtraem dela sempre algo muito essencial. Leda carrega em si constantemente uma sensação de expropriação, qualquer desejo, ainda que mínimo, que se dirija a ela é sentido como algo que vai arrancar-lhe um pedaço. São variadas as descrições da agonia dela ao ter que cuidar das filhas ou da casa, ficam evidentes os incômodos que ela sente na presença dos outros personagens femininos da trama. Os momentos de comodidade aparecem quando o seu desejo de mulher, e somente este, são priorizados e invocados por figuras masculinas. Algo nela transmite que ser mulher desejante/objeto do desejo masculino lhe era mais fácil que ser mãe/castrada por um desejo, que é esse de transmitir a barra do sujeito e do Outro, que realmente não é qualquer desejo.

O que fica mal-dito e perpassa pelo desejo materno é uma cadeia de significantes sobre as mulheres e o feminino, inclusive a autora, faz soar uma leve homofonia entre os nomes e apelidos: Leda (Leduccia), Nina (Ninucca), Elena (Lena, Lenuccia) e Nena (Nani, Nenella) a boneca. Essa é a cadeia do feminino com a qual Leda faz suas identificações mais massivas.


No filme, o roteiro cita muito pouco, e talvez não sem motivos, a figura materna da personagem principal, porém no texto de Ferrante, que também se chama Elena, abundam relatos sobre o quanto Leda luta para não se parecer com sua mãe e ela o faz tentando ser somente uma mulher, e disso, surge o horror ao papel materno, mais além das dificuldades que são reais a esta vivência. Os homens e os livros são os pontos onde seu desejo pode existir. Leda, Nina e a boneca se opõe às filhas, Bianca e Marta, a pequena Elena e a Rosário, a napolitana grávida e repugnante, que é protótipo do amor de materno.


Não se poderia afirmar, de maneira definitiva, que Leda não queria ser mãe ou que não amasse suas filhas, uma vez que ela as abandonava, mas voltava. Ficava feliz pela ida das filhas ao Canadá, mas ansiava por seus telefonemas e por atenção. Não fica claro se ali não existia uma aposta pelo desejo de ser mãe ou se simplesmente seus arrependimentos e sua angústia a jogavam diretamente nos preconceitos sociais sobre a pouca eficiência do materno. O que fica evidente é um vazio constante que ela experimenta. A autora o relata lindamente, quando descreve que Leda passou algumas horas desejando ouvir a voz das filhas pelo telefone e que quando as filhas finalmente fizeram uma chamada, ela se sentiu morta.[2] Muito se explica sobre isto, na leitura que Leda faz da angústia de sua mãe e da posição de objeto-dejeto no qual ela se vê colocada por esta. O horror às escolhas maternas a atiraram neste vazio, impedindo-a de perceber que há várias formas desejantes de se lidar com a maternidade. São muitas as passagens do livro que nos mostram que quando Leda se via identificada com sua mãe, em atos ou pensamentos, eram observados tremendos mal-estares.


Inclusive, pode-se observar que, do horror ao materno, Leda desenvolveu uma inveja e uma enorme competitividade com tudo que se relacionava ao feminino. A ela incomodavam as mulheres solteiras, casadas, bonitas, feias, com filhos ou não, sentia um incomodo importante com os olhares dos rapazes para suas filhas adolescentes como se elas não pudessem ser partícipes do desejo de uma mulher. Inúmeras são as descrições das observações que Leda faz sobre Nina, seu copo, sua maternidade, seu casamento e seus movimentos. Nada do feminino lhe escapava, deixando os personagens masculinos como meros coadjuvantes deste lugar no qual era possível desejar, ser desejada ou estar morta. Mas por que uma mulher deveria estar no registro do que é materno ou no registro do que é feminino? Esses dois lugares não podem coexistir, ainda que com alguns conflitos administráveis?


O que Leda realmente nunca conseguiu elaborar é que desejo e amor não são a mesma coisa, são talvez contíguos pois o Desejo é a marca daquilo que nos falta de maneira fundamental e o Amor é o que experimenta a falta uma e outra vez, incessantemente. Já diria Lacan que amar é dar o que não se tem a alguém que não o quer, porque o desejo é sempre desejo de outra coisa.


Há um dito popular, no Brasil, que diz que “não se oferece a outrem o que não se teve”. Alienadamente, Leda parece acreditar nisso. O olhar materno, aquele que ela não teve, ou o olhar que lhe foi dado de forma muito narcisista, foi veiculado partir da angústia sobre o desejo materno. É a partir da afirmação lacaniana de que os sujeitos supõem no amor o que o outro não possui, que Leda poderia ter feito uma construção diferente e dado a sua solidão um outro rumo. É possível oferecer o que não se teve desde que se possa dar um outro contorno às “mal-dições” que nos foram transmitidas.


Ana Claudia Fossen




Referências bibliográficas:

Ferrante, E. (2016). A filha Perdida. Tradução de Marcello Lino. Rio de Janeiro. Intrínseca.

Roudinesco, E. e Plon, M. (1998). Dicionário de Psicanálise. Tradução de Vera Ribeiro e Lucy Magalhães. Rio de Janeiro. Jorge Zahar Editor LTDA

Soler, C. (2005). O que Lacan dizia das mulheres. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro. Jorge Zahar Editor LTDA

[1] Soler, C. [2006, p.98] [2] Ferrante, E. [2016(2006), p.74]

 
 
 

3 comentários


Convidado:
18 de mar. de 2022

Eu estava com saudades desse blog!

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Ciça Azenha
Ciça Azenha
16 de mar. de 2022

Gostei, muito, Ana! Fiquei pensando se (e como) faz diferença para a mulher ser mãe de menina(s).

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Convidado:
14 de mar. de 2022

Muito bom.parabéns

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