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O homem passivo num filme de Ingmar Bergman

Foto do escritor: DESIGUALblog
DESIGUALblog
2 de abr. de 2021
5 min de leitura

Atualizado: 11 de mar. de 2022



O filme em questão é Sonata de Outono (1978) mais uma obra prima de Bergman. Ele trata da relação mãe e filha. No meio do enredo, após um diálogo devastador, a filha Eva sussurra aos ouvidos da mãe: “mãe e filha que confusão terrível de sentimentos, sofrimento e destruição”.

Toda relação é assim? Não! Mas frequentemente nos deparamos na clínica ou na vida pessoal com histórias semelhantes. Embora no filme Eva e Charlotte sejam as protagonistas que executam a Sonata ora em solo, ora em duo, existe também à parte delas Victor, o marido de Eva, que até o final da última cena interpretará um papel secundário.

Charlotte é uma pianista famosa, mãe de Eva e Helena. Seu único interesse foi sempre a carreira e foge de casa como o diabo da cruz mas também teria gostado de ficar e curtir o aconchego do lar. No entanto, Charlotte escolhe a profissão, o sucesso, os aplausos, o prestígio (garantia do amor seguro?). O tempo passa e agora, viúva e solitária, há sete anos sem ver as filhas, aceita o convite de Eva e decide visitá-las. O tema do enredo por si só custou um grande desentendimento entre o diretor e suas atrizes. “Que monstruosidade” declarou Ingrid Bergman, contestando o roteiro. “Que insano” concordou Liv Ullman, “onde já se viu uma mãe ficar longe das filhas por tanto tempo?”. “Três anos de separação seria tolerável”, pediu Ingrid. “Quatro anos no máximo” retrucou Liv Ullman. De nada adiantaram esses argumentos pois o diretor sueco continuou em frente e nenhuma das duas o demoveram do seu argumento. Acredito que Bergman sabia muito bem o que era para uma mulher ficar dividida entre a carreira e a maternidade sem a ajuda do marido pois na sua vida pessoal ele próprio abandonou quatro de suas cinco esposas com filhos pequenos. Teve nove filhos ao todo, alguns dos quais mal sabia o nome. Assim como o próprio Bergman parece ter se colocado frente aos seus, neste filme como em quase toda sua obra, ele coloca a representação do masculino como um espectador passivo e alheio, que não sabe que rumo tomar na hora que o Titanic começa a afundar.

Em Sonata de Outono, duas mulheres estão à beira da loucura e o homem que se apresenta só consegue mostrar uma presença carregada de ausência. Nem protagonista nem coadjuvante, podíamos dizer que ele está em cena mas totalmente fora de ação. Os homens deste filme amam suas mulheres, não batem nelas, não as abandonam, não as traem. Eles as acolhem e escutam seus conflitos porém ficam impotentes frente a seus apelos, se paralisam, inibidos de qualquer movimento. O que justificaria esta posição? O que mais ouço das mulheres em geral, no divã e fora dele, é a hipótese de que eles preferem ficar na posição de filho. Competir ou disputar o lugar com a cria seria o mais comum e em consequência se arruínariam casamentos: o pacto de reciprocidade totalmente anulado e a libido sendo a primeira a sucumbir. Não parece justo, nesse caso, dizer que a mulher brocha por conta da TPM, como muitas fazem para justificar a encrenca.

Boa parte da ideologia do discurso feminista se escora no argumento incontestável do uso de força e poder do sexo masculino sobre o feminino, mas pouco se fala sobre a passividade masculina. Como já disse, na minha vida pessoal e na clínica psicanalítica, são constantes e persistentes os casos em que não pára de se repetir: “Ele não se posiciona, não toma partido, eu estou sozinha com a casa e a educação dos filhos, com os problemas econômicos”.

O pastor luterano, marido de Eva, é o primeiro a entrar em cena e, fitando a câmera, se interroga olhando para nós : “não encontro palavras para dizer a minha esposa o quanto a amo, não sei como dizer isso a ela”. Não seria esta a posição da criança que, como filho dependente e imaturo, só recebe sem ter o compromisso de dar?

Algumas cenas à frente, na casa do pastor, numa noite interrompida por pesadelos, mãe e filha desencadeiam uma dura batalha cheia de acusações e ofensas. Enquanto o circo pega fogo, Victor aparece de relance e observa à distância. Uma mãe e duas filhas, entre 4 paredes, trancadas em seus conflitos, confusas e misturadas e o único homem em cena parece dizer o tempo todo: “não tenho a menor ideia do que fazer com isso”.

Se os críticos de cinema se lançaram unanimemente sobre Charlotte como “bruxa”, a megera indomada, a mãe desnaturada e desumana, por que se calam frente ao homem infantilizado, que não esboça nenhum sinal e se subtrai da ação com o cachimbo na boca, olhando de soslaio para a cena de horror?

Fora do filme e dentro do consultório escutamos outras variações sobre a descompostura do homem passivo, como é o caso por exemplo da exclusão de uma das funções que lhe caberiam: ou se ocupa da filha, num conluio incestuoso, deixando a mulher de lado ou fica com a mulher e se isenta da paternidade, as duas juntas seriam “ muita areia pra seu caminhão”?

É surpreendente que, no que se escreveu sobre Sonata de Outono, só se atribua a devastação psicológica das filhas de Chatlotte à negligência da mãe. A dessexualização e a falta de expressividade de Eva, a doença de Helena, tudo fica registrado na sua conta. Como é possível que toda a patologia familiar não seja em momento algum relacionada, ou pelo menos dividida, com a figura paterna? Neste caso, ignorando completamente a triangulação edípica.

Bergman parece afirmar que a mulher sempre busca o amor e que é por isso que Charlotte opta pelos palcos e os aplausos enquanto seu marido, como deixa bem claro o filme, aparece como uma criança abandonada, choramingando abraçado à sua filha, à espera do retorno da mulher. Numa outra cena do filme, Victor lê pra nós, olhando para a câmera, a carta que Eva escreve para sua mãe, apenas narrando o que elas fazem e desfazem, reproduzindo nesta posição de espectador/transmissor o “não saber o que fazer” que também foi a posição do seu antecessor, o pai de Eva. O filme nos lembra a pergunta que muitas mulheres trazem à análise: “que mulher gosta de um banana”? Vale pensar que ela apenas o aceita por vingança, para pisá-lo e humilhá-lo pelos excessos que outros cometeram com ela?

Neste filme, as escolhas da mãe e da filha são semelhantes quanto ao homem passivo que as acompanha. Como sabemos, o desejo atende dois comandos, o desejo inconsciente e a defesa contra ele e quando realizado, costuma nos dar mais trabalho que prazer, portanto não caberia interrogar da mulher essa sua escolha e a própria busca incessante do amor?

Caso contrário, o que nos resta senão a Sonata de Outono?


Maria Del Rosario Misailidis




 
 
 

3 comentários


mteresa.mrodrigues
07 de abr. de 2021

Nossa.... muito bem desenvolvida a temática a respeito das questões que atingem a todos nós, de uma forma ou de outra, dentro da Dinâmica Familiar, que inclui a Dinâmica Homem-Mulher (Casal Conjugal) e a Dinâmica Pais-Filhos (Casal Parental) e a Dinâmica Fraterna (irmãos entre si).

Nada acrescentarei a respeito das observações de Maria del Rosário, mas comento que o que ela abordou pode vir a nos ajudar, quando pensamos sobre nossa Dinâmica já vivida, com pais e irmãos, e mesmo a Dinâmica seguinte, na Vida que cada um de nós pôde criar e nela está inserida(o).

Ou seja, a pensar quem é o passivo e o ativo, e com quem alternamos esse ritmo e possibilidade de viver e estar na…

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lemosteresamaria
lemosteresamaria
03 de abr. de 2021

Seu texto foi uma alegria para mim porque nele a clínica aparece em cor, cheiro e trilha sonora, aparece nas falas citadas, nas histórias mal-contadas dos neuróticos, nos momentos de encruzilhada na associação livre, quando o psicanalisante faz perguntas inúteis mas necessárias para o trabalho prosseguir.

Eu me pergunto se esse homem passivo não é um homem atordoado diante do espetáculo do poder do feminino, o poder de colocar em x(ch)eque todo o sentido do universo apenas para mover algo e destruir o muro da linguagem, o aparente culpado de não sabermos dizer nada de importante uns para os outros? O poder do feminino é destruir todas as certezas apenas e unicamente para tentar se dizer? Diante disso, homens …

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rmisailidis
rmisailidis
03 de abr. de 2021
Respondendo a

Agradeço teu comentário que vai além do texto e estimula a continuar pensando o homem e a mulher do nosso tempo. Parabéns por este espaço incrível, livre e democrático que voce e Jane levam com pulso firme as publicações das 6tas feiras para o nosso deleite. Vida longa ao desigual blog!!

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