DIA DAS MÃES

Era dia das mães e ela estava na rua.
Vagava sem deixar a cabeça nas nuvens, pois poderia atravessar a esquina e ter sua peruca loira ablacionada por uma dama da noite de unhas afiadas.
Travesti não é bagunça, ouvia de alguma voz escandalosa e nasalada toda a noite.
Mais, dans le soir, na calçada, era tudo zona.
Discussões, brigas e carros a todo vapor com felação ao volante.
Ela pensava na mãe, mesmo quando fazia uma chupeta. Ou até mesmo porque fazia uma chupeta.
Como estar na frente dela e ser olhada como seu exato oposto? Não numa rivalidade meramente familiar, mas histórica.
Maria e Maria Madalena.
Esperava presentes ao escurecer, não dos reis magos, mas dos seus clientes pouco sensíveis e abonados.
A falta de tato deles era muito melhor que a destreza da mãe em vilipendiá-la.
Rememorava dos contos bíblicos que o perdão era sempre recomendado, porém pouco frequente.
Sua mãe nem era tão devota assim.
Acabou a noite com dois jovenzinhos que juntaram a mesada para passar seus pintos melados nela.
Recebeu tudo em moedas de 1 real. Não se chateou, tinha uma bolsinha pra isso. Feita de retalhos, roubara de sua progenitora. Sempre a traz para a sua vida.
Nem que seja muda. Assim não atrapalha o movimento.
Os garotinhos gozaram rápido e foram embora. Tinham que voltar para o jantar.
Ela aproveitou e foi comer algo, passou por uma igrejinha e todos estavam louvando Maria.
Lembrou-se que quando pequena confundia as Marias. Sua mãe a corrigia odiosamente.
Maria e Maria Madalena.
A puta e a mãe. Ou o contrário. Não sabia ao certo.
C. Lopes



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