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“O diagnóstico de mães narcisistas: nada de novo no front”

Foto do escritor: DESIGUALblog
DESIGUALblog
19 de jan. de 2024
5 min de leitura


São Paulo, 15 de dezembro de 2023

 

“O diagnóstico de mães narcisistas: nada de novo no front”

 

Bom dia,

 

Assisti ao filme “Nada de novo no Front”[1] na mesma ingenuidade do protagonista da história Paul Baumer: eu não sabia aonde eu tava me metendo. É assim que o garoto vai se alistar pro exército junto com seus três amigos de escola: eufórico, brincando e dizendo que irão comemorar a vitória em Paris sem ter ideia dos efeitos que a barbárie da guerra produz em um ser humano. O filme foi um verdadeiro terror aos meus olhos. Mas o terror menos se vinculava a cabeças decepadas, ao sangue, a fome, ao tiroteio ou a extensa tecnologia utilizada pra matar e sim ao horror diante das conversas entre os  generais, diplomatas e alto escalão, pois fica claro como a decisão de cessar fogo pode sempre ser tomada num jantar com talheres bem lavados, mas que por motivos muito mais mesquinhos do que (conquista de território, imperialismo, perpetuação de poder) fazem com que esse jantar tenha como desfecho a continuação da morte de jovens entusiasmados e a interrupção de várias histórias de amor.  A exaustão de Paul Baumer também me provocou horror, principalmente após a cena em que ele esperançava voltar pra casa e a partir da decisão de dois políticos, a continuidade da guerra é decretada. Tudo se repete de novo e de novo e dessa vez Paul Baumer morre na batalha. A fala que ele se refere a sua mãe é a seguinte: “Minha mãe foi contra eu me alistar, eu queria mostrar que eu podia fazer isso”.

 

Estou sentada em casa, tomando meu sorvete preferido.Uma pessoa da minha família  me envia uma mensagem, dizendo que seria importante assistir a matéria do Fantástico. Olho o título da matéria: “Mães narcisistas”, sinto aquela preguiça de gente que anseia por surpresas da vida e de novo encontra com o mesmo, antes de abrir a reportagem vem uma frase que cai na minha cabeça: “Nada de novo no front”. Quando as frases caem na cabeça da gente, Freud geralmente falava que era pra levar elas a sério, a técnica da associação livre é isso: dizer o que cai na sua cabeça sem que você queira.


Levo a sério a associação e penso: “que merda, de novo dando um jeito de culpar a mãe por alguma coisa. Lá vem uma sofisticação da história da Eva e Adão, botando na “carcunda” da mulher todos as causas e culpas pela desgraceira da vida do filho. Depois uma implicação histérica me toma: e os pais dessa história? Não tem pais narcisistas? Cadê? Depois vou atrás do DSM e leio o tal diagnóstico “Transtorno de personalidade narcisista”. Esse manual que é a degradação da degradação da subjetividade humana.


Poderíamos começar dizendo que sem narcisismo ninguém para de pé, você concorda Maria Teresa? Então se quiser ir pro mundo, tenha um narcisismo minimamente alimentado. Segundo: o que seria de um filho se uma mãe não o enxergasse como uma extensão sua? O que seria de uma criança se uma mãe não usasse esse menino pra poder dar satisfação pra ela mesma? Posso dizer que na minha história a ocupação da tal “função materna” oscilou entre uma mãe biológica e uma tia (irmã do meu pai), por isso vivo defendendo a ampliação das famílias, um nascimento de uma criança precisa conter no mínimo um coletivo ou um quilombo, pra essa criança não virar objeto de vingança de todas as perdas e sacrifícios dessa mãe. Muitas histórias maternas por exemplo já começam com o preço da violência obstétrica, o menino já nasce com a marca naquele corpo feminino que foi violentado. Mas voltando a tal “função materna”, na minha história adorava quando essa tia me fazia de gato e sapato, comprando e me levando pra experimentar roupas nas lojas que ela gostava e me enfiando em lugares que eu detestava ir: ela olhava e falava pra todo mundo ouvir: “que pretinha linda da titia” e me injetava desejo e narcisismo que me permitiu achar que eu sou alguma coisa nesse mundo. Minha mãe já ia pra outro rumo. Vou acusar a titia de ter me feito de gato e sapato? De jeito nenhum, eu simplesmente adorava e me oferecia (sem saber porque) pra essa situação. Meu primo que era mais novo que eu a mandava parar de encher o saco dele. Eu ficava chocada com a capacidade dele de xingar essa mamy toda poderosa. Terceiro: Por que a gente insiste em colocar na Mae-toda-poderosa a causa dos nossos prejuízos emocionais? Conhecendo o que você escreve, diria que sua hipótese vai além do que um diagnóstico de “sociedade machista e patriarcal”.


Agora vamos para o que interessa. Em psicanálise não trabalhamos com a mãe de carne e osso. Quando fazemos isso, tendemos a achar as vítimas e os algozes. Conheço analistas que vivem pedindo pra suas pacientes se afastarem de suas mães, de seus namorados, de suas esposas “tóxicas” e etc, minha hipótese é que em “sua maioria”, eles estão trabalhando com pessoas de carne e osso. Trabalhamos com a leitura dessa mãe. E essa leitura é que nos oferecerá a verdade. E a entrada de mais um texto na análise pode mudar o passado de alguém, isso é fascinante. Mudar toda a posição do leitor. A ideia de que o passado nunca está seguro é bastante subversiva. Contudo, isso não nos livra de termos que lidar com os problemas sociológicos do “ambiente”. Freud, por exemplo, descobriu que sua teoria da fantasia podia ter um limite ao escutar os neuróticos de guerra (questão de ambiente). Winnicott trabalhou com a noção de ambiente. O que digo aqui: há mães verdadeiramente cruéis? Há. A saída é a gente pedir pra esses meninos (adultos) cair fora dessas mães? Dificilmente. assisto ao crescimento de vídeos sobre mães narcisistas, o que escuto é a neurose da neurose. “Estou aqui pra mostrar todos os lugares que minha mãe fracassou e não permitiu que eu me emancipasse, sou uma vítima dessa mulher”. A neurose da neurose com uma dose de patriarcado. Porque a neurose é patriarcal. É isso que os psiquiatras falaram no fantástico: “Esses filhos são vítimas”. É claro que num mundo ideal, gostaríamos que uma mãe não ameaçasse se matar quando seu filho contar que vai viajar sozinho, que não falasse pra sua filha que teve vontade de abortá-la quando essa menina frustrar ela, nem competisse incessantemente quando essa moca arrumar um boy gostoso. Num mundo ideal, gostaríamos que uma mãe ao se deparar com a emancipação simbólica do seu filho: entrasse em luto concomitantemente se entusiasmasse por ele.  Mas a gente em psicanálise não trabalha com mundo ideal. A gente trabalha com o arroz e feijão. Até quando a gente vai culpar a mãe pela nossa meleca?  Nossa (minha + grande Outro +...).


No relato desses filhos do “Fantástico”, as queixas que aparecem desses filhos com suas mães trazem palavras como “ela é egocêntrica”, “manipuladora”, “faz tudo em benefício próprio”, dizendo coisas como: “você não devia ter nascido”, “queria ter abortado você”. Egocêntrica, manipuladora e benefício próprio tendem a ser diagnósticos morais, quando você trabalha numa instituição tipo CAPSad, o que você vai mais ouvir de uma equipe é: “cuidado, eles são manipuladores”. O que revela a concepção desse profissional de uma certa posição infantil-adulto, aonde ele, precisa o tempo todo se proteger da “manipulação” do paciente. Os usuários de droga geralmente são ligeiros, descolados, rápidos, do corre, sabem brincar com o 171, mas manipuladores é uma palavra bastante moral. Agora frases como “você não devia ter nascido, “queria ter abortado você” já trazem um outro grau de vaticínio, que eu não colocaria na conta do coitado do Eu.


Você não acha que a palavra narcisismo tá virando carta curinga pra tudo que se apresenta na contemporaneidade? Antes era gozo. Agora narcisismo e identitarismo. Quero saber de você, o que anda encontrando na clínica com crianças aí? As mães e o pais estão mais intolerantes para tudo que se apresenta como não sendo aquilo que o Eu reconhece? Só pra não esquecermos: Narcísio é filho de um estupro. Dê notícias. E te sugiro uma série: “Sharp Objects”. Ali sim, temos um bom papo sobre a maternidade.

 

Abraços, 

Bárbara Cristina


[1] Filme sobre a I Guerra Mundial que foi indicado 9 vezes ao Oscar.


 
 
 

1 comentário


raija.cs
29 de jan. de 2024

Sugiro que assista a série “the act”.

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