DO QUE FALA A FALA DA CRIANÇA?

Nada me parece melhor para introduzir a questão da diferença sexual na fala de crianças, do que a relação insólita que Humpty Dumpty mantém com as palavras, e a qual exibe no diálogo que trava com Alice, no livro Aventuras de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll:
“Quando eu uso uma palavra” disse Humpty Dumpty num tom bastante desdenhoso, “ela significa exatamente o que quero que signifique: nem mais nem menos.”
“A questão é”, disse Alice, “se pode fazer as palavras significarem tantas coisas diferentes.”
“A questão”, disse Humpty Dumpty, “é quem vai mandar só isto” (...) sei manobrar o bando todo!
(Aventuras de Alice no País das Maravilhas, Capítulo 6, Ed. Zahar)
Nesse ponto, trago um episódio de fala de criança:

Se Humpty Dumpty, personagem de Lewis Carroll, faz a língua trabalhar para ele, isto é, intervém na língua como um meio de barrar o conflito posto pela significação, tomando as palavras como um dique capaz de conter a invasão da água do mar ou do rio, as crianças diante do conflito da questão da diferença sexual parecem fazer a língua se dobrar em consonância com a pergunta que se impõe a elas: o que ser um homem o que é ser uma mulher?
O que a fala da criança nos mostra é que se graças ao caráter visível do pênis é possível distinguir imediatamente os dois sexos, a diferença sexual em si mesma é muda. Só temos acesso à diferença sexual graças à linguagem e, por isso mesmo, falamos indefinidamente sobre o que é um homem, o que é uma mulher.
JSilveira



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