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EDITORIAL SOBRE O FEMINISMO (PARTE II)

Foto do escritor: DESIGUALblog
DESIGUALblog
23 de ago. de 2021
5 min de leitura

Atualizado: 11 de mar. de 2022


Campinas, 23 de agosto de 2021


Prezada Barbara,


Você me deixou com uma pergunta: “porque você é contra o feminismo?”. Ela me causou muito impacto, pois percebi que a palavra “contra” me sugeriu uma rejeição ou aversão. Sou contra e radicalmente contra o nosso governo mas não é nesse sentido que sou contra o feminismo. Eu sou contra o feminismo no sentido de contra-corrente. Me vejo nadando na direção contrária. Mas minha opinião sobre o feminismo, diferentemente da minha opinião sobre o governo, não pretende mudar a cabeça de ninguém. O feminismo não precisa de mim.


Apesar de tudo isso, quis fazer junto com você e com quem mais se interessasse, um editorial com o propósito de assumir posições e interrogações em relação ao feminismo. Você mesma deu início ao debate me colocando contra a parede com uma pergunta. O feminismo não me incomoda, o que me incomoda sempre é a falta de lugar para uma conversa entre desiguais, longe dos grupos dos frequentáveis e das turmas com as quais nos identificamos. Quero falar e debater com aqueles que pensam, logo, que pensam diferente de mim.


Eu não me identifico com a palavra feminista basicamente porque não aceito essa separação de territórios. As questões que o feminismo trata não são questões que afetam as mulheres apenas. A legalização do aborto é uma dessas questões fundamentais para as mulheres, para as crianças e para os homens, quaisquer que sejam as posições que cada um ocupe no jogo civilizatório. As crianças humanas precisam ser desejadas para viverem uma vida digna portanto a legalidade do aborto é um assunto sobre o qual cada um terá que se posicionar, com exceção das crianças que não podem ser responsabilizadas por seus atos. Também não aceito, nesse caso, sair às ruas para dar as mãos para as outras mulheres e me juntar a elas numa grande multidão solitária. Nós mulheres, mais uma vez segurando a onda sozinhas?


Como todo psicanalista, para mim o discurso vale menos pelos seus ditos que pelos seus efeitos. Do único lugar que eu ocupo nesse front que é o de psicanalista, penso que dizer/ditar a questão do aborto e da violência contra a mulher como uma questão feminista tem um efeito avesso ao desejado, favorecendo a preguiça masculina. Enquanto esbravejamos, cheias de razão, os homens podem ficar mais tempo jogando vídeo-game em casa. Muitos estão inclusive pedindo para que o matriarcado comece já, pois nós mulheres cuidaremos melhor do planeta do que eles. Como diria minha avó, era só o que nos faltava!


A condição das mulheres no mundo é um assunto seríssimo e eu teria milhares de coisas para dizer sobre isso mas nesse momento prefiro pensar essa problemática a partir de um evento histórico fundamental que, a meu ver, desencadeou mudanças radicais e possivelmente irreversíveis nas relações entre os sexos (quaisquer que sejam o nome deles). Não acredito que estaríamos falando do patriarcalismo e do machismo como estamos falando hoje senão houvesse acontecido, há alguns anos a exposição do acobertamento da pedofilia na Igreja Católica. Hoje temos um Papa simpático e sorridente, que todos nós gostamos mas temos que lembrar que ele só está lá porque a coisa estava ficou muito feia. A Igreja Católica nunca será a mesma, com Francisco ou sem. O mais paradoxal é que se tenha sabido desde sempre que a Igreja era o reduto privilegiado dos perversos. Se quiserem, leiam o livro de Elizabeth Roudinesco, sobre a história dos perversos. Ele nos mostra que essa história já estava bem documentada para ser novidade. Mas o fato é que foi desta vez que o rei ficou nu.


A exposição nua e crua da pedofilia associada não apenas à Igreja Católica mas também a outros grupos de grande poder, como políticos e produtores de Hollywood, deixou uma coisa muito clara. Ou seja, que se os perversos escolhem pertencer a grupos de poder é porque, devido a própria estrutura do poder, não serão denunciados. Como podemos viver sabendo que o perverso é sempre acobertado? Acobertado não apenas por seus cumplices mas também pelos “bons” que não querem pagar o preço que seus princípios políticos ou éticos exigiriam?


Parece que desde Freud, a psicanálise só fala da queda do Pai. Não sei se essa é a nova versão da queda do pai imaginário, mas sei que tem um caráter traumático, violento. E real, isto é, não podendo ser diferente do que é. Crianças e adolescentes nos dizem todos os dias na clínica que o isolamento é a melhor maneira de se proteger do outro, sentido como potencial abusador. Seria selvageria lhes negar o direito a esta verdade. Além disso, nós adultos também estamos traumatizados e não sabemos até quando nos manteremos sãos usando a paranóia como método.


Me pergunto, muitas vezes, se o feminismo atual, tão diferente daquele que eu te contei que visitei com a minha mãe em Edinburgo nos anos 70 e que tinha ares de libertação, não é uma resposta fóbica à exposição ao público dos segredos dos poderosos, das manipulações sofridas e de ter sido a nossa inocência que permitiu o gozo maldito. Se for o caso, está valendo pois – na ausência de uma contra-resposta eficaz que ainda não surgiu – o distanciamento fóbico pode servir para alguma coisa. Mas não estou segura de que podemos aplicar o conceito de mecanismo fóbico a algo tão complexo quanto o feminismo ou os feminismos. Depois do instante de ver, estamos todos, globalmente vivendo num interminável tempo para compreender? Onde estará o elemento que apressa a conclusão de que só se sai da prisão com os outros e nunca sozinho?


Finalmente queria explicar o contra-corrente da minha posição. Nesse momento, minha causa política está longe de ser a condição das mulheres porque, a meu ver, o passo mais decisivo já aconteceu, a verdade foi exposta e somos todos responsáveis hoje por fazer ou não parte desse jogo. Existem multidões que estão fazendo de tudo para ignorar e cobrir o sol com a peneira, fingindo que não veem nos olhos do seu líder o vazio daquele olhar. E somos nós mulheres que teremos mais uma vez que abrir a boca para gritar? Ficarei fora dessa, acredito que as multidões permanecerão no seu sonho hipnótico por muito tempo e só acordarão quando a coisa piorar. Não existe diálogo com um fanático. Hoje a minha causa é a criança e o jovem adolescente. Considero os homens e as mulheres como responsáveis pelos seus atos. Se nós estamos alienados ao grande outro, a crianças e o jovem adolescente estão ainda mais, eles não podem colocar seu outro contra a parede.

Um grande abraço! Aguardo ansiosa pela sua posição e já te deixo também com uma pergunta: quando você descobriu que você era feminista?


Maria Teresa






 
 
 

3 comentários


rmisailidis
rmisailidis
25 de ago. de 2021

Bom dia, meninas! Parabéns pelo editorial, poucas vezes li textos tão interessantes sobre o tema do feminismo e muito menos um espaço aberto e acolhedor para se falar de assuntos tão polêmicos. As questões levantadas por vocês tem me levado a pensar porque sendo eu a favor da justiça e da igualdade de direitos nunca senti necessidade de me juntar ao movimento feminista. Como psicanalista nunca entendí que pudesse existir um gênero do mal e sei também que nem toda feminista acha que os homens sempre são os feios, sujos e malvados. Sou da década de 60 e compartilho a opinião de que hoje estamos todos no mesmo barco, para não dizer outra coisa!...deixei o meu pais por causa da…

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mirian.musiirian
24 de ago. de 2021

Eu fiquei pensando aqui comigo em algumas coisas quando li esse seu texto, pensei, por exemplo, no “dizer/ditar”.

Esse par faz vários jogos semânticos que inflam o texto com uma série de questões que, claro, são as minhas.

Dizerhereditário

Des-editar

Desditar

Desedição

Dita-dura

Pois é, pra mim ele foi bastante provocativo no sentido de que não existe a palavra certa. Até parece um jargão psicanalítico isso de dizer que não existe a palavra certa. Só que na prática ( ando pensando muita na prática), também não existe a errada. O que existe são os d-efeitos dela.

pra mim o que importa mesmo é que você escreve, você se atreve a registrar e a sustentar as suas palavras, mesmo que ela…

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Rita Nicioli Cerioni
Rita Nicioli Cerioni
24 de ago. de 2021

Li im-pactada. Porque me defino feminista. Mas essa reflexão desarranjou positivamente um lugar que a palavra feminista tinha arranjado. Neurônios nadando agora na contra mão tentando se encontrar. Continue a nadar!

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