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Ainda sobre os narcisistas

Foto do escritor: DESIGUALblog
DESIGUALblog
1 de fev. de 2024
7 min de leitura

... (a conversa continua)

 



 

Barbara,

                Assim como a bela açougueira pedia a seu marido que não lhe desse caviar no café da manhã, justo a coisa que ela mais gostava, eu lhe peço para não me trazer perguntas interessantes! Resisto a tudo menos às tentações como bem disse Oscar Wilde. Me agrada saber que escrevendo aqui não respondo apenas a você mas também a possíveis leitores, tão inquietos e insatisfeitos quanto nós. Por isso você verá que em alguns momentos falarei com você mas também através de você com seus outros, com meus outros. Aqueles que estiverem aqui para escutar.


Os eternos insatisfeitos, que na época de Freud eram chamados de histéricos, são bastante intrigantes para os outros porque aparentemente seria um paradoxo não querer o que mais se quer. Por outro lado, não deixa de ser uma sabedoria não destruir o desejo com o saturamento da satisfação. Depende do ponto de vista, ou melhor, de escuta.


O problema para o histérico é que, satisfazendo ou não a vontade de caviar, o desejo continuará caminhando inexoravelmente em direção à Outra Coisa. O desejo se desloca. Talvez por isso a tradução de pulsão em inglês escolheu o termo drive. Mas tenho cada dia mais medo da idealização pós-lacaniana da categoria do Desejo porque, constrangido como ele é pelo gozo e pelo amor, o desejo não move montanhas. Ele apenas desloca o sentido sempre para o lado, isto é, metonimicamente. O desejo avança errando o alvo.


Um bom lacaniano de antigamente poderia dizer que o desejo se diz-loca ou, pior ainda, que ele se diz-louca, fixados como eram na questão do feminino. Hoje não dão um pio sobre isso pois poderiam parecer politicamente incorretos. Não os culpo, o cancelamento em praça pública hoje deixa o Coliseu no chinelo. De qualquer modo, as experimentações com as letras não foram vãs mas, depois de todas as reviravoltas dialéticas e políticas dos últimos anos, também prefiro dizer outra coisa já que é estruturalmente impossível não dizer nada.


Digo que para transmitir a psicanálise hoje é preciso simplificar as coisas e tentar fugir dos vocabulários circulares e circulantes, caso contrário seremos a startup menos rentável de todo business-world. Tentando simplificar as coisas ao máximo, eu diria que o necessário entendimento sobre o desejo para funcionar como psicanalista é ter compreendido – na própria pele e por sua própria elaboração - o que o desejo não se desloca entre objetos como pareceria à primeira vista. O que exige tempo, isto é, voltas no tempo. Lógico, dirão vocês. De acordo, respondo.


O que o neurótico chama de objeto do desejo consiste geralmente numa imagem congelada e enquadrada em madeira de lei. Essa contribuição de Lacan para mim é das mais plena de consequências clínicas: a fantasia sustenta a realidade oferecendo o enquadramento. O enquadre “constrange” a imagem a se fixar e se alinhar aos investimentos do eu. O desejo, ao contrário, se desloca no discurso e quando desloca não é o objeto que muda mas o enquadramento da realidade. Mudamos de discurso. Muda tudo: cenário, atores, script. O escândalo é que essa passagem seja imediata, a cena anterior será apagada e se reeditará como inédita em outro momento de virada.

 

O lado terminável da análise é que, depois de tantas reviravoltas e tantas experiências, chegamos a algo melhor. Melhor porque mais simples: ficamos menos desconfortáveis com o nosso discurso de origem. No meu caso, já sei que a histeria não foi a pior coisa que poderia ter me acontecido. É certo que dá muito trabalho porque os outros querem (assim como queria o marido da bela açougueira) nos satisfazer com aquilo que eles têm para dar. Do nosso lado, temos que fazê-los entender que não é isso que precisamos sem feri-los mortalmente. Entre mortos e feridos, nem todos se salvam.


De fato, nunca conheci um histérico que aprendeu a dizer não. No lugar desse não, o histérico somatiza, fica doente para poder faltar à cena. À cena que muito ativamente ele mesmo montou para capturar o desejo inconsciente e recusado do seu outro. Na montagem/contagem histérica o desejo do Outro está inscrito antes, é o ponta pé inicial que dá início ao jogo ou possivelmente à guerra. A vantagem é que uma histeria bem analisada pode deixar de condenar superegoicamente o recurso da encenação. Não vale a pena recusar o que veio de graça como sobredeterminação. Lacan disse savoir-y-faire. Como brasileira prefiro: fazer-com-o-que-tem.  Ou melhor, com o-que-te-deram. Não é tão sonoro, mas fica mais próximo da nossa língua-mãe.

 

Acredito que psicanálise se mantém viva hoje, apesar de tudo, porque a neurose é um complexo arquitetônico tão fascinante que acaba interessando e convidando o sujeito a se contar. Com sua grande dotação intelectual e capacidade de trabalho, talvez Freud pudesse ter tido mais sucesso e segurança financeira seguindo sua carreira promissora de neurólogo, mas foi deslocado do seu destino trombando com a histeria e assim teve que inventar a psicanálise. Segundo a interpretação que Lacan fez do famoso sonho de Irma, o próprio Freud se sentira culpado por um ato tão transgressor.


O inconsciente foi de fato uma bomba atirada na civilização, acrescentou-lhe o mal estar que só um pedaço vivo de saber-a-mais pode produzir. Descobrir sua própria histeria foi, inclusive, o primeiro passo do percurso freudiano, sem o qual nada teria acontecido. Considero a honestidade intelectual de Freud um ideal a seguir desde que saibamos que a arma que ele inventou não é inofensiva. A responsabilidade dos psicanalistas é enorme.


É por isso que sua pergunta continua ecoando e me empurrando para o computador, sempre faltando algo ao Dizer. Seria essa a falta que move o histérico? O bom é que a insatisfação histérica com o mundo e com o si-mesmo pode ser produtiva. Desde que levantemos a bunda da cadeira. No meu caso, sentar a bunda na cadeira para falar do ressentimento. Sobre isso temos o livro de Maria Rita Kehl, outra contribuição inestimável na nossa língua-mãe. No caso dos chamados “narcisistas”, o ressentimento também tem um papel fundamental.


Como você já sabe, o termo mãe narcisista não me serve em nada como conceito, mas o testemunho daqueles que usam o termo nas redes sociais merece ser ouvido. É claro que a discussão emperra por que o termo vilaniza o narcisismo e com isso encobre a questão ética, que é a da ação diante do sadismo exercido ao vivo e a cores, em rede global. O dito “narcisista” não é o monstro repulsivo que tortura uma jovem indefesa dentro de uma masmorra, longe dos olhos do mundo, como nosso imaginário gosta de representar o ato perverso. É perpetrado por pessoas bonitas, risonhas e aparentemente inofensivas. Não foi suficiente Hannah Arendt denunciar a banalidade do mal para torná-lo irrepetível.


Dizer que o comportamento sádico em neuróticos seja um comportamento narcisista é permanecer no nível cognitivo mais precário que existe, o plano imaginário, ou seja, do que parece-ser. O uso sádico do outro amado pode parecer à primeira vista obra do narcisismo, ou seja, de um amor prioritário por si mesmo mas alguns anos como psicanalista bastam para descobrirmos que nenhum ser humano ama mais a si mesmo que ao próximo. Nem mesmo o perverso mais bem acabado. Sem o próximo somos privados da nossa própria imagem e a morte psíquica nos ameaça. Narcisismo é Eros, Vida e luta pela sobrevivência.


Como sempre o buraco não é mais embaixo, mas sim um tiquinho de nada ao lado. Zizek chamou de parallax view essa abordagem da verdade. O que o comportamento sádico no neurótico sempre acaba mostrando por seus seguidos deslizamentos são suas raízes num ressentimento embalsamado, calcificado. A “mãe narcisista” é frequentemente alguém severamente fixado a um ressentimento juvenil. Muitos dos teóricos atuais do NPD (narcisistic personality disorder), gostam de dizer que seus “narcisistas” estão fixados a um trauma. Já sepultado. Não discordo mas se no ser humano, como disse Françoise Dolto, tudo é linguagem e tem a dinâmica própria a ela, o trauma não é apenas uma narrativa histórica acabada mas também um argumento e uma poderosa arma.


O problema é que trauma como argumento juvenil (não o encontramos naturalmente em crianças) é uma solução frequentemente irreversível. Se um sujeito ao aceder à idade adulta se explica a si mesmo através do trauma é certo que sua capacidade de amar estará impedida.


A escolha, ainda que inconsciente, dessa defesa exige congelar, no enquadramento da cena do mundo, o Outro ou a Vida como monstruosidade amada e temida e ver-se como objeto/abjeto desse Outro sem o qual não haveria existência simbólica. Como toda defesa psíquica, ela vai até a esquina mas logo volta fracassada no seu intento de controlar a pressão pulsional e as exigências do Eu. A divisão retorna porque a sobrevivência do amor exigiria reconhecer a falta que nos torna pedintes. Tudo menos isso, é a resposta nestes casos. O laço será então impedido pela própria lógica dos argumentos. Impedido, o amor torna-se odiado e odiento. Dessa vez, sem volta.


Se o objeto-abjeto é o filho, a namorada ou o irmão, não importa. São os outros amados, necessários à minha sobrevivência simbólica que serão os alvos privilegiados da minha vingança. Através da dor produzidas neles, farei valer uma verdade frágil, uma certeza estúpida, de ter sido traído pelo Outro e jogado aos leões. O ódio fecha as feridas da vulnerabilidade egóica. A figura, então, não é mais a de um Édipo à procura de si mesmo mas uma Medéia pronta a sacrificar o que for para anular a alteridade radical da existência alheia. Arrombamento dos limites no gozo e no saber, barreira para o pensamento investigativo, curioso. Mortificação do desejo.


O sadismo no neurótico não é uma vontade de causar dor mas a tentativa de transferir o gozo mortífero, parasitário para o outro corpo. Se, como disse Freud, quem não ama adoece, o “narcisista” já é um morto vivo. Lembro de ter lido Contardo Calligaris há tempos longínquos prevendo o boom de produções sobre o apocalipse zumbi. Hoje a figura do morto-vivo não assusta nem as crianças.


Não sei se você concordaria, mas penso que no fundo, a discussão sobre o termo “narcisista” é, mais uma vez, de caráter político. Quando dizemos “narcisistas” a quem estamos servindo? Gosto de dizer que a psicanálise nem sempre é política, só quando ela funciona. O problema é quando o psicanalista não funciona, não há deslocamento de discurso. É aí que a psicanálise vira cartilha, manual ou panfleto e brilha por sua esterilidade.


Por fim, minha cara, quero mesmo é que esta carta te encontre bem e disposta para a luta. Também escrevo por gosto de continuar o papo e aproveitar as inspirações momentâneas que os diálogos vivos oferecem.  Abraço e boa semana!

 

Maria Teresa

           

       



    

 

 

 

 

 

 

 

 
 
 

1 comentário


Convidado:
01 de fev. de 2024

Que incrível discurso!

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