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A JARDINEIRINHA

Foto do escritor: DESIGUALblog
DESIGUALblog
12 de fev. de 2021
3 min de leitura

Sempre ouvia muitas histórias na hora do almoço de domingo. De segunda à sexta, era pra comer sem conversar. Se risse, então! Mas no domingo, tudo podia. Quase tudo. Podia tomar Coca-Cola e roubar dinheiro para o doce do bar da frente enquanto ele dormia. Podia ouvir histórias de família de outros tempos, isso podia. Geralmente era ele quem contava. Contava de Lulu e de Milu, de Zé e de Raul. Contava de Alice, de Bia, de Lia, de João Bosco, de vó e de vô. Eram pessoas muito divertidas e diferentes das gentes que tinha por perto. Era de longe, deve ser por isso. E deve ser por isso também, que para mim, o que tem de melhor na vida, são as histórias.

Se eu cresci achando que história é sempre alguma coisa que vale à pena, cresci sem ter muita certeza das verdades das histórias que ouvia. Às vezes me pareciam tão de fato, outras vezes tão inventadas. Acho que no fundo, eu já desconfiava que tinha mesmo uma nuance. Que dependia de quem contava, e mais ainda de como contava. E ainda dos meus ouvidos, porque já cheguei a ouvir coisas que não lembravam que contaram. Mas nunca desisti. Nem de ouvir, nem de contar. E agora não precisa mais ser de domingo.

A história de hoje, é uma história de quinta-feira, porque hoje é meu aniversário e sinto falta do alvoroço, mas pode ser de segunda, ou quarta, ou outro.

É hora de cuidar da horta.

E ele fazia isso sempre com muita dedicação. De manhã, às 6h, de tarde, às 18h. Eu gostava de me agachar ao seu lado. Ele de joelhos, eu minúscula. Uma espiguinha de milho amarela. Olhava a terra e achava muito bonito, demais! ver os buraquinhos que a água da mangueira furava. A mangueira também era furada, saía água que respingava em mim. Aí era a glória! Disso eu me lembro e me lembro até da língua passando debaixo do nariz para aproveitar cada gota. Lembro-me das folhas que hoje sei que eram alfaces verdinhas bem clarinhas. Eu gostava daquela horta. Gostava também de fazer furinhos na terra enfiando os dedinhos, um de cada vez, e no fim, ver que a terra deixava todas minhas unhas muito bonitas. Eu tinha um apreço danado pela terra debaixo das minhas unhas. Era isso todo dia, mas só de tarde, que cedo eu ficava na cozinha comendo ovo quente na casquinha que ele preparava pra mim. Disso eu me lembro.

Do que eu não me lembro, ele me contou.

Na hora de cuidar da horta, tinha o momento de tirar os matinhos verdes-escuros que sufocariam os pequenos pés de alface. Era ele quem tirava, narrando seu feito, explicando como se fazia, e propondo trava línguas – tesaurocripsonicrocrísider – esse era o meu favorito. Com mãos grandes, ele não errava um e eu o observava atenta, enquanto enfiava um por um dos dedinhos na terra molhada pra enfeitar as unhas.

Num dia desses, eu enfim entendi que chegara a hora de fazer algo muito importante, para além das gotas d’água debaixo do nariz e das unhas. Eu esperei ele sair, claro. Era pra ser surpresa! Assim que fiquei só, preparei meu pequeno ritual: esfreguei uma mão contra a outra pra limpá-las e realçar meus dotes de manicure, alcancei o último respingo com a língua, pus-me de joelhos na terra úmida e executei meu plano mais brilhante, mas não antes de falar baixinho – tesaurocripsonicrocrísider. Depois, com os dedinhos firmes e certeiros como já havia aprendido, providenciei de deixar tudo em ordem. Retirei eu mesma todas as folhinhas verdinhas bem clarinhas que restavam, uma a uma, e o canteiro ficou perfeito. Foi a glória!

Ele que me disse.


Valéria Motta, 10 de setembro de 2020.

 
 
 

1 comentário


rmisailidis
rmisailidis
14 de fev. de 2021

A Jardineirinha, que delicia de história!!

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