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Resposta à Barbara (a propósito das mães narcisistas)

Foto do escritor: DESIGUALblog
DESIGUALblog
19 de jan. de 2024
6 min de leitura


Prezada Barbara,


                              Fiquei feliz de receber sua carta e animada com o tema que você colocou em pauta. Assim como você, me irrito profundamente com o uso do nosso tão digno termo “narcisismo” para dizer de coisas tão diversas e mal colocadas. Depois que Lacan, ainda psiquiatra, demonstrou, com o estádio do espelho, que o narcisismo é uma loucura normal e também uma normalidade louca, não precisaríamos mais ser tão ignorantes assim. O fato é que o ser humano é capaz de retrocesso, foi a grande lição dos últimos tempos.


Um amigo da faculdade de Psicologia, nos idos anos 80, dizia sarcasticamente que “narcisista é quem é mais bonito que a gente”. Continuo achando essa a melhor explicação que conheço. Hoje fala-se tanto dos narcisistas e sendo as redes sociais a coisa mais próxima possível da torre de babel, reina a confusão. Quando me deparo com o uso desse termo nas redes sociais penso que estão falando de um comportamento “canalha”.  


Sei que não podemos mais usar termos como “canalha” por conterem muito expressamente um julgamento moral[1]. Hoje há uma forte pressão para o uso de uma língua Única, limpa e higiênica onde todos os sujeitos caberão em classificações diagnósticas, de gênero, número e grau oferecidos para degustação numa planilha de excel livre de preconceitos e pretensamente apoiadas em dados científicos. O que antes chamávamos de relação sado-masoquista hoje preferem dizer tóxica. O peixe morre pela boca, o ser falante pelo vocabulário. Alguns pelo déficit, outros pelo excesso. Como você bem disse, nada de novo no front.


Alguns intelectuais usam o seu extenso vocabulário para denunciar os propósitos escusos da nova-língua e atribuem essa pressão classificatória ao capitalismo. Discordo! O capitalismo foi a invenção de Henry Ford, isso faz muito tempo. Não sei se Foucault concordaria comigo mas eu prefiro chamar a atual agência denominadora central de AADN ou inventar o conceito de “nazismo geral” ou “generalizado”, como quem diz “infecção geral”. Vale igualmente para a esquerda e a direita, para os de cima e os de baixo, sem falar daqueles pendurados nas pontas. O prognóstico não é bom. O nazismo é um contágio das massas por um discurso que parece pôr os pingos nos is sendo que nenhum discurso põe os pingos nos is. Só a morte faz isso. Impostura.


Por causa da nova-língua não pareceria de bom tom dizer que esse comportamento “egocêntrico, manipulativo em benefício próprio”, citado por você, seja a canalhice. Assim, para não ferir aqueles que se apaixonaram pela nova-língua como gatinhos pelo novelo de lã e, é claro, para salvar a minha pele, usarei um termo mais próprio ao nosso meio burguês de psicanalistas de classe média formados no estado de São Paulo, o sadismo.


Concordo com você que o narcisismo do Eu é o que nos faz ficar em pé. Lacan diz, no seminário da Angústia, que o narcisismo é a reserva libidinal que fica protegida pela imagem que engana o Desejo do Outro. A imagem cobre o desamparo do eu como objeto, por isso o neurótico a ama mais que a si mesmo. O narcisismo protege da devastação.


A expressão “mãe narcisista” produz confusões homéricas. Uma mãe não poderia ser narcisista. A maternidade é uma função, nenhuma mulher é mãe. Não existe “Mãe” senão na cabeça do bebê e da criança até os cinco anos de idade. Depois disso o ser humano entende que quem desempenha essa função é uma mulher, que tem nome. No meu caso, Cláudia é a mulher que foi e continua sendo minha mãe, isto é, ocupa essa função. Não mais por vinte quatro horas como quando eu nasci mas ainda é à ela que recorro para ter certeza de que, mesmo no auge da minha chatice e mau humor, alguém ainda me ama. Assim como você se soube uma “pretinha linda” graças a sua tia, graças a ela vejo que não sou uma menina desprovida de graça. Isso seria pior que a morte. E saibam que minha mãe não é desprovida de narcisismo, bem pelo contrário.

Por isso, em vez de falar de narcisismo, prefiro dar nomes aos bois e chamar de sadismo. Para mim faz mais sentido.


Vou dar um exemplo. Recentemente soube e assisti (passando muito mal, diga-se de passagem) a vários posts de uma trend atual na qual mães quebram ovos na testa de seus bebês/crianças rindo para a câmera enquanto a criança aparece visivelmente humilhada. Existem perfis nas redes sociais de pessoas que testemunham terem vivido com mães, pais e conjugues “narcisistas” e os relatos são hardcore, difíceis de escutar. Essas pessoas foram movidas a falar quando encontraram situações semelhantes às suas na internet. Saíram do silêncio e da petrificação do medo. Não é possível desmerecer o efeito disso para aqueles que sofreram abuso psicológico. Existe, é claro, para esses porta-vozes o risco de ficar petrificado novamente na figura da vítima mas parece que, entre ganhos e perdas, sair do silenciamento acaba sendo a escolha necessária à sobrevivência psíquica.


 O que o relato e os conselhos desses coachs que curaram a si mesmos abandonando à muito custo relações de dependência emocional extrema,  tendem a desenhar é a figura não de uma mãe narcisista mas de uma irmã mais velha que odeia a criança por ter que dar suporte a ela. A criança lhe pesa, lhe rouba o lugar e é castigada por existir. A mãe ou o pai dito “narcisista” é alguém que se satisfaz (os lacanianos diriam “goza”) com a humilhação do filho, não protegerão o narcisismo da criança. Usam a dependência extrema da criança para não serem impedidos de exercer seus impulsos pois a criança dependente não pode dizer não a um adulto que cuida dela. Seria preferível para a criança escolher a morte do que se perder do Outro que a sustenta enquanto eu humano. Como eu disse, sobrevivência psíquica.


Você me pergunta o que eu vejo no consultório. É uma pergunta bem feita porque o que importa é a nossa posição como  psicanalistas, como terapeutas. Qual nosso papel nesse jogo? Quais as nossa armas?


Posso te dizer que o que mais me impressionou durante a pandemia foi o número de pacientes que apareceram para contar uma história de abuso sobre a qual não haviam falado antes e talvez não pensassem que falariam um dia. Me pergunto sempre se, caso o terror da pandemia não tivesse nos obrigado, pelo isolamento, a um encontro tão direto e duro com nós mesmos e nossas paredes, se essas pessoas teriam vindo até nós para encarar o que lhes causa horror. Nada fácil, nem para o paciente nem para o terapeuta. Ambos separados por uma tela. Que tempos sombrios!


Por outro lado, talvez o fenômeno não tenha tanto a ver com a pandemia quanto com eventos anteriores à ela que revelaram à luz do dia os abusos da Igreja Católica e da Industria cinematográfica. O véu que cobria nossas fantasias de felicidade e redenção foi rasgado de modo irreversível. Com certeza ainda existem muitos outros fatores. Assim como Freud prefiro pensar a realidade como sobredeterminada, movidas por heterogêneos fatores, amarrada no real como uma âncora. Um psicanalista não precisa explicar tudo mas deve saber onde está a ferida.


Aprendi e continuo aprendendo com esses casos, que continuam aparecendo. Aprendi que é importante, ética e tecnicamente, a distinguir o neurótico que age com perversidade do verdadeiro perverso. O verdadeiro perverso nunca chega aos consultórios, são apenas os seus parceiros neuróticos que ficam divididos entre a oferta de gozo ilimitado mas mortífero e o desejo que permite viver mas está sempre atravessado pela falta. Estes procuram um terapeuta porque ninguém escapa sozinho do inferno.


Também são chamados de “narcisistas” os neuróticos que praticam perversidades, hoje bastante comum porque o social premia o “foda-se” para com o outro. É visto como sinal de poder. Quando o neurótico pratica uma perversidade com um filho, expondo-o socialmente a uma situação degradante ou negligenciado um pedido de ajuda de modo proposital, a posição do analista é fundamental. Ele deve, a meu ver, evitar a lição de moral mas não hesitar em apontar para as incidências éticas. Aliás, isso vale para todos. As  crianças são capazes de atos insensíveis e também cruéis, não nos esqueçamos disso.


Vou dar um exemplo. Os pais de uma criança me relatam que quando frustrado o menino chutava o cachorro. Me perguntaram o que fazer e dizer a ele nessas situações. Minha resposta não podia ser outra: “não importa o que vocês façam, o que importa é que seja capaz de impedir este ato. Você podem segurá-lo, vocês podem pegar o cachorro, vocês podem dar um grito de socorro, vocês doar o cachorro para a vizinha. Não importa, não tem uma forma certa ou melhor que a outra. O que importa é impedir a violência sem violência”. Não existem palavras mágicas que substituam o agir. É o ato que ensina o intolerável. Deixar um cachorro ser chutado é intolerável. É surpreendente quantos atos perversos são cometidos e assistidos por pessoas que “não sabem o que dizer” ou “o que fazer” e se paralisam permitindo que o pior ocorra diante de seus olhos.


O descaso com a vida das crianças e dos jovens é intolerável. Eles continuam sendo vulneráveis, como sempre foram e serão, devido à extrema dependência simbólica, de atos e palavras, dos adultos, em quem precisam confiar para sobreviver. Mas é também graças a esta necessidade você aceitou ser nomeada como “pretinha linda” por sua tia e pode hoje guardar com carinho essa reserva libidinal, esse cacife de desejo, e se arriscar a viver o amor. Sorte sua! Poderia ter sido pior.


Por fim, minha cara amiga, repito suas palavras. Não há nada de novo no front. A luta continua.

 

Abraço grande!

 Maria Teresa

  

[1] È verdade que pelo menos um psicanalista se dedicou à análise da canalhice e vale a pena ser lido. Falo de “Meu caro Lacan, porque negar a psicanálise aos canalhas”, de Ricardo Goldenberg.




 

 

 


 
 
 

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