O GUARANI

Segurando firme o volante para manter as rodas retas, eu apenas aguardava enquanto a Land Rover desgovernada fazia rodopios sobre a lâmina de água, misturando os verdes e marrons que na hora supôs serem rochas e árvores. Temi estar prestes a ser colhida por um veículo trafegando no sentido contrário, ou que seria esmagaria contra o tronco imenso de um jequitibá, ou que, depois de arrebentar o parapeito do lado oposto da estrada, o carro daria um salto de cinema sobre a ribanceira. Houve tempo, inclusive, para eu me lembrar com minúcia de toda a explicação técnica de João Victor, proferida enquanto eu estava deitada no leito do hospital, me recuperando dos ferimentos de meu primeiro acidente, de que na aquaplanagem uma lâmina de água se insere entre os pneus e o solo, e que por isso não há nada a fazer senão segurar firme o volante e torcer pelo melhor. Ou pelo pior, murmurei entre os dentes, sem conseguir ver em seu rosto qualquer esboço de reação. A aquaplanagem também tinha sido a causa do meu primeiro acidente de carro, ocorrido cinco anos antes. O impacto final contra um muro de pedra reduziu a Mercedes dourada a um monte de ferragem retorcida, e me legou, além da fotofobia e da hipersensibilidade a sons agudos, uma longa e grossa cicatriz que descia por toda a lateral da minha coxa esquerda e chegava até o meio da canela. João Victor por muito tempo insistiu para que eu fizesse uma cirurgia plástica num dos hospitais geridos pelo grupo empresarial que ele presidia na época, mas eu me esquivei, queria mesmo era que ele nunca deixasse de ver a cicatriz, que não pudesse se esquecer dela, e foi por isso que decidi manter na pele a marca desse primeiro acidente, de que me lembro com exatidão: a Mercedes deslizando em círculos, e o zunido do vento e da chuva combinados formando um som espiralado que podia continuar por todo o sempre, produzindo esse mesmo efeito de transe da música eletrônica, mas que foi interrompido pelo impacto seco do choque contra o muro, seguido por um estilhaçar de vidros e pelo ruído lancinante dos ossos da minha perna esquerda se fraturando em várias de partes. Se naquele dia eu tivesse escolhido entre os tantos carros disponíveis na garagem um mais moderno, com air bag lateral, não teria batido a cabeça nem quebrado o fêmur, e nem teria de sempre usar óculos escuros e de tapar os ouvidos a cada vez que alguém coloca música alta. Sequelas. Apesar da perna esmagada e da pancada na cabeça, não sei muito bem como me mantive acordada até a chegada do socorro, mesmo quando fui retirada das ferragens. Só a caminho do hospital, dento da velocidade desesperada da ambulância, depois de me aplicaram na veia uma combinação de duas ou três ampolas, é que fui aos poucos saindo do ar enquanto o paramédico imberbe com as mãos enluvadas segurava meu braço e repetia vai ficar tudo bem, dona, vai ficar tudo bem, dona. Dona. Se esse tipo de acidente mais violento provoca em muitos casos um apagamento da memória anterior ao instante preciso do impacto, comigo se deu exatamente o contrário, pois permaneciam muito vivos todos os instantes ao volante da Mercedes desgovernada, enquanto as lágrimas desciam grossas pelo meu rosto no mesmo ritmo que a chuva escorria pelo para-brisa. Eu tinha tomado dois comprimidos de Rivotril pela manhã, e acabei tomando mais um ao sair de casa, dessa vez com uma dose dupla de vodca pura, antes de pegar as chaves da Mercedes e sair a toda velocidade. Aos prantos, não sabia muito bem aonde ir. Dirigi por muito tempo veloz e a esmo, furando de propósito vários sinais vermelhos para deixar o máximo de multas a serem pagas por João Victor. Enquanto eu seguia sem destino, de súbito me veio à mente o rosto sorridente de Lydia, a quem não via fazia cerca de 10 anos, desde a festa de formatura da turma de comunicação na UFRJ. Lydia era uma pessoa confortável, e tinha sempre uma palavra calorosa para quem estivesse triste. Tomei então o rumo da Barra da Tijuca, subindo pelo Alto da Boa Vista. Mas a chuva que começara fina passou a ser torrencial e, antes mesmo de concluir a quarta curva fechada da subida, o carro já estava destruído contra o muro de uma mansão. As imagens desse primeiro acidente rodopiavam dentro de mim, um acidente dentro da iminência de outro acidente, e eu estava de pela segunda vez em cinco anos a bordo de um carro em aquaplanagem. Tive até o tempo de pensar, de desejar, que dessa vez ele não poderia mais ser a primeira pessoa a quem veria ao despertar no hospital, o que talvez me tenha feito sorrir. Eu preferia ver a cara insossa de algum médico ou quem sabe um sorriso de enfermeira. Melhor, nada tão terrível quanto o olhar inquisidor de meu marido, incapaz de um gesto puro, de um mínimo desespero que pudesse perfurar o autocontrole que sempre o dominou. Mesmo depois de entrar em coma, havia quase dois anos, se um resíduo de sonho ou uma imagem diminuta ainda perambulasse pelos seus neurônios, com certeza seria para formar um plano, uma agenda, um esquema, uma estratégia de aquisição, um investimento no mercado futuro, pois foi seguindo esse modus operandi que ele me comprou de seus pais quando eu tinha apenas 15 anos. Se eu não tivesse caprichado tanto naquela simples redação escolar eu não estaria rodopiando nessa Land Rover nova em folha, tampouco teria essa cicatriz na perna, nem hipersensibilidade visual e auditiva. Mas o zumbido em espiral do carro descontrolado estancou de súbito junto com o motor, sem que dessa vez se produzisse um choque qualquer. E o único som a cortar o silêncio que se instalou foi o Guarani de Carlos Gomes anunciando, no rádio, que em Brasília eram 19 horas.
Caio Meira
poeta e psicanalista



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