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CIÚMES

Foto do escritor: DESIGUALblog
DESIGUALblog
31 de dez. de 2020
8 min de leitura

Reza a lenda que um autêntico jardineiro encanta suas plantas usando a melodia de sua voz entoando harmonias para florescerem. Tobias Carvalho nunca tinha conversado com as flores do jardim da frente da sua casa. Ele gastava fortunas em fertilizantes para manter as astromélias, as begônias, os lírios, as orquídeas, os miosótis, as margaridas e as rosas desabrochando cada um no seu tempo, na sua estação. Mas era a esposa, Ivone, quem realmente sujava as mãos, agachando todo dia para arrancar as ervas daninhas que ameaçavam a saúde das plantas, era Ivone que regava e se dedicava com carinho e esmero em cada muda, e a Tobias cabia apenas se vangloriar das "suas meninas". Os vizinhos invejavam toda a exuberância da vegetação sem conseguir disfarçar as fofocas. Tobias ouvia o burburinho e pouco importava se diziam que ele não tinha as manhas de falar a língua das plantas. Mas, afinal, qual era o problema de não prosear? Elas se manifestavam ficando belas para ele. E isso bastava. Também nunca tinha prestado a atenção no chamado da natureza até que num fatídico domingo de verão, um botão-de-ouro soprou pra ele:

- Você é um tolo.

Ele fitou a flor como que perguntando: oi?

E ela repetiu:

- Tobias de tolo... Você é um tolo!

- ... E um corno, acusaram as margaridas com suas pétalas esvoaçantes.

- Para de se iludir, disseram-lhe as begônias. E tão alto que ele até se virou.

De repente a desonesta visão de ordem no jardim se desfez e o sussurro o espantou.

Não que ele tivesse a intenção de "verificar" se aquela manifestação tinha sido verdadeira, mas achou melhor dar de ombros pra aquilo, primeiro por que um domingo sempre abre brechas para coisas não corriqueiras do nada aconterecerem, e segundo, se realmente suas mudas tivessem falado, ele nunca poderia imaginar que elas, que sempre tratou tão bem, pudessem conspirar contra sua pessoa.

Ivone provavelmente ainda estava dormindo e não havia ainda por que causar alarde sobre delírios de flores falantes. Então Tobias, riu da alucinação e foi cuidar de outros afazeres. Em sua cabeça, aliás, ele estava desenhnado um outro projeto bem concreto. Estava firmemente convencido que era hora de investir em uma nova casa. Talvez ir para um lugar maior para o casal se movimentar e desembuchar. Na louca, deu entrada num imóvel em condomínio em Mairiporã acreditando que agradaria Ivone. A nova casa traria incertezas, mas para ele o fundamental era a decisão de ampliar os horizontes. O chalé, bem no alto da Serra da Cantareira, tinha uma vista deslumbrante. Tirava a vida de ambos do centro da velha e conturbada São Paulo e os conduzia pro meio do mato. Era como se tivessem se despedindo das antigas queixas contra o barulho, a criminalidade e os engarrafamentos.

Na frente da casa, chave na mão, Tobias Carvalho enumerava as vantagens de subir a serra enquanto Ivone mantinha a cabeça baixa e os olhos vagos.

- Se tá bom pra você, então vamos logo, disse. Estava linda e convicta, e seria reconfortante se naquele momento terminassem num abraço.

Tobias molhou o lábio com a ponta da língua na ânsia que acontecesse. Esperou. O amasso ficou só na imaginação.

Patético! Logo ele, um representante de vendas que se julgava um expert na arte de negociar. Logo ele que se gabava de conhecer a psicologia e os macetes para ter o cliente na palma da mão! De cliente e comércio, entendia. Admirado como representante de uma marca de calçados, desbravara todo o vale do Paraíba. Na firma era funcionário-modelo. Mas ali com a esposa, não conseguia fazer a criatura aceitar uma simples chave.

Suspeitou que talvez as flores não tivessem erradas e Ivone o estivesse enganando. Ele começava a pressentir... Um dia veio a comprovação: ela balbuciou um nome. Falou dormindo no meio da madrugada. Como ele também estava tonto de sono, deu um desconto: podia ser um engasgo. Podia, só que um engasgo não se dividia em três sílabas. Ouviu atentamente e tentou encaixar os três sons. A combinação, sem dúvida, era familiar, mas ele não anotou e dormiu.

No dia seguinte, Tobias não lembrava o nome do desgraçado. Que medida podia tomar? Inquirir? Forçá-la a falar? Se ao menos Ivone repetisse... Tomava cuidado. As chances dela debochar dele, rir da síndrome de corno... Tinha que disfarçar. Imaginar que se acontecia algo, não ia até o fim. Não era do feitio de Ivone. Se tinha algum caso, devia ser um lance encenado, planejado como revide, para abalar a estima do marido. Por isso tinha que se conter, manter o ar superior e... Que dificuldade sentia!

Existem perguntas cujas respostas não queremos saber. Quando cresceu, Tobias nunca quis procurar o pai porque não queria fitar seu rosto e ver como seria fácil abandoná-lo. Sabia também que depois que o velho os abandonou, a mãe teve muitos namorados, mas Tobias nunca perguntava a respeito, porque não queria imaginá-la deitada com um estranho, beijando-o com o mesmo carinho que o beijava.

Tobias sabia algumas coisas a respeito da verdade. Em muitos casos era só uma questão de decidir se queria enfrentá-la ou viver no conforto da ignorância. E a ignorância, a mentira em geral são subestimadas. A maioria das pessoas que Tobias cenhecia não poderia passar um dia sequer sem sua ração diária de enganações.

Mas aquela ignorância, ah! Do fundo de seus pesadelos, galopava o suposto amante como um horror bíblico! Perdia o sono imaginando o que Ivone fazia durante o dia e por onde a distinta andava. A cisma latejava.

Três sílabas...

Desconfiou que talvez fosse Marcelo. Marcelão era o amigo das cervejadas. Toda sexta se encontravam. Dadas as características, podia ser. Crioulo vivaço, cheiroso e de olhos verdes. Dez anos mais novo que Tobias, alinhado, músculos bem distribuídos, o peito parecendo travesseiro acolchoado. As casadinhas se coçavam para sair com ele. Tobias divertia-se com a malandragem do amigo, mas, desconfiando, administrava a admiração; o galinha destruía reputações, desfazia lares. Na descontração, entre um copo e outro, discorria sobre a arte da cobiça. Se a mulher dos outros o excitava? Sim, mas nestas horas, a cautela importava. E ele era sensato: “Não fico onde não me querem”. Já mulher de amigo, bom... mulher de amigo não era mulher, era patroa - Batia o copo da mesa - ... e patroa a gente obedece e nem olha.

Na casa de Tobias nem descia para dar alô. Buzinava, esperava no carro. Respeitava. Depois, reiterava pro amigo que a graça da conquistatem lugar: o boteco. Tobias acreditava nos princípios do nego.

Transferiu a suspeita pro médico da família, o doutor Nivaldo. O doutor Nivaldo Medeiros excedia nos tiques afeminados, o que em princípio, tranqüilizava Tobias Carvalho, mas o danado era cheio de mimos com Ivone e tinha acabado de separar da mulher. Subia pro cafezinho e ficava. Ficava... Considerou também o Péricles o vizinho que Ivone insistia em chamar de pedaço de mau caminho. Pra ele, parecia um tipão meio bobo, mas a ênfase que Ivonefalava "pedaço-de-mau-caminho" enervava.

Antes fosse o Marcelão. Esse pelo menos era amigo. Já o vizinho... Fosse para traí-lo, Tobias imaginava que Ivone seria mais ambiciosa e buscaria um empreendimento superior. Começou a intuir que a matemática podia ser mais ampla. Em vez de um, Ivone podia ter dois amantes: o Doutor e o vizinho. Safada!

E o ciúme se alastrou na mente do infeliz, rabiscando e apagando o nome dos suspeitos. Rabiscando e apagando. Não fazia mais nada. Não gostava de mais nada. Nem os passeios no jardim, que se orgulhava, fazia mais. Aliás, estava com raiva das plantas. Fofoqueiras e mal agradecidas! Sua vida agora era um inferno de cismas e preencheu semanas, meses encafifando... Até que uma noite, do meio da respiração do sono, Ivone juntou as três sílabas de novo com uma espécie de nostalgia: “Toninho!”

Na hora Tobias vibrou. O desejo foi atendido. Mas depois veio a palpitação. Teve que tomar o remédio da pressão. Não lembrava de ninguém próximo com esse nome. Tentou absorver a verdade. Depois se odiou. Ter a curiosidade satisfeita era cruel. Mais terrível ainda o papel que fazia incluindo a mulher em planos como o imóvel de Mairiporã, que de repente, perdia completamente o sentido.

Do nada gritou:

- Cadela maldita, quem é esse Toninho?

Ivone despertou assustada.

Ele cravou os olhos e metralhou de novo.

Ela empalideceu. Em seguida, soltou uma risada boba, o que o deixou fulo.

Esperava que ela se entregasse.

Qualquer coisa que ela dissesse servia. Qualquer... acontece que Ivone não sabia como reagir. Ria, mas seu desespero era maior que o do marido, porque não via outra alternativa senão rosnar: “Que cê tem com isso!”

De fato, Tobias tinha virado justamente o que havia lutado para não ser. E se sentia horrível, como se não tivesse mais importância na vida da mulher. Foi acometido por uma súbita tonteira, bateu às pálpebras. Veio o medo de apagar. No impulso se expôs e agora não podia voltar atrás.

A voz interior dizia que o certo era prosseguir sem dar colher de chá. Sem bancar o frouxo. Estava tentando. Estava, e precisava mudar o tom:

- Tá, se você não quer, eu devolvo!

Ivone:

- Devolver o que?

TobiasCarvalho, desconcertado, pensando em uma coisa e falando em outra:

- A casa em Mairiporã!

- Ah, a casa? Lógico!

Tobias mais desiludido:

- Dou um jeito!

- Como? Você já deu o sinal.

- Olha, eu entendo, você está chateada de abandonar as coisas que gosta.

Ela mais que depressa:

- Num tenho o que abandonar, tenho?

Tinha sim. Construíra a vida naquele apartamento e havia um universo de amizade conquistado ao longo dos anos. Sentiria saudades de cuidar de suas plantas no jardim, dos passeios matutinos pela praça Buenos Aires, do brioche quentinho da Benjamin Abrahão, das conversas bem humoradas com Valdete, a manicure desbocada, das escapadas com Liza e Wilma, as amigas de farra da vizinhança. Da paquera com o Toninho, sim o misterioso Toninho.

Embora não fosse bonito, o Toninho possuía uma refinada sensibilidade para apreciar as coisas e paixão para dividi-las. Vez por outra se esbarravam na livraria da Vila. Ela tomando café, debruçada em livros de política e sociologia, ele relendo Ligia Fagundes e Clarice. Como o Toninho abominava o sistema federal, Ivone se empenhava em mostrar o que ela, como diretora de uma ONG, conseguia transitando num ambiente ardiloso. O trânsito das Organizações Sociais com a política era cheia de meandros delicados, mas ela na prática acreditava estar quebrando entraves e mantendo seus projetos, na medida do possível, viáveis.

Daí, quando a conversa engatava, partiam para outras searas. Confrontando a realidade com a desilusão romântica falavam de Graciliano Ramos, Lima Barreto (o predileto do Toninho) e de Woody Allen (o diretor favorito dela). Se o assunto eram os dilemas da educação recorriam aos ensaios de Tobias Freire, ou a poesia de Cecília Meirelles, e continuavam falando sem parar, a um passo da entrega.

E como se divertiam com a hipótese! Imaginavam a loucura que seria; rasgando as roupas, tropeçando nas calças, perdendo o sentido da realidade, e o ritmo dos hábitos cotidianos. E então, quando as suposições chegavam próximas do gozo, Toninho esfriava: ele que se achava velho (Ivone não compartilhava a opinião) temia o torcicolo e as câimbras das posições. Temia também pelo castigado coração. Talvez fosse melhor ser comedido, evitando pagar mico e estragar a grande afeição que nutriam um pelo outro.

Pois bem. Ivone pensava na importância insubstituível que tinha cada ser e cada coisa naquelas últimas décadas. E agora cogitava o porquê devia abdicar de sua rotina, para viver num lugar que não tinha seu dedo, seu gosto.

Uma mulher esclarecida jamais seria tomada por esse tipo de indecisão. Não podia. Nem devia. Ainda assim ora seu pensamento era a favor do marido, ora contra. E ela sentia raiva da sua falta de ousadia. Estava longe de se ver como uma bonequinha condicionada pela hipocrisia do falso amor burguês. Da rendição a velha ordem patriarcal. Mas havia outra razão de foro íntimo para não abandonar Tobias. Aquela criatura de certa forma lhe pertencia inteira, até onde fosse dado possuir a alma de alguém. E fazia tantos anos... não podia soltá-lo assim.

Egoísmo de sua parte? Com certeza, mas que satisfação trazia!E o ciúmes que ele sentia então? Era quase doentio, mas era maravilhosa a sensação. De vez em quando ela sentia-se mal, um ser humano terrível, aninhando o rancor nas entranhas.

E nestas horas tomava um anti-ácido pra aliviar. E resolvia. Aliás, agora mesmo o estômago estava pedindo um. Só faltava o copo d’água.

Atravessou a rua para comprar a garrafa no bar da esquina.


Hamilton Rosa Jr.

cineasta, escritor, professor de cinema e curador de Mostras


 
 
 

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