CARTAS A UMA DESCONHECIDA (EM CONTINUAÇÃO à "CARTA À MARIELLE FRANCO")


Bom dia Maria Teresa,
Agradeço pela admiração que o meu sintoma te provoca. Sintoma, sim. Palavra doente, mas que ainda serve pra alguma coisa. Sintoma = colocar o Outro na parede. Esse foi o modo que escolhi amar. Só uma estranha escuta a gente. Você é uma estranha, pra mim. Mas sei que se interessa muito pelo Amor. Pelo Amor em letra maiúscula. Topei a escrita da carta, pois ando preferindo escrever para estranhos, nenhuma carta para pessoas próximas anda dando mais de 8 linhas, não sei o que está acontecendo. Ouvi na sua carta um resquício de revolta, fico feliz, fico contente que esteja revoltada, mas me diga: Você está revoltada?
Se está, está com quê. Com o crime que a gente enquanto humanidade não para de cometer? Com a estupidez? Ou com as costas que continua a carregar as coisas nela, nela mesma? Ou com a impossibilidade de inventarmos nome próprios e precisarmos tanto aplaudirmos “novas” Marielles, se é que é possível dizer isso, “Novas Marielles”? Você faz questão de lembrar que isso é uma deselegância com o nome próprio. Maria, se é que me permite chamá-la assim, eu tenho más notícias, que talvez não sejam más notícias pra você, por você já saber dessas más notícias, mas são más notícias pra mim. Exige uma coragem muito grande para que possamos nos servir de Marielle para fazemos cada um de nós, o nosso nome próprio. Friso: servir-se de Marielle, nada tem a ver com trata-la de modo fetichizante. Faço questão de esclarecer, pois anda sendo difícil conversar na pólis, a gente, com uma frase, rapidamente se torna o “fascista de alguém”, isso é um saco, mesmo sendo um fato que anda aumentando a quantidade de fascitinhas por aí. Mas servir-se de Marielle nada tem a ver com imitação. E a gente imita imita imita imita porque é um jeito que a gente arruma de lidar com a saudade, com o desespero e com a falta de invenção. Mas eu gostaria de voltar na sua revolta.
A revolta, Maria, nos serve pra quê? Pra algum tipo de insubordinação...Pra afirmar uma não submissão? Pra lembrar nossos pares que a estupidez é mais familiar que a gente imagina? Eu sempre ouço você, lembrando os pares da nossa miserabilidade estrutural, isso é um pouco da sua revolta Maria? Lembrar os pares que somos miseráveis e temos que fazer algo com isso, algo urgente? Eu ando pouco revoltada. Eu andava com a sensação que minha revolta era só catarse rodeada de boas palavras, aí algo da revolta se interrompeu em mim. Eu fiz questão de chamar, repetidas vezes Marielle de Marielle Franco, pois os nomes, os nomes Maria estão sofrendo um processo de liquidificação, aonde só sobra restos do abacaxi, depois que você coa. Sabe aqueles restos do abacaxi depois que você coa? É tipos os nomes. São mais de 266 mil mortes de pessoas com COVID nesse país chamado Brasil, quais são os nomes? Quem é que teria a petulância de decorar todos esses nomes? Fernanda Mambreu. Tem um memorial, um memorial circulando por aí e eu vi que Fernanda Mambreu morreu no mês de março, quem de nós vai lembrar de Fernanda Mambreu? A sua família? A dor quando é uma dor familiarista, nunca será uma dor universal. Eu gostaria Maria, que algumas dores passassem a dignidade de ser universal, pra você qual é a dor universal que um brasileiro pode compartilhar com o outro? Ou no mínimo uma dor comum, já que a palavra universal também não se pode estar falando dela assim por aí.
Faço questão de voltar na revolta. E faço questão de me meter numa admiração sua. Porque é assim que passo a me enlaçar com as pessoas: me metendo na vida delas. Vi que você admira Skylab, sem dúvida, ler os posts daquele homem, no meio desse horror todo produz alívios. Há pitadas de genialidade ali, mas ainda, sim, algo me irrita. Me irrita hoje, qualquer revoltado que não entrou em desespero. Esses dias, num contexto clínico, diante de uma paciente que constatou elegantemente desde o início que estávamos perdidos e que por esses e vários outros motivos ela não consegue frear o processo depressivo que ela estava se metendo quando o clarão da política brasileira começou a cegar seus olhos, ao retornar a luta , a moça diz que a versão que esperavam dela, não existia mais, ela não sabia por onde começar a “organizar” as coisas, ofício esse em que ela era expert nos movimentos sociais que penetrava. A moça estava me dizendo, que estava em desespero e a única intervenção ali que passou pela minha cabeça, era que ela tinha agora outra coisa pra oferecer na luta que ela estava: o seu próprio desespero. O efeito da intervenção: é óbvio que eu não sei. Um analista está sempre atrasado ou adiantado demais, quem nos dera se fosse privilégio de apenas Melanie Klein socar palavra no outro. Skylab, Maria, fala do alto das montanhas. Fala na posição de um sábio. Fala como se a debilidade mental estivesse ao lado de fora, na arrogância daquele que observa. O revoltado Maria é um arrogante? O revoltado sem rebelião é um arrogante? Um observador? Alguém que está fritando? O desesperado é aquele que descobriu que a debilidade mental pode custar a própria vida. (uso essa palavra, porque é expertise do débil insistir em não aprender alguma coisa com a repetição das coisas, mesmo que isso custe muito muito caro pra ele). Tenho certeza que você sabe do que estou falando, porque você adora Dolto e deve ter simpatias por Manonni. O desesperado, mesmo que de um jeito distante da sensatez é aquele que parou de se afastar do buraco. Não é desse “desespero televisivo” que estou falando – desse, aonde alguém filma alguém gritando chorando e esmurrando, isso não é desespero, isso é gritaria. Você concorda Maria? Queria muito que pudéssemos conversar sobre o desespero.
Espero ansiosa sua resposta.
Tô de bode do Skylab.
Abraços,
Bárbara Cristina
Prezada Bárbara Cristina,
Primeiro quero te dizer que sua carta me trouxe algumas alegrias que eu não esperava mais. Não esperava que alguém - uma estranha como você disse - me permitisse meter a colher no seu sintoma e que, depois ainda, se permitisse cutucar o meu, pois você falou da minha revolta como um resquício e também me perguntou do desespero. Tudo isso não sem a agressividade da franqueza mas sem a violência da ofensa porque a franqueza eleva o objeto à dignidade da coisa, ou seja, é ética. Eu penso assim, amo a franqueza apesar de todo mal que ela já me causou e que já causei a ela. A alegria para mim é poder dizer e por isso participo desse blog, para aprender a dizer e me arriscar a ser ouvida sem proteção.
A verdade é que fazer o outro ouvir foi o desejo fracassado da minha vida. Um fracasso retumbante que meus três analistas não conseguiram evitar. Você escolheu amar colocando o outro contra a parede. Como te disse, admiro! Acredito que é o único modo que vale a pena amar. Mas nunca pensei – em toda minha vida – que os meus outros tivessem ouvidos para ouvir logo não os coloquei na parede e, para piorar a situação, escolhi amar a parede. Por isso talvez tenha me tornado psicanalista, já que a psicanálise é uma parede. Lacan diria muro, mas nesse caso não faria diferença, pois me interessa aqui apenas o fato de que se pode escrever neles.
De qualquer modo, só vim a descobrir tudo isso depois de muito tempo, tempo demais, um tempo que eu gostaria que tivesse me custado menos. A sorte é que não estou em busca do tempo perdido. Se você tem bode do Skylab, não imagina o bode que eu tenho do Proust. Demorou mas finalmente descobri que para uma mulher se fazer ouvir é preciso que ela escreva. E assine em baixo. Escrever é falar sem a proteção do “querer dizer”. O desigualblog se resume, para mim, a uma fábrica de garrafinhas para colocar mensagens de S.O.S e jogar no mar. E você ainda duvida do meu desespero. Nada me apavora mais que estar só em uma ilha, apenas eu e meu grande Outro. O inferno são os outros, mas o paraíso é bem pior.
Como você me deu a alegria da resposta, enviando-me suas perguntas tentarei continuar e dizer algo. Isto é, escrever. Você me pergunta se eu estou revoltada e com o quê? Te digo que, do alto dos meus cinquenta e nove anos, tenho mais arrependimentos que revolta. Arrependo-me irremediavelmente de ter acreditado que as coisas faziam sentido. Acho justo me sentir culpada porque ninguém me impôs o sentido, foi eu mesma que o desejei.
Você me perguntou para quê serve a revolta mas acredito que você já tem a resposta porque em seguida você diz que se irrita com qualquer revoltado que não entrou em desespero. Estou de acordo, a revolta e o desespero devem servir à alguma causa. Minha causa são as crianças e os adolescentes, aqueles que, do mesmo modo como eu acreditei, acreditam no grande Outro e por isso precisam ser protegidos, isto é escutados, são os potenciais objetos deste. São eles que hoje, apesar de todos os meus arrependimentos, me fazem acordar todos os dias e recomeçar tudo novamente. Talvez seja minha forma de pagar a dívida. A meu ver, a revolta e o desespero servem para que a alegria exista, a alegria de dizer, isto é, de escrever. Acredito que Marielle também tinha como causa a alegria do dizer e não escolheu para si um destino de Antígona. A alegria é o risco que se corre para poder desacreditar do sentido, mas nem todos se arriscam a ela. Minha maior revolta é saber que, mesmo assim, é do Sentido que todos vamos morrer, já que a vida nunca será páreo suficiente para o Sentido no que se refere ao animal humano.
Ainda topando a franqueza, digo-lhe que fiquei triste de você ter um bode com o Skylab. Eu tenho aquilo que Freud chamou de “complexo de masculinidade”, isto é, na encruzilhada edípica virei à esquerda, na identificação com o pai, em seguida com os meninos e depois com os homens. Identifico-me particularmente com os meninos mal-criados, intragáveis como o Rogério Skylab. Os homens que se recusam ao bom-mocismo. Quando eu compartilhei o Skylab no facebook eu estava, de certo modo, querendo ser ele. O que não o torna menos irritante, já sei disso!
Quero te mandar um grande abraço e desejar que possamos continuar a ser ainda estranhas uma para a outra, capazes de suportar as arestas do desconhecimento e os arranhões da franqueza.
Maria Teresa
08/04/2021




Amei esse diálogo!
A correspondência de vocês nomeia tantas coisas aqui... "E a gente imita imita imita imita porque é um jeito que a gente arruma de lidar com a saudade, com o desespero e com a falta de invenção"; de repente, um clarão. Quem sabe uma clareira para me colocar a escrever também. Ando precisada.
Bom dia, Barbara! queria dizer que adorei a correspondência entre estranhas/desiguais. Se de fato a vida não faz sentido e o único sentido é o que damos a ela, vocês apontam para um: o diálogo aberto e irrestrito onde tudo pode ser dito com franqueza e sem ofensa. Quer "rémedio" melhor para a revolta e os arrependimentos do que poder dizer ou escrever? ....Teresa, o blog de hoje me fez lembrar as palavras do nosso querido Oswaldo Di Loreto: "da analise o que importa não são as verdades que descobrimos mas as mentiras que nos contamos"...Curtí demais a leitura!!
Maria Teresa e Barbara Cristina, aqui esteve um leitor admirado e inspirado pela franqueza possível entre estranhas. Ler vocês me causa vontades de dizer mais. Um abraço! L.P.