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Mal-estar e gênero nas línguas

Foto do escritor: DESIGUALblog
DESIGUALblog
10 de dez. de 2020
11 min de leitura

Atualizado: 26 de jun. de 2023


Mal-estar e gênero nas línguas

Jane Silveira


O gênero nas línguas suscita na Linguística discussões acerca de sua face sintática e semântica, sendo frequentemente apontado como um tema controverso. Isso se deve ao fato de que, ao convocar a diferença sexual, o gênero revela de maneira singular a natureza dessas duas faces correlativas e opostas, já que a mesma forma gramatical que serve para significá-la serve também para, dessa diferença, nada significar. Desse modo, se o gênero se justifica em “menino” e “menina”, o que explicaria a atribuição do gênero masculino a “sofá” e do gênero feminino à “cadeira”? Diante disso, alguns linguistas se limitam a descrever o modo como a categoria gramatical de gênero comparece nas línguas na tentativa de responder a questões relativas à “para que serve o gênero na língua”.


Assim, a impossibilidade de uma regularidade que atenda a um ideal de língua, isto é, o fato de o valor e a função do gênero em cada língua e nas línguas serem heterogêneos, causa em alguns linguistas um mal-estar que pode ser sentido nos estudos que qualificam a categoria gramatical de gênero como ilógica e ininteligível. É o que notadamente faz Antoine Meillet nos textos em que reflete sobre o gênero nas línguas, em especial nas línguas indo-europeias.


Sob uma perspectiva evolucionista, Meillet ([1919] 1965) no artigo Le genre grammatical et l’élimination de la flexion, o qual é uma referência importante para o estudo do gênero, afirma que é comum a todas as línguas indo–europeias uma redução progressiva da flexão, que atenua a “exuberância” da morfologia complexa e delicada dessas línguas[1]. Segundo o autor, fatores de ordem histórica, como a dominação de um povo por outro, e o fato de as flexões se situarem sobretudo no final da palavra, o que faz com que sua saliência perceptual seja menor, contribuíram para eliminar distinções “mais ou menos supérfluas”, acarretando uma simplificação do sistema da língua.


Tomando a língua como um aparelho que visa a um funcionamento sem falhas, como que dotado de racionalidade, Meillet argumenta ainda que a redução e a eliminação das flexões se deram por efeito do progresso da civilização, o qual determinou a redução das categorias concretas em direção às categorias abstratas. Cito o autor:


“O sentido, segundo o qual se dá a simplificação, é determinado pela mentalidade dos sujeitos falantes. O progresso da civilização determina um progresso do pensamento abstrato, e, no curso do desenvolvimento das línguas indo-europeias, vemos as categorias gramaticais concretas desaparecerem pouco a pouco, enquanto as categorias que respondem melhor às categorias abstratas do pensamento se mantêm ou se desenvolvem”[2]. (Meillet [1919] 1965 p. 201-202)


Assim, a ideia de que o progresso da civilização determinaria a passagem do pensamento concreto para o abstrato, provocando, com isso, a eliminação das flexões no final da palavra, as quais serviam para marcar na língua “distinções mais ou menos supérfluas”, serve a Meillet como ponto de partida para refletir sobre o gênero nas línguas.


Segundo o autor, nas línguas indo-europeias havia a distinção entre animado e inanimado. Os gêneros masculino e feminino designavam os seres animados, o macho ou a fêmea, sendo o neutro utilizado para o inanimado. Desse modo, a oposição entre masculino-feminino e o neutro equivalia a uma oposição entre animado-inanimado.


Meillet observa que a distinção animado e inanimado não se aplicava de maneira completa e rigorosa na língua, isto é, a oposição feminino-masculino não designava apenas os seres animados do sexo macho e fêmea e o inanimado, que equivalia ao neutro, não designava somente os seres inanimados. Isso leva o autor a afirmar que “o gênero gramatical é uma das categorias menos lógicas e mais imprevisíveis” [3]. (Meillet [1919] 1965: 202)


O autor afirma ainda que nas línguas indo-europeias certos nomes abstratos eram masculinos, outros femininos e outros ainda neutros, sem que se encontrasse uma razão para essa diferença e que certos objetos podiam ser masculinos, femininos ou neutros sem uma razão aparente. Meillet sublinha que no francês, língua que conserva a distinção de gênero, isto é, masculino e feminino, o mesmo acontece, já que não se saberia explicar o motivo pelo qual le siége (o assento) é masculino e la chaise (a cadeira) é feminino ou porque le soleil (o sol) é masculino e la lune (a lua) é feminino, em contraste com o alemão, em que Mond (lua) é masculino e Sonne (sol) feminino.


Desse modo, Meillet qualifica esses fenômenos de incoerentes, o que justificaria a eliminação do gênero nas línguas. É evidente que a reflexão do autor, por projetar a ordem da razão sobre a língua, em oposição à ordem própria da língua, recorre a uma concepção de língua centrada nas questões referentes à sua face semântica em detrimento de sua face morfossintática. Sendo assim, o que na língua corresponde somente a uma referência interna, imanente a seu funcionamento, ou seja, o fato de o gênero servir ao processo de concordância, o qual intervém na formação e coesão de unidades maiores, é tido como algo sem função que, por isso mesmo, deve ser eliminado. Cito o autor:


“Todas as línguas romanas que conservaram de alguma maneira a distinção do o e do a em final de palavra – seja expressamente, como o italiano que opõe bon a buona, seja indiretamente, como o francês que opõe bon a bonne – guardaram a distinção entre o masculino e o feminino, enquanto o neutro se fundia ao masculino. Uma das distinções de gênero era, assim, mantida. A eliminação do neutro, contudo, mostra a tendência a eliminar uma categoria desprovida de sentido e que serve somente, em função da concordância, à estrutura da frase”[4]. (Meillet [1919] 1965: 206) [tradução e grifo meu]


Assim, diante do caráter contraditório e conflituoso do gênero, Meillet argumenta que a morfologia das línguas indo-europeias é arcaica e, comparando as línguas entre si, afirma que as línguas que conservam as flexões são obsoletas em relação às línguas em que as flexões foram reduzidas ou eliminadas. Diz o autor:


“Enquanto o alemão – que até hoje não se livrou completamente da flexão de caso continua a distinguir inutilmente um nominativo, um acusativo, um genitivo e um dativo – distingue ainda o masculino, o feminino e o neutro, e as línguas escandinavas, do mesmo modo, conservam a distinção masculino-feminino e neutro, o inglês, mais avançado, tirou proveito da eliminação total do fim da palavra em que figurava a marca de gênero para descartar uma distinção inútil. O único resquício de gênero que o inglês conservou consiste no emprego do pronome he “ele”, para falar de homens; she “ela”, para falar de mulheres; it “isto”, para falar de animais e de coisas. Essa diferença constante, própria ao pronome, não tem mais nenhum dos inconvenientes do gênero, e o inglês promoveu, quanto a esse ponto, um progresso decisivo”[5]. (Meillet [1919] 1965: 206) [tradução e grifo meu]


A conclusão de Meillet de que o inglês é uma língua avançada pelo fato de o gênero se manifestar apenas na referência pronominal é menos uma consequência de sua abordagem evolucionista, do que uma saída para o problema que o gênero gramatical coloca para o linguista. O inglês é, para o autor, a língua ideal, isto é, um modelo de língua em que o emprego do gênero se mostraria estável na restauração de uma funcionalidade; é o que pode ser lido em suas palavras acima por mim grifadas.


Nesse sentido, apesar de tender a reduzir seu estudo sobre o gênero à descrição de mudanças observadas nas línguas, sobretudo nas indo-europeias, em decorrência de diferentes graus de civilização dos povos que as falam, Meillet reconhece aquilo em que esbarra a resistência do sistema da língua à eliminação do gênero:


“A evolução do gênero gramatical é assim um dos fatos que ilustram melhor, por um lado, a ação que exerce, no desenvolvimento da língua, a mentalidade dos sujeitos falantes e o grau de civilização deles, por outro lado, as resistências que provêm do sistema da língua; as resistências que resultam das formas fixas impedem a ação dos fatos de civilização que atuam sobre a mentalidade dos sujeitos falantes e podem chegar até a levar a língua em uma direção contrária à que ela normalmente tomaria. Nós vemos aí a realidade desta ação dos fatos de civilização e, por outro lado, o poder do material linguístico existente”[6]. (Meillet [1919] 1965: 210) [tradução minha]


A questão do valor semântico do gênero tomada na relação entre a categoria gramatical de gênero e a diferença sexual é o tema do artigo “Les origines du genre grammatical”, da semioticista Patrizia Violi.


Violi (1987) defende que a presença do gênero nas línguas é determinada e motivada por nossa experiência corporal. Autora lança a hipótese de que a diferença sexual, entendida como uma “realidade extralinguística” (sic), determinaria e motivaria a existência do gênero gramatical nas línguas.

Pesquisando autores que estudaram o gênero nas línguas românicas como o italiano, francês e espanhol, e nas línguas germânicas como o alemão e o inglês, a autora sublinha o fato de que o gênero gramatical se manifesta de diferentes maneiras nas línguas.


Um dos estudiosos a quem a autora recorre é Hjelmslev (1956, apud Violi 1987), que, em seu estudo sobre o gênero gramatical nas línguas, referindo-se às pesquisas de Trubetzkoy, Les langues de monde, afirma que algumas línguas do nordeste do Cáucaso chegam a possuir seis gêneros gramaticais, definidos por certos fatos de concordância e que, com exceção do masculino e do feminino, os gêneros não coincidem com categorias semânticas determináveis. Segundo Hjelmslev, o extremo oposto é representado pelas classes nominais no banto, grupo africano, no qual não se poderia deixar de reconhecer a evidente implicação de uma descrição por vezes muito concreta dos objetos designados (humanos, animais, órgãos e utensílios, árvores, frutos, líquidos, etc.).


Diante da diferença entre as línguas na manifestação do gênero que, na hipótese de uma motivação semântica para o gênero gramatical, vão de um extremo a outro, do mínimo ao máximo, Violi interroga a função do gênero nas línguas e, sobretudo, como os gêneros linguísticos estão relacionados com nossa percepção e experiência da realidade. Cito a autora:


“Se o gênero é uma categoria tão diferenciada de uma língua a outra, tanto no plano das necessidades de concordância quanto nos traços específicos que organizam sua seleção, uma primeira questão se impõe, aquela questão relativa a sua função. Para que servem os gêneros em uma língua? E, sobretudo, como os gêneros linguísticos estão ligados à nossa percepção e experiência da realidade? [...] Sua organização influencia o sistema simbólico e cognitivo dos sujeitos falantes, já que os gêneros tendem a ser vivenciados como categorias “naturais” as quais reconduzem à experiência da realidade. Mas até que ponto os gêneros são naturalmente motivados e qual é o laço que une as categorias da língua àquelas da experiência[7]?” (Violi 1987: 17-18) [tradução e grifo meu]


Assim, o que permite a Violi dizer que o gênero na língua tende a ser tomado pelo sujeito falante como uma categoria que corresponde à experiência da realidade é sua concepção de língua que, estando relacionada à noção de um sujeito dotado de um aparato perceptual e cognoscente, obriga a que tome esses mesmos aparatos como uma mediação entre o homem e a linguagem.


Adotando esse ponto de vista, a autora se propõe a analisar as formas na língua que, segundo suas palavras, mostram que o feminino é construído como um gênero derivado e subalterno. Com base em estudos sob uma perspectiva diacrônica, Violi argumenta que isso se deve ao fato de que nas línguas indo-europeias o gênero masculino é o termo genérico, não marcado, sendo o feminino um termo derivado desse, resultante de determinadas transformações morfológicas. Assinala que do ponto de vista da concordância, nos casos em que há um termo masculino e outro feminino, o gênero masculino é o dominante, como se verifica na frase: “Jean e Marie sont allés” ‘e jamais’ “sont allées”. O mesmo acontece com os pronomes, já que é a forma pronominal masculina que é a empregada quando alguém se refere a um grupo misto ou às pessoas em geral.


Na longa discussão que promove, a autora conclui que o gênero feminino é identificado como o não-masculino, desnudado de valor próprio. Assim, se o gênero gramatical representa a diferença sexual na linguagem, sendo o masculino o termo dominante, o feminino teria um lugar semântico reduzido, o que determinaria uma relação dissimétrica entre os sexos. Para a autora a língua é organizada de forma a obliterar, silenciar o ser feminino, chegando a afirmar: “La parole est organisée comme antagoniste à l’être femme” (Violi 1987: 33). O que é evidente nas reflexões dos autores citados é a dificuldade em lidar com o fato de a categoria de gênero tanto servir à referência da diferença sexual quanto negar essa diferença ao instrumentalizar o processo de concordância. Essa ambiguidade é causa de um mal-estar que toma forma explícita na argumentação de Meillet, no sentido de que o progresso da civilização determinaria a eliminação das flexões que servem para marcar na língua “distinções mais ou menos supérfluas”. No sentido contrário, Violi lamenta o fato de a categoria de gênero não representar devidamente nas línguas aquilo que, segundo ela, é percebido e concebido como diferença sexual.




[1] Em um artigo intitulado Le caractère concret du mot, o autor enfatiza que a forma gramatical das palavras nas antigas línguas indo-europeias, sânscrito, grego e latim, difere da forma gramatical das palavras nas línguas modernas como o francês e o inglês. Exemplifica que no francês a forma gramatical da palavra “loup” (lobo) é invariável, isto é, a forma permanece a mesma independentemente do modo como apareça na frase e do sentido em que o animal seja tomado, levando-se em conta o acréscimo do “s” plural quando necessário. No latim, ao contrário, afirma o autor, há várias formas para “loup”: “il n’y a à vrai dire aucun mot qui signifie “loup”; si l’on veut dire que “le loup est venu” on aura la forme: lupus; si l’on voit des loups: lupos, un grand nombre de loups: luporum, on a fait cela pour les loups: lupis, etc.” (Meillet [1923] 1938: 11) [2] dans lequel se fait la simplification est déterminé par la mentalité des sujets parlants. Le progrès de la civilisation détermine un progrès de la pensée abstraite, et, au cours du développement des langues indo-européennes, on voit les catégories grammaticales concrètes disparaître peu à peu, tandis que les catégories qui répondent bien aux catégories abstraites de la pensée se maintiennent ou se développent. [3] « Or, le genre grammatical est l’une des catégories grammaticales les moins logiques et les plus inattendues ». [4] Les langues romanes, qui toutes ont conservé de quelque manière la distinction de l’o et l’a en fin de mot, soit expressément comme l’italien qui oppose buono à buona, soit indirectement comme le français qui oppose bon à bonne, ont gardé aussi la distinction du masculin et du féminin, tandis que le neutre se perdait dans le masculin. L’une des distinctions de genre était ainsi maintenue. Mais l’élimination du neutre montre la tendance à éliminer une catégorie dénuée de sens, et qui sert seulement, par les faits d’accord, à la structure de la phrase. [5] Tandis que l’allemand, qui ne s’est pas encore débarrassé entièrement de la flexion casuelle et qui continue à distinguer inutilement un nominatif, un accusatif, un génitif et un datif, distingue aussi le masculin, le féminin et le neutre, et que les langues scandinaves ont également gardé au moins la distinction du masculin- féminin et le neutre, l’anglais, plus avancé, a profité de la destruction totale de la fin de mot où figurait la marque du genre pour écarter une distinction inutile. Le seul débris de genre qu’il ait conservé consiste dans l’emploi du pronom he « il » en parlant d’hommes, she « elle » en parlant de femmes, it « ceci » en parlant d’animaux et de choses ; cette différence constante, propre au pronom, n’a plus aucun des anciens inconvénients du genre, et l’anglais a réalisé sur ce point un progrès décisif. [6] Le sort du genre grammatical est ainsi l’un des faits qui illustrent le mieux, d’une part, l’action qu’exercent sur le développement de la langue la mentalité des sujets parlants et leur degré de civilisation, de l’autre, les résistances qui proviennent du système de la langue; les résistances qui résultent des formes fixées entravent l’action des faits de civilisation qui agissent sur la mentalité des sujets parlants et peuvent aller jusqu’à entraîner la langue en un sens contraire à celui où elle irait normalement. On y voit et la réalité de cette action des faits de civilisation et, d’autre part, la puissance du matériel linguistique existant. [7] Si le genre est une catégorie tellement différenciée d'une langue à l'autre, tant sur le plan des besoins d'accord que sur celui des traits spécifiques qui en organisent la sélection, une première question s'impose, la question relative à sa fonction. À quoi servent les genres dans une langue? Et surtout comment les genres linguistiques sont-ils liés à notre perception et expérience de la réalité? [...] Son organisation influence le système symbolique et cognitif des sujets parlants, puisque les genres tendent à être vécus comme des catégories naturelles auxquelles ramener l'expérience de la réalité. Mais jusqu'à quel point les genres sont-ils « naturellement » motivés et quel est le lien qui unit les catégories de la langue à celles de l'expérience ?

 
 
 

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