NEUSA

Neusa
Para Neusa Santos Souza
Quisera não parar de escrever
De escrever infinitamente
Para fazer face à...face à.
E foram muitas coisas:
Um encontro, os amigos, Freud, Lacan,
A filosofia, a política, o PT, as brigas,
Os desencontros, o riso fácil, a gargalhada sonora,
A lavoura arcaica, a pele escura, a África, o candomblé, os deuses,
A Bahia, os orixás, a psicanálise, as escolas de psicanálise, a solidão
O feminino, Ella Fitzgerald e um copo de whisky,
As ruas de Paris e talvez um amor à francesa,
O gosto refinado, a sutileza estética, a generosidade,
A indignação, a radicalidade, o gosto da clínica,
Os malucos, “meus malucos”, um passado opaco e muitos amigos,
A matemática e o rigor, a sensibilidade sem queixume,
A solidão e as horas, as horas e a solidão.
Escrever, escrever para fazer face à..., face à.
O que é um projeto de vida? O que é um projeto?
O que é? O quê?
Em que tempo e em que espaço nos projetamos?
É como sujeitos ou objetos que nos projetamos e somos projetados?
O non-sense que perpassa a vida e nos engole como um buraco negro
Não cessa de não se inscrever, nem todos sabem disso mas não importa
Porque o saber não impede nada. Diante de um ato os dados estão lançados.
Há escolha diante das Horas ou há escolha de não haver escolha?
Escrever, escrever para fazer face à... face à.
Ao concreto? Ao real? Face ao real que nos esmaga,
Nos esmaga o concreto, o concreto.
Não sai do lugar o concreto, não há metáfora.
Fazer face à... face à.
Só restam saudade e lembranças.
Nestor Lima Vaz



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