EDITORIAL SOBRE O FEMINISMO (PARTE I)

Atualizado: 11 de mar. de 2022

Campinas, junho 2021 (como se 2019 tivesse terminado!)
Prezada Bárbara Cristina,
Espero que você esteja bem e imagino que sim pois sigo seus posts e tenho te visto sorridente. Talvez as coisas que você ama estejam perto de você então não esteja sendo necessário enviar cartas a elas. Se for este o caso, que inveja! De todo modo, estragarei seu momento de paz te enviando mais uma carta e desta vez com um convite que eu espero ser irrecusável. Você topa falar sobre feminismo?
Eu confesso que não sei direito o que é “feminismo” mas sou contra. Não contra “O” feminismo porque ele, como “A Mulher”, não existe. Mas existem palavras, frases, parágrafos, textos, discursos que se dizem feministas e, em relação à essas instâncias linguajeiras, me encontro sempre “do contra”. Não é uma posição de princípio. Na verdade, eu teria tudo para ser uma feminista. Quando eu tinha 11 anos estava morando em Edinburgo, onde minha mãe levou seus três filhos para viver com um bolsa de doutorado em linguística. Fomos muito felizes lá, estudando na escola pública e morando numa casa de pedra, onde eu e minha irmã dormíamos no sótão. Nessa época o feminismo fazia um barulho grande. Uma vez minha mãe me levou a uma manifestação do “Women’s Lib”, como era chamado, em que as mulheres tomavam o microfone para falarem livremente e muitas testemunhavam o modo como, na sua história, haviam sido tratadas como “mulheres”, isto é, assujeitadas. Não me pareceram nem um pouco loucas mas corajosas. Minha mãe tinha também um livro que denunciava com fotos e material jornalístico as condições que as mulheres encontravam para viver nesse mundo. Nesse livro eu vi pela primeira vez, algumas imagens de revistas pornográficas masculinas da época em que mulheres exibiam de forma grotesca (pelo menos para a minha cabeça de menina de 11 anos) seus seios, nádegas e vaginas. Conclui que havia algo extremamente humilhante naquela exposição de órgãos e pensei que um homem também se incomodaria. E continuo acreditando nisso.
No entanto, o fato é que não sou feminista e esta não é uma questão de princípios mas sim uma constatação. Quando me deparo com uma fala ou texto que se diz feminista imediatamente descubro que sou contra. Já descobri o porquê disso, na verdade, ou melhor, os muitos porquês, mas gostaria de escrever e colocar em palavra escrita estas questões e pensei imediatamente em você como interlocutora. Eu não recusaria ser julgada e aceito inclusive o cancelamento pelo povo em geral pois duvido que ele mudaria algo da minha rotina no meu front de batalha, mas se for para ser ouvida gostaria que fosse por alguém em cuja palavra eu confio. Depois que você foi capaz de deplorar publicamente minha admiração pelo Rogério Skylab tive certeza que poderia apostar minhas fichas em você.
Além disso, tenho certeza que você sabe o que é feminismo, pelo menos o que é o feminismo para você e, se você topar a minha proposta, eu aprenderei algo sobre isso também, já que o Instagram, o Facebook e os livros que estão à venda na Amazon.com não desfrutam da mesma confiança que tenho em você, uma mulher que escreve cartas para pessoas, verdadeiras ou fictícias.
Minha proposta é de escrevermos um Editorial para o desigualblog.com, como aqueles que existem tradicionalmente nos jornais, onde uma opinião sobre um tema atual é dividida entre dois, um que se diz contra e outro que se diz a favor. Assim como no jornal, o objetivo não é apenas o duelo de argumentos ou construção de posições mas também a abertura da conversa com os leitores que podem e devem meter sua colher nesse pote. Essa ideia me agrada muito pois o objetivo do blog é dar voz a quem se dispõe a escutar, estabelecer um espaço democrático onde a única regra é o respeito absoluto ao direito à escrita. Não é um “diga o que quiser” mas “escreva o que puder assinar em baixo”. Cada um assina em nome próprio e não tenta obrigar o/s outro/s a engolir/em uma verdade que não seja a sua/deles. Nesse 2019-que-nunca-termina, o maior inimigo das mulheres, dos homens e das crianças, continua sendo esse fanatismo religioso, científico, político e midiático que quer nos fazer acreditar que alguma autoridade ainda sabe o que está fazendo nesse planeta.
Eu desde já agradeço sua resposta, seja ela qual for. Se sim, vamos ao trabalho! Se não, ainda peço que pense com carinho mais uma vez. Não se deve perder a oportunidade de Dizer.
Abraço!
Maria Teresa
Querida Maria Teresa,
Recebi o seu convite com entusiasmo e “tremeção nas bases”[1]. Eu estava pertinho de terminar a leitura do texto de uma feminista chamada Audre Lorde quando vi seu convite e farei questão de contar algo dessa mulher pra você.
Fico muito feliz pelos motivos aos quais você me escolhe como uma das suas interlocutoras, por mais que eu tenha descoberto as “duras penas” que a gente é escolhido pelo outro por motivos que geralmente não tem nada a ver com a gente (ou que tem a ver com a gente mas a gente não tem ideia disso), ser escolhida como interlocutora por você pelo motivo do respeito e da confiança são coisas que me entusiasma muito. Afinal, em tempos de cancelamento – fascismo – modo de usar, chamar pra conversar sobre feminismo, sendo contra (tudo que emerge desse discurso) não me parece qualquer coisa. Já que você deve imaginar/ saber: eu me tornei uma mulher feminista.
Fico muito curiosa pra saber dos motivos dessa sua constatação e já adianto: não sou uma “estudiosa na veia” do feminismo, nem uma “militante na veia” (a não ser quando o contexto me exige, como por exemplo me meter em alguma porta de hospital caso estejam proibindo uma criança estuprada de abortar), até gostaria que essas e outras pessoas (as da veia) pudessem entrar no nosso debate, caso elas consigam estar um pouco “ateias viáveis” no papo porque é isso que eu vou tentar fazer: ser uma atéia viável. O feminismo passa a fazer parte do meu campo das paixões, quando me aproximo das feministas negras e dos movimentos aí envolvidos, aí é que a coisa enganchou pra mim. Digo paixões, porque quando escuto você, ouço que o feminismo também pode perpassar por uma das suas paixões – só que no campo ao contrário (não do amor – mas da irritação), é selvageria minha, ou não?
Dito isso, vamos ao trabalho. Por que você é contra o feminismo?
Assinarei em nome próprio e não direi o que eu quiser.
Sempre um prazer conversar contigo.
Abraços,
Bárbara Cristina
[1]Expressão que uma tia usava, em momentos que notava que eu tinha acabado de topar um convite e expressava um pouco de medo por não saber onde isso ia dar, ela dizia: barbinha, tá tremendo nas bases aí né?




Esse tema promete e aguardo com muita expectativa!!
Abraços e bom fim de semana,
Maria del Rosario