CARTA à MARIELLE FRANCO

O bom das cartas é que um parágrafo basta.
(Carta 1)
21/12/2020.
Seu nome afina as cordas de minh'harpa
Maria Firmina dos Reis.
Trago notícias daqui. Mas antes acho justo começar essa carta com a pior das honestidades que podemos começar uma carta: “Se você não tivesse morrido, eu não teria te conhecido”. Eu só te conheci porque você levou um tiro. A notícia do tiro que passou na minha tela e que se repete dias e dias com a frase colocada pelos meus colegas: Quem mandou matar Marielle. Vou deixar sem interrogação, porque o ponto, o ponto mesmo de interrogação só vale quando a gente está fazendo uma pergunta que ainda não se tem a resposta. O ponto, o ponto de interrogação é o ponto mais sincero de todos os outros pontos. Por exemplo, o de exclamação, você, acredita que ele tem a honestidade do ponto de interrogação? Eu não, então, quem mandou matar Marielle. Tem uma responsabilidade que é minha. Não a do tiro, mas de ter te conhecido apenas com o tiro, ela é minha. O fato de eu ter conhecido Maria Beatriz do Nascimento apenas em 2020 também é minha responsabilidade. O fato de eu nunca ter lido Úrsula também é minha responsabilidade você não acha? Antonieta de Barros, também. Toni Morrisson também. Eu poderia citar várias, várias desconhecidas que passaram a ser parte da minha vida, depois de mortas. Marielle, é impossível me dirigir a você em qualquer tempo verbal que não seja o presente. Mas acho respeitoso lançar mão do passado, para não sucumbir a qualquer resquício de negacionismo. Você está viva, mas também não está. Marielle, trago notícias daqui e elas não são muito boas. Se você quiser eu posso florear, mas duvido que você queira. Porque floreando a gente consegue trazer notícias boas de qualquer lugar. Sempre dá pra dizer: tenho boas notícias. Tem gente que faz isso com sem vergonhice na cara, tem gente que faz é pelo desespero mesmo, aí até que tudo bem, sabe. É que o desespero é um troço que asfixia, então aí até que tudo bem. Por falar em desespero, é bom cravar a data: 14 de março de 2018. Você foi assassinada no dia em que piscianos estavam nascendo. Você morria, piscianos nasciam. Você foi assassinada no dia em que Stephen William Hawking morreu. Ele morreu, você foi assassinada. Deixar morrer, fazer morrer, morrer, vamos diferenciar essas sutilezas da morte. Ou da matança, que não tem sutileza nenhuma. Você, foi assassinada. No dia 14 de março de 2018, mandaram um cupom de páscoa de RS800,00 para as pessoas clicarem e ganharem chocolate. Ninguém ganhou, mas o cupom circulou no mesmo dia. No dia 14 de março de 2018 Joaquim se atrasou pra natação e chegou às 17:20h, a professora olhou pra Joaquim e disse: “de novo, Joaquim”. No dia 14 de março de 2018 Katy Perry antes de fazer um show em Porto Alegre resolveu visitar as Cataratas do Iguaçu e nesse mesmo dia Marielle, 14 de março de 2018, Agatha Arnaus Reis ficou viúva de Anderson Gomes. Mônica Benício também foi elevada ao estatuto de viúva. Viúva. Viuvez. A viuvez deve ser um troço em que a perda não se concilia nunca, porque não foi o outro que escolheu te abandonar. Quando o outro escolhe nos deixar, algo se concilia: você foi deixado querido, bola pra frente. E segue a bola, no máximo dá uma melancolia, que também é uma forma justa de conciliação. E quando o outro não decidiu te deixar e você é deixado, como fazer bola pra frente? Você concilia o que com quê. Uma vez Marielle, fui dar uma aula para os alunos de uma escola que me pediram pra falar da “morte”. A diretora da escola, logo no primeiro Oi, disse: Querida, aqui está o livro que você vai trabalhar com as crianças: “A viúva e o papagaio”. É um conto da Virginia Wolf. Os meninos adoraram a parte do conto aonde a Sra. Gage descobre que sua herança é um papagaio. Adoraram também a palavra viúva e me contaram de um filme de uma super-heroína chamada Viúva Negra, a palavra viúva, viúva e viúva circulou tanto até fazer parada quando um garoto levanta a mão e com a boca mais aberta do mundo exclama, sem nenhum mistério: “oh tia, eu sou o papagaio da minha mãe que meu pai deixou depois de levar o tiro”. Os seus colegas riram tanto que não rir daquela confissão parecia uma falta de educação, dei um leve sorriso de canto de boca também, porque ainda detesto ser mal educada. Um dia, me livro dessa besteira. Nunca mais teve oficina da viúva e do papagaio naquela escola. Na próxima turma Marielle, em outra escola, se me chamarem, eu falo da “viúva, do papagaio, da Mônica ou da Agatha”? A sua morte, a munição pertencente ao lote, a pistola de 9 milímetros ou a submetralhadora alemã são coisas sem nenhuma quota de mistério. A vida passa a chamar outra coisa, quando acaba sua quota de mistério, você não concorda? Concorda comigo Marielle, concorda comigo. Marielle, trago notícias daqui e elas não são muito boas. Esse garoto, que se identificou com o papagaio não foi o único garoto-papagaio deixado para as mães cuidarem nos últimos dias. Há vários outros e há várias mães-papagaio também. Algumas delas inclusive fizeram multidão no seu velório. O seu velório tinha tanta, mas tanta gente que dava até vergonha de aceitar que aquilo era um velório. Com tanta gente daquele jeito, podíamos falar que era seu aniversário, sua data de casamento, você no carnaval, mas era seu velório. Marielle, os pretos e as pretas continuam tendo que implorar pra existir. Chegou um vírus aqui nessa dimensão vulgo coronavírus e mais do que nunca, ou talvez, mais do que sempre, os pretos e as pretas continuam tendo que implorar pra existir. É porque o vírus, como você bem sabe é um tanto democrático, mas também não é. Como você bem sabe. Você, como ninguém sabe do componente fajuto que compõe a palavra democracia. Existem várias palavras aqui circulando que compõem um traço fajuto. Por exemplo, quando eu falo que só dá pra usar sujeito, sem predicado, porque sujeito é sujeito, eu acho fajuto, aí faço questão de gritar: Preto. Predicado, preto! Há quem diga que toda palavra é fajuta, porque por si só é defeituosa. Eu discordo Marielle, eu discordo. Marielle é um nome, não tem nada de fajuto. O tiro também não é palavra fajuta. E a saudade, há alguém que acredite que a saudade é palavra fajuta? Por falar em SARSCOV-2, ás terças-feiras, há aqueles que estão tomando um banho de piscina antes da aula de musculação comprada pelo aplicativo. Esses falam da importância do isolamento pra proteger o próximo. Há aquelas que estão relendo toda a sua biblioteca em casa, riscando com caneta rosa as páginas preferidas do livro do Proust. Esses citam “Em busca do tempo perdido” para dizer da importância de proteger o próximo. (Uma cafonice Marielle, que você não tem ideia do que um ser humano é capaz de fazer com Proust). E há, aqueles, principalmente, aqueles, aquelas, que estão espremidos dentro de metrôs e ônibus igual a gente espreme o alho quando a gente compra alho na feira e bota ele pra espremer. Marielle, é tanta coisa pra te contar, que por hoje eu vou acabar no alho. Tem uma história boa, que eu deixo pra próxima carta, essa vai tirar um sorriso do seu canto de boca.
Com saudades,
Bárbara Cristina Souza Barbosa



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