A MULHER IDEAL?

Atualizado: 1 de out. de 2021
O termo dizcrita que comparece no texto de apresentação do desigualblog e o qual retomo aqui, evoca a ideia de que o feminino só pode ser coisa escrita com a experiência da escrita de cada um. Assim, é de dizcrita que me sirvo para introduzir e convidar o leitor a desvelar o feminino na escrita do texto “A mulher ideal?”.
De saída o título, que faz referência a um texto escrito para o teatro, lança uma interrogação em torno da existência ou não de uma mulher que corresponderia a um modelo ideal para, no decorrer do texto, ao falar sobre o amor e as relações, pô-lo em xeque.
A des-construção do feminino que se dá a ver na escrita de “A mulher ideal?”, se articula à experiência da autora, Lorena Silva, com questões inerentes à arte de encenar e se engendra na voz e no corpo que empresta a personagens, sendo outra e ela mesma. Ora é Vitória, ora é Geni, de “Toda nudez será castigada”, de Nelson Rodrigues, em Paris. O que da experiência de escrita, do trânsito entre línguas e por personagens femininas, possível a uma atriz, pode dizer da singularidade que habita o feminino? É o que nessa edição o desigualblog convoca o leitor a descobrir.
Montagem de Toute Nudité sera Chatiée, direção de Alain Ollivier. Foto de Brigitte Enguerand.
A MULHER IDEAL?
A Mulher ideal é o título do texto que escrevi junto com Claudio Serra, ator e pesquisador. Nos apresentamos em vários locais e por último num café teatro.
Queria falar sobre o amor, sobre relações.
O texto foi sendo tecido através da oralidade, da memória, da cumplicidade e da confiança.
O desejo de entregar pro outro a elaboração dos afetos.
Várias questões foram surgindo. Como narrar sendo outra eu mesma? Na primeira ou terceira pessoa? Amir Haddad que fez a supervisão disse: “ a melhor maneira de você se distanciar é narrar o texto na primeira pessoa”.
Vitória é a personagem e narradora do texto, começa dizendo que seu pai morreu quando tinha dezesseis anos e imediatamente perde a voz.
“…Sou uma gaivota…Não! Sou uma atriz. É, sim!… Ele não acreditava no meu sonho de ser atriz e pouco a pouco, eu fui deixando de acreditar… Eu não sabia o que fazer com minhas mãos, como usar a minha voz… Uma vez a cada cem anos abro a minha boca pra falar e ninguém me escuta”
(Perde a voz)
Vitória narra que estava fazendo a Nina, personagem do Tchekov, da peça “A Gaivota”. Nina é atriz assim como ela e assim que começa a dizer o texto, perde a voz.
Como atriz sempre me foi um mistério o encontro com as personagens. Tenho por elas e com elas uma relação de curiosidade e entrega. O que elas têm a me dizer, a me ensinar? Em que pele vou habitar?
Vitória narra a reconstrução e desconstrução de sua voz passando por relações amorosas e não amorosas até a possibilidade de ter a sua própria voz no teatro.
Quais são os deslocamentos possíveis para contornar a própria história?
O que dou e recebo de cada personagem? Cada história a ser contada e recontada a cada nova plateia?
Como atriz trabalhei em diversas peças atuando em francês quando por 12 anos morei em Paris.
Atuar numa língua que aprendi adulta, me deu a liberdade na voz, outros gestos e outras sonoridades apareceram.
Quando atuei em Geni de "Toda nudez será castigada” de Nelson Rodrigues em francês, o universo era muito familiar mas a língua era outra, essa outra língua me levou a lugares jamais visitados, uma singularidade de poder reinventar uma outra familiaridade, tão longe e tão perto. Geni, uma prostituta, uma mulher que deseja casar e ser amada. O seu desejo foi meu guia e as relações com os outros atores-personagens foram surgindo desse estranhamento de uma nova dramaturgia pra eles e uma nova língua pra mim. Um terreno estranho e libertador.
A comparação com Geni foi a lembrança de atuar num personagem feminino que me deu muito prazer por ser a língua materna, a rodriguiana e a língua outra, estrangeira, estranha e que se tornou tão natural. Aqui vou pensar nessas duas personagens femininas: Vitória e Geni.
O que essas duas personagens têm em comum pra mim? Talvez só o fato de ter atuado nelas, de serem mulheres que querem ser amadas e que se colocam em relações que as fazem se rever.
O personagem da Vitória narra o momento em que o seu recém namorado Beto diz que ela seria a mulher ideal se fosse loura de olho azul, quando ela tem olhos e cabelos escuros.
[...] “Num dos ensaios, começou uma discussão : “Você tinha que ficar loura pra fazer o papel. Poxa, se passa na Noruega, e todo mundo concordando. Eu fui categórica: “A gente tá no Brasil. Ibsen era norueguês, todas as mulheres lá são louras, uma loura na Noruega vale uma morena no Brasil”. Chegando em casa, Beto diz: “Eu ouvi no ensaio aquela discussão sobre ficar loura. Sabe o que eu pensei quando te vi na primeira vez?: “Essa daí seria a mulher ideal se fosse loura de olho azul”. No dia seguinte eu estava loura de olho azul.
Fiquei seis horas no cabeleireiro, fechei o salão. Tive um ataque de alergia por causa do descolorante. Minha cara toda vermelha. E a assistente de uma das coloristas mais famosas do Rio de Janeiro (que me cobrou uma fortuna), disse baixinho: “Vou te contar um segredo, sabe como acaba com essa alergia? Xixi na cara”: Banheiro-xixi-cara. Não passou a alergia.
Saindo do salão em Ipanema me deparo com uma ótica: saí de lá loura de olho azul. Eu era a Mulher Ideal.”
A questão que vai se repetir será sempre o que faço pela ideia do ideal do outro para ser amada?
Transcrevo aqui o diálogo de “Toda nudez será castigada” depois de Herculano, viúvo ter ido ao bordel e ter encontrado Geni, “ele” se apaixona e diz que quer tirá-la da vida de prostituta.
Herculano- (impulsivamente) - Geni, eu não te disse o principal.
(Geni vira-se apaixonadamente)
Geni (sôfrega) - E você? Você gosta de mim?
(Pausa)
Herculano (vacila) - É o seguinte, o seguinte. Eu te conheço há pouco tempo. Quer dizer, não há entre mim e você, uma certa convivência.
Geni(furiosa) - O que é que não há entre nós se já houve tudo?
Herculano - Não é disso que estou falando, Geni.
Geni - De vez em quando, você tem uns fricotes de bicha!
Herculano (quase explodindo) - Posso falar?
Geni- Você só sabe falar!
Herculano (incisivo) - Olha aqui. Eu não posso gostar de você, gostar mesmo, de verdade - enquanto você não deixar essa vida. Ou você não me entende? Quer largar essa vida, agora, (repete) agora, neste minuto? Você abandona tudo, tudo! Não pode voltar lá nem pra apanhar a roupa. Tem coragem?
Geni (veemente) - E você casa comigo?
Herculano (rápido e veemente) - Você não respondeu!
Geni - Nem você!
Herculano - Eu perguntei primeiro.
Geni (começando a chorar) - Está bem. Não volto mais pra lá. Nunca mais. Não é isso que você quer? Deixo tudo, roupa, deixo.
Herculano - Sapato, tudo!
Geni - Bem e.
Herculano (excitado) - Roupa não interessa. Te dou muito mais. Dinheiro, graças a Deus, não é problema. Você compra um enxoval completo.
Geni (sôfrega e humilde) - E você, casa comigo?
A pergunta da Geni fica suspensa como um desejo, a de desejar a possibilidade de ser amada.
Em “A Mulher Ideal” , a personagem Vitória vai narrando suas histórias e nesse caleidoscópio, fragmentos de sua vida amorosa e na relação com a mãe, a irmã e a filha vai se reconstruindo e recuperando a sua própria voz no teatro.
Em Vitória, além do desejo de ser amada, o desejo da possibilidade de sua singularidade.
E finalizo com um trecho do texto de Vitória em “A Mulher Ideal”.
[...] “Lembro de uma vez, em Paris, quando eu era muito mais jovem, no aeroporto, lembro-me de ver um grupo de mulheres muçulmanas chegando da Arábia Saudita, ainda descendo a escada do avião, começaram a arrancar as burcas, revelando as cores de baixo (rosa choque, amarelo fluorescente, verde limão), coloridíssimas, uma explosão de cor no aeroporto. Era uma vontade de vida, uma vontade de voz, um grito colorido, Eu sou portadora de um útero, eu tenho direito ao meu próprio corpo!
Esse corpo da atriz que tantas vezes se transforma pra habitar na imaginação de outros corpos, outras vidas.
Lorena da Silva é atriz, professora, produtora e co-autora do texto A Mulher Ideal.
"A mulher ideal ?", texto de Lorena da Silva e Cláudio Serra. Foto de Gabi Castro.



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