A MEGERA

Atualizado: 11 de mar. de 2022

Donde vem a figura da megera, sempre tão perigosamente próxima das imagens que rondam o feminino? Seria a megera uma Imago, no sentido empregado por Lacan nos textos que antecederam o “O estádio do espelho”, como “Os complexos familiares” ou “Agressividade em Psicanálise”?
Acredito que o termo Imago seria perfeito, mas a patrulha lacaniana pode dar as caras para dizer que a Imago não é um significante lacaniano e que não deve ser utilizada assim e que não deve ser utilizada assado. Deixemos isso para lá. O importante é não perder de vista a Megera, ela tem algo a nos ensinar.
Embora tudo me levasse a crer, na minha infância que as mulheres eram seres mansos e que nunca fariam mal à ninguém, acabei descobrindo a contragosto que haviam mulheres bastantes más. Mais difícil ainda foi descobrir, assistindo Elizabeth Taylor em “A megera domada” de Shakespeare (Zeffirelli, 1967), que as mulheres podiam agir de uma forma nada razoável e continuarem parecendo belas e fascinantes. Os cabelos negros de Elizabeth Taylor emprestaram à Catarina, uma personagem feita apenas no papel, a imagem de cordas vibrando em uníssono enquanto com suas palavras, escritas por Shakespeare, vociferava contra o pai, os pretendentes e todos aqueles que tivessem a pretensão de fazê-la assinar o contrato do casamento. Aquele contrato em que a mulher é sempre a contratada e nunca a contratante. No final, Catarina é domada por Petruchio, interpretado por Richard Burton, marido de Elizabeth Taylor na época. Que filme!
Se quiserem saber como se doma uma megera aconselho a assistirem o filme ou a lerem a comédia. Mas posso adiantar que não foi nesse filme que Lacan estava pensando quando disse que a verdade tem estrutura de ficção. O fato é que, infelizmente, as verdadeiras megeras não são como Elizabeth Taylor. Seus olhos não são violetas e nem ferozes como os de um lince e, além disso, suas falas não foram escritas por Shakespeare mas provavelmente ouvidas de um Big Brother ou de um coach de relacionamento do youtube. Elas não têm o charme e nem os pretendentes de Catarina. Ainda assim sempre encontrarão alguém para machucar com sua fala ferina e para serem as estraga-prazeres com sua tristeza teimosa e cortante. Acredito mesmo que todas nós fomos e somos, em algum momento, terríveis megeras. As feministas mal-intencionadas, que obviamente são não-todas as feministas, gostam de esquecer o quanto mulheres são violentas e como são capazes que fazer feridas difíceis ou senão impossíveis de curar. Nada disso é, entretanto, uma surpresa para um psicanalista, mas dificilmente eles se pronunciarão sobre isso.
Acredito que a figura da megera é uma figura disponível a todas as mulheres (inclusive as de sexo masculino) porque a posição feminina é tal que a insatisfação feminina pode ser usada como arma. Vou tentar explicar melhor.
Segundo Freud e Lacan, a civilização causa alguns tipos específicos de mal-estar: frustração, privação e castração. Mas ela não o faz sem oferecer algumas compensações. À mulher a civilização oferece um lugar garantido de merecimento que é o ser-mãe. Ao homem, a civilização oferece uma outra compensação que muitos/as podem considerar um privilégio sem no entanto explicar direito o porquê: a posse e o direito sobre o seu instrumento. A civilização garante essa posse desde que ele, o homem, produza - através do uso ordenado do seu instrumento – novos filhos para o trabalho incansável da civilização.
Toda mulher tem diante de si como destino possível o ser-mãe. Queira ela ou não, a civilização lhe oferecerá esse lugar embora, é importante dizer, que ela não a obrigue a isso já que um filho não-desejado seria e será sempre um crime já que o amor materno é a condição mais importante para a produção de novas gerações saudáveis e fortes. O que a civilização exige de todos é dividir o gozo, isto é, o sofrimento e o trabalho, mas não quer dizer que ela garanta uma divisão justa. Como gostava de dizer Freud, o homem é o lobo do homem. E se vocês me permitem mais uma: o homem é o único animal capaz de idiotia. A civilização não é uma operação completamente limpa e eficaz.
O fato é que, aceita ou recusada, a maternidade estabelece uma referência simbólica que comparecerá não apenas como questão para uma mulher em relação a si mesma, mas também como algum tipo de expectativa para os outros dessa mulher. É por isso que, para a Civilização, a satisfação da mulher é um verdadeiro fundamento. A mulher deve estar satisfeita, seja porque ela é uma mãe seja porque é uma fêmea. Em ambos os casos, sua insatisfação colocaria um risco sério para a civilização. Que isso seja da ordem do imaginário não torna seus efeitos menos reais.
A satisfação do homem, ao contrário da satisfação da mulher, é algo perigoso. O homem satisfeito não trabalha, não produz, não se vira para encontrar satisfação e nada o impede de ficar deitado no sofá jogando um game. Não é difícil entender porquê a mulher insatisfeita pode compor a figura aterrorizante da megera, cuja arma maior é expor ao outro, principalmente ao seu outro no amor, o fracasso contínuo e certo de toda tentativa de lhe dar o que ela precisa. Ela não é a histérica que defende sua insatisfação com unhas e dentes mas não a usa para nada. A megera faz da insatisfação um poder que, como todo poder, não pode ser usado em benefício próprio sem deixar de promover o Mal para um outro.
Antigamente a megera era dita uma “mulher mal-amada”, o que a meu ver é um grande preconceito pois, mesmo sendo amada, como frequentemente o é, a megera já sabe mais do que o amor. Do amor, a megera é uma sobrevivente e os sobreviventes sabem mais do que gostariam saber. Pessoalmente, eu prefiro a megera do que a feminista mal-intencionada que mente sem pudor algum, pregando a sororidade entre mulheres, oferecendo às meninas de hoje mais uma bela desculpa para poderem continuar mamando nas tetas das suas mamães.
MT Lemos 05/03/2021




Profunda analise sobre a megera, nunca tinha lido nada igual. Gostei da primeira foto onde se revela uma certa ambiguidade, ora parece a intenção de jogar a cruz na cabeça do marido, ora parece uma espada finca em si mesma...a megera nunca é apunhalada pelas costas