ADORNO CORPO


dedico aos psicanalisantes, são eles que montam, desmontam e remontam a psicanálise para mim de novo e de novo
a menina não nasce feminina
torna-se apenas se
e quando
quis adornar sua falta com um restinho
de pirlinpimpim decaído
de uma criancice materna
d’um sapatinho de cristal quebrado da branca de neve
d’um caco que hipnotizou o espelho iluminado à noite no toilette
mas e agora?
depois teve as migalhas de pão que desfizeram o caminho
porque a feminina passou muita fome no colo da mãe
para fugir d’isso
comerá com o irmão
o pão-que-o-diabo amassou
ou dizer, migalhas
e a feminina não é o feminino
e a feminina nem está na pele em que eu habito
hoje adornar uma nudez não é mais destino
é saber-aqui-fazer
é saber-o-que-dizer
e já é mais que sabido hoje
que toda nudez será premiada
logo antes de castigada
e que é preciso ser Coragem para ter uma mulher
mas nunca não-foi-assim
da mudez da menina
da nudez inerte e do rubor
o olhar materno se compadeceu
do riso se fez o pranto
e o seio que tu me destes era espelho
e se quebrou
que preguiça que deu de ser
da canseira, do estupor
o nojo, o dissabor
que da compaixão materna
o corpo se transitivou
na dor e até a desenhou
n’um arco fibromiálgico
tão teso que quase endireitou
o corpo já todo emprestado
doendo na Dor-dela
depois também na do irmão
e depois do Filho, pois que o nome-do-pai
não seria em vão
que preguiça que dá de ser,
e a feminina ainda quer chamar de Homem
o que é sempre um irmão
amado ou odiado, um irmão
E por fim
Só repetir que
a feminina não é o feminino;
do silêncio que a menina fez
o feminino só disse-que-não
e da feminina há mais ainda o que dizer
e do feminino nada-não
por isso agora o feminino deu para escrever assim:
letra por letra, olho por olho
digitar e publicar
é começar tudo de novo
a fome, o medo e, mais uma vez, o ovo
o destino d’-ís-crê-vê
faz o feminino ficar novo
MT Lemos
Campinas, 26/01/2021



Comentários