O amor casto e a proposta indecente

Atualizado: 12 de jan. de 2023

Papa Inocêncio X, por Velázquez
Com Amor para meu pai
A leitura do mito grego “Eros e Psiquê” contada por Lúcio Apuleio, escritor latino do século II de nossa era, foi a grande motivação para escrever este texto. Ela possibilita várias interpretações a respeito do que podemos entender por Amor. Escolhi enveredar pelo tema do amor casto, aquele que se mostra puro e fiel ao propósito. Algo assim como alguém que segue o cumprimento de um sacerdócio.
E assim começa a história. Eros, o deus do Amor, se apresenta a Psiquê exigindo promessa de castidade. Ser amado sem nunca ser visto. De cara, o “Amor sagrado” impõe um pacto de cegueira e de renúncia.
Grande cilada, esta do deus do Amor! E o desejo? Onde pensava ele que iria ficar? Ele, que foi ferido pelo próprio veneno de sua flecha*,ao contrário do que a invejosa Afrodite esperava. Não esqueçamos que a invejosa Afrodite é a deusa da beleza e do Amor e, por sua vez, mãe de Eros. Só para constatar que o Amor não nasce em águas cristalinas.
Mas quem diz que Psiquê aguentaria cumprir a proposta indecente? Como toda Psiquê que se preste, é curiosa e como mulher, desejante. Transgressão também é o seu nome.
“Não há Amor onde não há confiança” sentencia Eros depois que Psiquê descumpre a promessa de nunca olhar para o seu rosto. Quanta idealização deste enamorado adolescente! O curioso da história é que Psiquê , depois de tê-lo perdido, arregaça as mangas e vai à luta para trazê-lo de volta. Eros corre para os braços de sua mãe em busca de consolo. O deus do Amor não nega que também é filho da pobreza.
Bem pensaram os gregos que as divindades são feitas à imagem e semelhança dos homens. Meu pai, filho de pai nascido na Grécia, sempre foi devoto ao deus do Amor e o concebia tal qual o próprio Eros o pensava, um amor idealizado, puro na essência, salvador de todos os males. “Amar é jamais ter que pedir perdão” diz a frase emblemática do filme “Love Story” dos anos 70. Não seria o contrário? Quanta glicose desnecessária injetada na cultura.
Meu pai transmitiu o amor aos filhos como algo sagrado mas esqueceu de contar a história toda, com começo meio e fim. Quando Eros se encontra com Psiquê, ou melhor, quando um homem e uma mulher formam laço erótico, o sagrado sai de cena. Freud disse com outras palavras: só há paz quando não há relação sexual. O que acontece na realidade é a vida como ela é, humana demasiado humana.
O homem casto com o tempo descobre o alto preço que lhe impõs sua crença, ter de renunciar a um enorme quinhão de sua subjetividade para manter viva a ilusão do “amor- harmonia”, equilíbrio, complacência. O homem casto é doutrinado a olhar para as virtudes do Amor e não para sua natureza.
Quando nasce o amor, nasce também a angústia e esta tem como função sinalizar tudo o que ameaça causar sua perda. O bebê precisa de alguém que o chame de Amor devido ao estado natural de desamparo e de sua incapacidade psíquica e motora. Ele depende do amor para sobreviver. Não é difícil imaginar quanto ódio este pequeno ser é capaz de produzir à menor possibilidade de descuido ou abandono. Para falar de amor é preciso falar do ódio.
Talvez seja por esta incontestável possibilidade de risco que o Amor casto teme a palavra separação. Psiquê, ao contrário disso, rompe o pacto de fidelidade e num ato transgressivo provoca a separação tirando o Amor do idílio e o trazendo para o plano do real: o Amor causa dor!
Pergunto, onde está a beleza de amar o homem casto, puro e por lógica dessexualizado? A clínica de psicanálise traz diariamente vários relatos da expectativa do encontro ideal e da crença no amor purificado. Parecem dizer: o homem e a mulher devem vir cobertos pelo véu , tal qual Eros pediu a sua noiva. Quanto menos se conhecem um ao outro, melhor! Mas é disso que se trata? O Amor não pode ser encarado? Os amantes reduzidos à função de servos fiéis? Mas qual a graça de amar um escravo? Isso somente se justifica pela absoluta ignorância de si mesmo e de seu próprio desejo.
O Amor casto de certa forma rouba a masculinidade do masculino. O casto é o homem cindido que renuncia a uma parte de si mesmo, a mais valiosa eu diria: sua agressividade. Isso, como já disse, tem um alto preço a ser pago.
Eu pergunto: o homem casto que aposta na pureza para atender à demanda amorosa, não ficaria este do lado feminino? Meu pai se tornou feminino sem ser afeminado, continuou a ter atributos culturalmente masculinos mas escondeu sua virilidade no que ela tem de belo pela sua natureza. A persistência de seus genuínos desejos, estes os considerou impuros. Que dura renúncia, que delírio quixotesco! Sim! Porque também Don Quixote, o de Cervantes, foi outro casto que em nome do Amor adentrou na insanidade para se perder nela. Quanta monstruosidades construímos em nome do Bem e do Amor!
O Oráculo de Apolo teria anunciado que um monstro terrível se uniria a Psiquê e casaria com ela e por este ela seria devorada. Não se pode dizer que não foi prevenida. Devorada precisamente não, mas teve de realizar trabalhos desumanos, verdadeiros sacrifícios cumpridos para poder retornar do Hades e continuar no encalço do Amor. Desta vez, sem os olhos tampados.
*ato falho?
Maria Del Rosário Misailidis

Papa Inocêncio X, por Francis Bacon



Excelente texto. Já nos mostrava Nelson Rodrigues que a castidade pode ser a perversão mais bem acabada.
Bom dia Maria Del Rosario. Parabéns pelo texto culto, sensível e analítico. Não entendi bem essa questão dos homens castos. São os submissos (de várias formas?)
eros e tiquê
no amor, o amado traz o obstáculo
que você precisa conhecer
o obstáculo é ele, eu, tu
e você
o amor fracassa
com ele pode-se aprender
mas nem todos pagam a festa
nem todos serão Eros ou Psiquê