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O insustentável peso de um tabu

Foto do escritor: DESIGUALblog
DESIGUALblog
23 de jul. de 2021
5 min de leitura

Atualizado: 1 de out. de 2021


O insustentável peso de um tabu


Certamente existem sentimentos difíceis de assumir e nem todos se aventuram a encará-los. Artistas frequentemente se atrevem.


Maria Callas, a maior soprano de todos os tempos, a mulher que revolucionou a ópera no século passado, parece fazer parte dessa minoria. Passional e visceralmente verdadeira não se furtou de expressar o ódio e o desprezo irremediável que nutria por sua mãe, a Sra. Evangelia Dimitriadou. É o que nos conta Arianna Stassinopoulos Huffington, autora da biografia , “Maria Callas, a mulher por trás do mito”*.


Já consagrada como artista e dois dias antes de sua estréia em Nova Iorque, a revista Time publicou o trecho de uma carta que Callas teria endereçado a mãe nos seguintes termos: “Não venha me aborrecer com seus problemas. Eu trabalho para ganhar meu dinheiro e você é suficientemente jovem para trabalhar também. Se não consegue ganhar o bastante para viver você pode se jogar da janela ou morrer afogada”. Questionada pelos jornalistas sobre a recusa de ajuda financeira à “mama”, ela respondeu: “Nunca a perdoarei por ter me privado de minha infância...na época em que eu deveria apenas brincar e crescer, eu estava cantando ou tratando de ganhar dinheiro.”


Na mesma época, o New York Times noticiava : “nunca tantos americanos pagaram tão caro para ouvir uma opera”. Entretanto, a cidade das celebridades e dos grandes mitos, achou que “La Callas” passou dos limites no tratamento à mãe e, ao contrário de uma recepção fervorosa como era de praxe, foi friamente recebida pelo público e quase hostilizada. A matéria do New York termina com uma condenação: “É aceitável que seja extravagante, excêntrica e tempestuosa mas não se perdoa que seja egoísta e mesquinha com a mãe.”


Arianna Stassinopoulos Huffington relata que o único objetivo da Sra. Dimitriadou era o de transformar sua filha numa grande estrela do canto lírico e que estava disposta a remover céu e terra para consegui-lo, ao contrário do que desejava a jovem Maria que tinha outros planos para seu futuro, preferindo ser dentista e seguir uma vida pacata. O destino não quis assim.


O desejo de ver a filha triunfar lhe foi concedido mas parece não ter sido suficiente. Numa quinta-feira de abril de 1962, Evangelia é levada ao Roosevelt Hospital por ter ingerido uma quantidade elevada de soníferos numa tentativa de pôr fim a sua vida. Mais tarde teria declarado à imprensa que sua tentativa de suicídio foi uma forma de chamar a atenção da filha. Diante dos apelos do público que não lhe perdoava um deslize sequer, a prima dona do teatro do Scala de Milão lhe respondeu com uma área de Medea, encarando a plateia com o punho erguido: “Io di tutto a te” (tradução: “Eu te dei tudo”).


Mais tarde, numa turnê pela América Latina em companhia da mãe, a relação esgarça definitivamente e nunca mais voltaram a se ver. Ainda assim, Evangelia nunca deixou de mandar seu recado e praguejou em praça púbica : “Está morta para mim, e tomara que morra de câncer na garganta”.


Maria Callas parece não só ter vivenciado a fúria e destruição no seio da família como também a representou no palco. Levou para dentro da cena todo o seu drama pessoal e assim criava o espetáculo dentro do espetáculo. Como num jogo de espelhos, interpretou magistralmente a opéra que mais se confunde com seu nome, “Norma”, a druida que planeja matar seus próprios filhos mas fracassa no intento. A seguir dá corpo e voz a Medea, que não só comete o assassinato dos filhos como se vangloria com o feito. Lady Macbeth não escapou do seu repertório. Em todos estes papeis o embate entre pais e filhos é levado às últimas consequências. Na arte tudo pode ser dito.


O ódio assassino entre pais e filhos é quase sempre escondido às sete chaves. Falar da “mãe suficientemente boa” é fácil e com frequência os pacientes, no dia a dia da clínica psicanalítica, se derramam em elogios e considerações. Mas também escutamos frequentemente atrás do divã o esforço que fazem em justificar o excesso de cuidados sufocantes ou as chamadas telefônicas diárias que as mãe fazem sem trégua para filhos adultos.


Ouvimos também as mães dizerem num misto de peso e assertividade sobre a necessidade de manter cuidados redobrados com os filhos e que a tarefa diária de bisbilhotar celulares e estabelecer um sistema de controle absoluto sobre agenda dos pequenos ou adolescentes é feito em nome do amor. Mas o que não aparece à primeira vista é que, por trás do cuidado excessivo dos pais, se escondem sentimentos contraditórios e violentos. Uma mãe que deseja ardorosamente que sua filhinha siga ao pé da letra o script que ela considera bom para sua formação logo se dá conta de que todo esse trabalho deixa sua agressividade fora de controle e diz “que a maternidade está lhe roubando a vida”. Por fim, procurar um analista parece ser uma saída, já que não é possível dar conta da pesada demanda do filho que ela mesma sem perceber, reforça diariamente.


Sentimentos ambivalentes de amor e ódio e desejos de morte formam a cortina de fumaça que torna difícil distinguir que uma coisa é dar sustentação a uma criança e outra é induzi-la ao medo e a insegurança para não ser dispensada.


O controle dos pais sobre os filhos é vivido como opressivo. Querer controlar o que pensa ou faz uma criança é roubar a sua subjetividade, sequestrá-la de si mesma. O excesso de controle esconde o desejo mortífero da mãe com relação ao filho e vice versa e, assim, os sentimentos de culpa se encarregam do estrago. A mãe pode se mostrar devoradora, tomando o filho como objeto que serve para esconder a falta. Nesse caso, o destino do filho vai depender de se libertar ou não da possessividade materna.


Depois de ler as últimas páginas da biografia de Maria Callas, me pergunto se a grande diva das trágedias clássicas tinha a convicção de que por não ter se sentido amada pela mãe, não pôde acreditar que despertaria este sentimento em alguém? Tal sentimento a teria levado a viver toda uma vida carregando a certeza absoluta de que o mundo conspirava contra ela? Não sei dizer ao certo, mas consta na sua biografia que teve no seu entorno pouquíssimas pessoas que realmente foram capazes de ouvi-la e compreendê-la e lamentou profundamente não ter podido constituir uma família ou sentir que a tivesse.


Um dos raros espaços onde podemos falar de um tema tabu com liberdade é o espaço criador do artista, no roteiro de um filme, na literatura ou no divã do analista. Analisar-se significa escutar nossa história e alocar no devido lugar os nossos próprios desejos, apropriando-nos da nossa subjetividade. Por fim, tudo aquilo que se diz e se escuta sem julgamento ou censura pode promover movimento psíquico e eliminar sintomas, por mais difícil que a princípio seja falar e admitir o que sentimos.


Maria del Rosário Misailidis


* Huffington, Arianna S. (1996) “Maria Callas, a mulher por trás do mito”, Companhia das Letras, São Paulo.

Escultura “O impossível” de Maria Martins


 
 
 

2 comentários


Convidado:
26 de jul. de 2021

o que eu mais gosto desse blog são as pistas que os textos vão deixando


como João e Maria quiseram fazer para se salvar da realidade tão miserável mas foram impedidos pela falta da escrita


aqui os autores deixam os rastros do caminho que fizeram para chegar e partir do inconsciente e renovam nossas esperanças na aventura de navegar


na próxima parada é que descobrimos quanto eles andaram e

também que já não estão mais lá


como você, Maria del Rosário, que adentrou no país das maravilhas da verdade desocultada do feminino pelo buraco da camera de Bergman


e, no capítulo seguinte, subiu à terra para investigar o mistério do nascimento da voz sublime no corpo de uma mulher tão…


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Convidado:
26 de jul. de 2021
Respondendo a

Boa tarde Maria Mulher, foi um enorme prazer receber seu comentário. Agradeço pelo seu constante estimulo e sou profundamente grata ao desigualblog pelo espaço que oferece sem censura e total liberdade , onde todas nos podemos soltar a voz, a mão, o verbo, a fantasia, onde o sujeito pode acontecer. Forte abraço e muito sucesso na empreitada!

Maria del Rosario

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