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EDITORIAL SOBRE O FEMINISMO (PARTE III)

Foto do escritor: DESIGUALblog
DESIGUALblog
10 de set. de 2021
5 min de leitura

Atualizado: 11 de mar. de 2022



Querida Maria Teresa,



Demorei a escrever uma resposta, pois estava ocupada com uma quantidade imensa de coisas as quais estão muito mais no campo da obrigatoriedade do que do prazer na minha vida e ocupar-se com isso é: gastar tempo. Muito tempo. Às vezes a gente consegue juntar nesse mundo: obrigação+prazer, às vezes a coisa fica só no campo da tarefa e do dever mesmo, aí a vida perde um pouco do gosto.


Mas tirando esse desabafo inicial, gostaria de dizer que fiquei muito surpresa com aquilo que você me apresentou como sendo suas “motivações” pra não se considerar uma feminista. Talvez eu esteja tão rodeada de discursos psicanalíticos enfadonhos que adoram meter o pau no feminismo, nas discussões sobre o racismo, nas questões de gênero – que em maioria só servem pra manter o status quo (ou como você traduziu: os perversos no poder), que eu tenha suposto que você iria por um rumo de falar do feminismo e sua relação com a histeria e assim meter o pau. Mas suas motivações são muito mais da preocupação de uma clínica: aquela que escuta os efeitos de um discurso na cultura, do que motivações de quem é do contra ou de quem gosta de enfiar o pau (independente da anatomia) numa discussão sem sequer sonhar do que se trata o assunto. E quero muito falar um pouco disso com você agora.


Primeira coisa: o seu “sou contra o feminismo” desestabilizou na carta anterior a ponto de você dizer: “sou contra e radicalmente contra esse governo” e acho que podemos começar por aí. Dar nome aos bois: ser contra é algo muito forte em termos de gasto de energia, de usos da raiva[1], por isso precisamos escolher nossos inimigos a dedo porque para ser inimigo há que se ter a dignidade de sustentar a morte dele, caso vocês estejam no combate. Um inimigo, alguém que sou contra pra mim é isso: aquele ou aquela em que num encontro combativo eu seja capaz de deixar morrer ou fazer morrer, o resto é outra coisa. Já fiquei muitos anos da minha vida entrando em briga com os amigos, com aqueles que apostam numa civilização muito parecida com a que eu almejo (mesmo que sejam por rumos muito distintos daqueles que aposto) e quando o “verdadeiro inimigo” estava a espreita, meu corpo já não aguentava um combate – acho isso sério e acho isso grave.


Agora há uma coisa que me chama atenção no seu “contra corrente” que tenho pensado muito ultimamente. Já sabemos que desde que Freud criou esse negócio chamado psicanálise, ele sempre nos alertava em relação ao caráter “marginal” “subversivo” “contra-corrente” desse discurso, tem inclusive um texto dele que eu adoro ler com meus alunos chamado “Perspectivas futuras da psicanálise” em que ele vai dizer de forma muito contundente pra não esperarmos palmas do campo social em relação ao nosso discurso, usando o exemplo de um fragmento neurótico (alguém que adora emprestar dinheiro pros outros e fazer caridade) pra afirmar: nem aqui nem na China haverá preparação pra escutar de um analista que esse empréstimo e essa caridade não são realizados por motivações inconscientes “sublimes”, assim, o que temos pra contar sobre o humano não é da ordem do agradabilíssimo. Lacan chega a dizer que a psicanálise é um sintoma no campo social e brigou enquanto pode pra desfazer qualquer relação da psicanálise com o adaptacionismo, por aí, parece que fica “sussa” batermos no peito que somos contra corrente. Contudo, me diga uma coisa Maria Teresa: em quais momentos é decisivo o analista se recolher da sua posição de “Exceção” e dizer: sou mais um, como vocês, por isso, seguro em mãos de uma multidão solitária, pra que a gente possa brecar, tratar, frear toda essa perversidade acobertada que não se cansa de produzir esses efeitos danosos na civilização (barbárie)? Por que rapidamente qualquer possibilidade de fazeção de grupo já vira uma fobia coletiva nos analistas em relação ao ‘medo supremo de virar massa’? É quase a mesma escolha defensiva de um paciente que resolve não se relacionar amorosamente porque sabe de antemão que pra isso, ele há de se tornar um pouco ridículo, como se estando solteirão ele tivesse escapado de toda sua miséria.


Você tocou num tema estrondoso que é o tema do aborto, quantas vezes Maria Teresa é necessário que nós enquanto mulheres possamos pegar na mão uma da outra e irmos pra porta do hospital aonde um grupo de evangélicos e derivados insistem em impedir o aborto de uma criança que foi abusada pelo seu pai, seu primo, seu tio? Sou muito honesta contigo: seremos apenas um braço a mais nessa cena, um braço a mais completamente necessário para que essa criança possa ter um mínimo de reparação em relação ao que não se repara do que foi feito com essa garota: abuso, violência, aniquilação de qualquer dimensão desejante dessa criança.


Admiro muito que a sua causa tenha se tornado as crianças e os adolescentes, eu não atendo crianças na minha clínica, mas sempre achei os analistas de crianças e adolescentes os melhores escutadores, não sei muito bem explicar o porquê. Inclusive mesmo estudando temas aparentemente muito distintos os analistas de crianças, autistas, enveredados com as manifestações de neurose e psicose infantil sempre foram meus melhores interlocutores. E isso também é um assunto do feminismo. Você menciona o seu incômodo em relação a separação de territórios ou sobre os efeitos que essa separação causa, mas os feminismos (com todas as diferenças que as correntes preconizam na suas pautas) sempre se atentaram para o fato de que o discurso feminista não se trata de um assunto apenas de mulheres, mesmo sendo elas as principais interessadas. Fazendo uma comparação perigosa: o racismo, por exemplo é um assunto que deveria ser de todos, a criação do próprio conceito de raça (que veio do italiano razza e do latim ratio), primeiramente utilizado no campo da zoologia para classificar animais e vegetais é uma criação que foi sendo utilizada com o objetivo de explorar, estuprar, espoliar, subjugar pessoas, atribuindo quais raças seriam “supostamente inferiores” e quais seriam “supostamente superiores”. Contudo, mesmo sendo um assunto de todos, aqueles que não conseguem se distrair (nem que se esforce muito para) a se haver com o tema do racismo são os negros, simplesmente porque se ele correr na rua, corre o risco de levar um tiro (sendo criança ou não, estando com uniforme da escola ou não). Em relação ao feminismo, digo exatamente o mesmo: é um assunto de todos, como você bem colocou, mas quem (mesmo querendo) não pode se distrair do feminismo: as mulheres. Porque independente da posição sexuada que essa está (os psicanalistas adoram por exemplo jogar a pegadinha: mas quem disse que toda mulher é uma mulher?), se uma mulher, anatomicamente mulher estiver na rua é na bunda, no queixo, no pé, no braço dela que um homem vai gozar sem pedir permissão. É com esse corpo.


Sem dúvida a separação de territórios é sempre produtora de um efeito segregador, mas parece que ainda estamos muito longe civilizadamente falando para poder nos livrarmos da necessidade de afirmamos algo como “eu sou isso”.


Estou muito cansada hoje Maria Teresa, alguns acontecimentos da vida e continuar testemunhando o discurso bolsonarista em ação colocando sua perversidade na pólis a torto e a direta, sem qualquer ponto de basta, especificamente essa semana tem me deixado exausta. Mas a parte que eu mais gostei da sua carta eu vou deixar pra escrever depois: a questão da preguiça masculina e o risco das mulheres poderem produzir, a partir do feminismo, o efeito contrário daquilo que elas defendem. Você tocou num ponto fundamental, cirúrgico, que eu deixo pro próximo papo.


Feliz com as nossas trocas,

Um abraço,


Bárbara Cristina




[1] Ver texto: Usos da Raiva de Audre Lorde;


 
 
 

2 comentários


DESIGUALblog
DESIGUALblog
17 de set. de 2021

Maria Teresa e Barbara Cristina,


Obrigada e parabéns pela troca de cartas tendo como tema o feminismo. Foi muito bom acompanhar a leitura pq me fez pensar em algumas questões.

Nesse sentido, quero falar do "meu feminismo" do dia-a-dia, que passa pela experiência da clínica, das leituras, dos filmes, dos cursos, seminários, dos encontros e desencontros, enfim da vida vivida.

Não sou uma feminista, penso que não posso me atribuir esse nome pq não me inseri (ir para rua) em nenhuma luta das quais as feministas se ocupam, mas isso não anula o fato de eu reconhecer a importância desse movimento contra o que se convencionou chamar de "machismo".

Se fosse para me engajar em um discurso escolheria algo como…


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ljsbaldini
14 de set. de 2021

Queridas Maria Teresa e Bárbara Cristina: Obrigado pela troca dessas cartas públicas: faz muita falta aos analistas falar em público - não falar ao público - que é outra coisa e tem um quê de maestria, mas simplesmente falar em público: de viva voz. Escrevo por dois motivos: primeiro, por um lapso de leitura meu ao ler a postagem no Instagram: eu li "edital" em vez de "editorial". E edital é uma coisa mais convidativa, é um chamamento, edital de pesquisa, edital de teatro, edital de música, é um convite. Julguei que eu me chamava pra dançar por aqui. E a segunda razão é o fato de que se é verdade que as cartas sempre chegam a seu destino, eu dou…


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