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Análise de um caso de violência contra uma mulher

Foto do escritor: DESIGUALblog
DESIGUALblog
25 de jul. de 2021
3 min de leitura



Primeiro ponto: como falar em violência contra as mulheres se é sempre uma mulher que é atacada? Só uma-mulher pode ser atacada e nunca o conjunto de mulheres, já que uma-mulher só é atacada por ser mulher quando ela é única, ou seja, impossível de substituir, coisa que nem a mãe foi para o-menino-homem.


Segundo ponto: um homem somente chegará às vias do ódio quando uma mulher, por ser única e portanto impossível, recobrir – por essa mesma facticidade – a condição que deveria ter sido a de um pai. Isto é, de inter-dizer o império absolutista do super-eu-menino-soberano-falo-de-mãe. Mas quando é Uma-absoluta que interdita, o mal-dito-não desta uma-mulher é um grito mortífero e sem esperança de equivocação. O Não-absoluto e categórico é uma crueldade que a Mãe nunca executaria. Coitada desta senhora que já está desnorteada o suficiente tentando garantir o seu lote na Civilização para se dar ao luxo de um não.


Terceiro ponto: o aumento significativo da violência contra uma-mulher é um índice claro de uma “loucura estrutural”, uma alteração de aspecto maligno que se formou em várias localidades do tecido psíquico: um bloqueio da função materna (que anula a divisão própria ao feminino) e uma depressão da atividade fictícia exercida pelo Um-que-se-diz-masculino no ocultamento da sua dependência primária ao colo materno. Na criança os sintomas são mais evidentes: estão frequentemente assustadas com objetos que começam a funcionar “do nada” como o secador de cabelos da mãe e no parquinho tratam as outras crianças como uma massinha de modelar.


Quarto ponto: O aumento da violência contra uma-mulher é solidário da substituição da ficção necessária ao engodo amoroso pela montagem responsável pelo gozo. Aqui o serviço prestado pela Sciência & Companhia Ilmitada é fundamental: uma prosa de mau-gosto, com personagens que tem nomes de siglas, num enredo enfadonho em que substâncias químicas prometem o poli-amor entre os sistemas neuronais. Além disso, técnicas suplementares de preenchimento fingem garantir que todos podem ter sua protuberância fálica, independente de qual dos três sexos eles pertenceriam: homem, mulher ou não-castrado (criança).


Quinto ponto: Recentemente um caso de violência de um-que-se-diz-Um contra uma-mulher envolvia (na cena gravada pelo sistema big-sister que explodiu no tic-toc) uma menina-bebê cujo corpo foi interceptado magicamente por uma babá. Sabia-se que pai e mãe se atacavam costumeiramente, indignados de terem que desempenhar uma função simbólica, justo aquelas mais pesadas de carregar: o pai e a mãe da menina-bebê. Os psicanalistas brasileiros não poderiam levantar o bum-bum da poltrona e testemunhar que, no Brasil, as crianças ricas são frequentemente salvas da loucura por uma babá?


Sexto ponto: Na mesma semana em que apareceu o vídeo sinistro, uma onda sucessiva de mensagens na internet falavam que “em briga de marido e mulher se mete a colher sim!”. Aqueles que ficaram satisfeitos de se manifestarem assim tão corajosamente contra o vexame da situação dessa uma-mulher se precipitaram como sempre fazem os seres inocentes e as belas almas no Brasil-edição-2021. Se pudessem tirar os olhos do celular para se interrogar por apenas um único minuto saberiam distinguir a calamidade que acontece quando uma criança nasce de um campeonato de sexy-video-game semi-presencial entre dois semi-adultos que não foram desmamados em tempo útil pelos pais daquilo que seria “uma briga de marido e mulher”. Briga de “marido e mulher” é outra coisa. Quem já teve marido ou quem já teve mulher sabe muito bem. Desejar o assassinato do outro não significa que podemos nos dar ao luxo de perdê-lo.


Sétimo e último ponto: A violência cometida por um-que-se-diz-Um contra uma-mulher-que-não-é-senão-a-uma-do-um-que-se-diz-Um será sempre uma tentativa desesperada. Apenas ninguém nunca saberá do quê. Quem a cometeu desistiu do Dizer. A violência é o fracasso de um Dizer-que-não. Por isso não adianta meter a colher e sim a Lei, essa senhora que sempre chega atrasada. Não seria surpreendente, entretanto, se no Brasil-versão-2021, a Justiça resolvesse dar as caras na figura de uma super-nanny-veloz-e-furiosa, cega de ódio e com uma espada no colo já todo petrificado.


Maria Mulher

São Paulo, julho de 2021

Para a Revista Claro-Enigma




 
 
 

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