Lady Macbeth

Atualizado: 18 de jan. de 2022
LADY MACBETH
Anotações sobre o que não se apaga ou o impossível apagamento
Jane Silveira
O que Lady Macbeth, personagem da penúltima das chamadas “quatro grandes” tragédias escritas por William Shakespeare, Macbeth, pode nos fazer pensar sobre o feminino?
Além da leitura e do estudo da obra, essa questão surgiu do impacto que teve sobre mim o filme “Trono manchado de sangue”, dirigido por Akira Kurosawa, em que esse situa a tragédia shakespeariana ocorrida na Escócia para o Período Senguro japonês. Ao fazê-lo, o cineasta japonês, operando a passagem da linguagem ocidental para a linguagem oriental, instaura um outro como efeito de linguagem.
É o que se deixa a ver logo nas primeiras cenas do filme, na tomada do bosque sombrio das Teias de Aranha, em que, encarnando uma aparência entre um ser humano e um espírito maligno, uma mulher canta dizeres enigmáticos e prediz o destino ao mesmo tempo que tece um fio numa roca.
Pode-se pensar que, ao trazer a figura dessa mulher que faz profecias sobre o destino, a exemplo das três bruxas shakespearianas que proferem o destino de Macbeth, Kurosawa faz alusão ao mito grego As Moiras. No mito grego as Moiras são três irmãs, Fiandeira, Distributriz e Inflexível que permitem aos mortais habitar o campo do bem e do mal. Na mitologia romana são conhecidas como As Parcas, mulheres que tecem e cortam o fio da vida designadas também, na língua inglesa, de “fates”, daí destino, sorte, fatalidade.
Em uma de suas conferências na universidade americana de Yale, Lacan afirma que “fatalidade” - fatum - deriva de fari, falar. É preciso dizer também que se em latim essa palavra significava “destino”, na forma de particípio de fari, seu sentido literal é “falado”. Assim, o destino está articulado a um dizer, ou ainda, o destino de um sujeito nasce do dizer no campo do Outro.
No início da tragédia, o destino de Macbeth é profetizado pelas bruxas: “- Salve Macbeth, aquele que no futuro será Rei.” Arrebatado pelos dizeres das bruxas, Macbeth é tomado pelo desejo de possuir a coroa, exibindo seu desejo em forma de fantasma:
"Os temores do presente são menores que as horríveis figuras da imaginação. Meu pensamento, este que em si acolhe um assassínio não mais que fantasioso, sacode de tal maneira o reino da minha condição humana e única, que toda ação fica asfixiada em conjunturas, e nada mais existe, a não ser o que não existe". (Macbeth, Ato I, cena III)
Se são as bruxas que profetizam o destino de Macbeth e, com isso, estabelecem um dizer que implica a morte do rei, no entanto, é sua mulher, Lady Macbeth, inicialmente corajosa e destemida, quem incita Macbeth a passar ao ato, isto é, a assassinar o rei. Ao ler a carta enviada por Macbeth, prova de fidelidade, em que esse narra o encontro com as bruxas, Lady Macbeth encarna o que nas bruxas é saudação profética e fixação do desejo e toma com frieza, determinação e ousadia o que em Macbeth é excitação e vacilo em relação ao ato.
O vacilo que Macbeth demonstra em relação ao assassinato do rei não encontra apoio em Lady Macbeth, que rechaça as dúvidas do marido e o interroga quanto a sua masculinidade. Lady Macbeth é irredutível à suplência fálica que dirige a Macbeth, quer ser rainha, mais ainda, a rainha do rei. Para tanto, o instiga e o desafia:
"Tens medo de ser na própria ação e no valor o mesmo que és em teu desejo? Queres ter aquilo que, por tua estimativa, é o adorno da vida e, no apreço que tens de ti mesmo, levas a vida como um covarde, não é assim? Deixas que o teu “Não me atrevo” fique adiando tua ação até que o teu “Eu quero” aconteça por milagre; como a gata, coitadinha, que queria comer o peixe mas não queria molhar a pata". (Lady Macbeth, Ato I, cena VII)
O mais ainda, se assim pode-se dizer, que se mostra em Lady Macbeth encontra afinidade literária com Medéia, heroína de Eurípides, já que ambas abrem a mão da maternidade. Medéia, como se sabe, mata os próprios filhos, uma vez que esses perdem a função que tinham, isto é, não correspondem mais à suplência fálica dirigida a Jasão, pai de seus filhos, depois que ele a abandona para esposar a filha de Creonte, rei de Corinto. Tanto Lady Macbeth como Medéia - a qual Lacan elege como a verdadeira mulher - abrem uma outra via para a feminilidade já que situam o desejo feminino para além da maternidade.
Lady Macbeth se mostra capaz, se fosse necessário, de sacrificar a maternidade não como um repudio à ideia de ser a mãe dos filhos de Macbeth, mas como forma de impelir Macbeth a cometer o assassinato do rei e tornar-se rei e, por conseguinte, torná-la rainha. Lady Macbeth ao receber a carta enviada por Macbeth, em que esse fala da profecia das bruxas, faz do desejo dele o desejo dela, e isso é levado às últimas consequências.
"Já amamentei e sei como é bom amar a criança que me suga o leite. E, no entanto, eu teria lhe arrancado das gengivas dentadas o meu mamilo e, estando aquela criancinha ainda a sorrir para mim, teria lhe rachado a cabeça tivesse eu jurado fazê-lo, como tu juraste fazer o que queres". (Lady Macbeth, Ato I, cena VII)
Macbeth, não sem a corajosa e resoluta participação de Lady Macbeth, executa o crime, fato que confere a ela o lugar de rainha. Lady Macbeth atingiria êxito em relação à suplência fálica que faz a Macbeth se esse, após uma sucessão de crimes, não fosse invadido por seus fantasmas que dominam e o atormentam, fazendo com que se afaste de sua esposa. Lady Macbeth ocupa o lugar de rainha, mas perde sua singularidade na sua relação com Macbeth. É dos fantasmas que Macbeth, corroído pela culpa, se atém e é com eles que dialoga e dirige seus atos, nada mais importa a não ser isso.
Sabe-se que a suplência do homem diz respeito ao objeto a e que a suplência da mulher diz respeito ao falo. O que Lady Macbeth pode nos fazer refletir sobre a suplência feminina?
Quero nesse ponto tomar uma cena do filme de Akira Kurosawa carregada de caráter dramático, em que Lady Macbeth lava as mãos num gesto repetitivo na tentativa de apagar as manchas de sangue que imagina ter nas mãos, porque teme que denunciem o crime cometido por Macbeth. A cena ilustra brilhantemente não só o fato de que há marcas que não se apagam, tal como as que dizem respeito à articulação do que na psicanálise nomeamos de fantasma, como o grau de entrega de Lady Macbeth à realização do desejo de Macbeth.
Lady Macbeth se entrega de todos os modos possíveis para que o homem dela se torne rei. Poder-se-ia dizer que, ao participar e direcionar o assassinato do rei cometido por Macbeth, ela o coloca no lugar de rei. Lady Macbeth sabe que seu marido tem vigor, já que ele participara de batalhas sangrentas para defender o rei, mas é frágil na questão moral, daí animá-lo em seu desejo.
Diferentemente da entrega de um homem que é regulada em relação ao falo e, por tanto, à angústia de castração, a entrega de uma mulher se dá em relação ao não-toda e, por isso, ao transfinito, ao não enumerável, ao incomensurável. Ao apoiar-se no falo para ir além do falo, a entrega amorosa de uma mulher por um homem não tem medida, o que pode fazer da suplência fálica uma tentativa de se fazer toda. A partir dessa entrega, no ato sexual a mulher dá mais do que o seu corpo, ela dá o seu desejo.
Cabe aqui lembrar de Romeu e Julieta, tragédia escrita por Shakespeare, em particular o ato II/cena II, em que Julieta suplica a Romeu que abra a mão do nome do seu pai e a tome toda. Saber racionalmente sobre as questões que trago nesse texto não livra o feminino dessa entrega. Como então fazer limite a isso, isto é, dar um ponto de limite ao desejo de fazer da suplência fálica um complemento? Uma forma é a análise.



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