A FRASE

Freud não sabia o que quer uma mulher e – segundo a minha régua – teve a grandeza em admitir. De qualquer forma, a pergunta “o que quer uma mulher” não é mesmo a melhor pergunta a se fazer porque baseia-se numa premissa furada: a de que o desejo se define pelo objeto desejado. O próprio Freud deveria saber que o desejo não é do-quê mas do-como. Isso Lacan entendeu melhor, pois para ele o desejo é in-ato, isto é, depende d’um corte que estabelece novas condições simbólicas. Apenas desse modo, uma forma surgida do acaso dribla o obstáculo constituído pela rigorosa mesmice do fantasma.
Sobre as mulheres e o feminino, tanto Freud quanto Lacan fizeram o que puderam. Quiseram que as mulheres analistas fossem bem mais longe do que eles, como aliás várias fizeram e continuam. Também elas fizeram o que puderam. Entretanto, quando se trata de dizer o que uma mulher precisa, nada superou Pedro Almodóvar em “Fale com ela”.
Certa vez ouvi a Maria Rita Kehl dizer que não era difícil saber o que quer uma mulher, já que elas vivem dizendo o que querem. Para vocês verem como fazer o que se pode nunca é pouco. Aplaudi e pensei: como ninguém havia tinha dito isso antes? Conclui, mais uma vez, que a questão é sob que condições podemos escutar algo. O que me faz voltar ao “Fale com ela” de Pedro Almodóvar.
Sempre imagino que este filme só existe por causa desta frase: “Fale com ela”. É tão perfeita que todo o resto, o enredo, os personagens, os atores, a fotografia e até os figurinos devem ter sido construídos apenas para que, naquela cena inesquecível, Benigno, o enfermeiro, a enuncie.
Permitam-me descrever a cena aqui sem receio de estragar o seu prazer, pois não há como spoil-ar algo perfeito.
Javier, um espanhol com um rosto tão viril quanto nossa imaginação gosta de imaginar, apaixona-se por Lydia, uma mulher-toureira de traços selvagens dignos de Picasso. Quando esta sofre um acidente e entra em coma, o enfermeiro Benigno ( que nome!) passa a cuidar dela e nasce então um diálogo entre os dois homens. Na cena em questão, Javier está no hospital ao lado da cama onde sua amada jaz em coma, inerte. Seu olhar apaixonado está atravessado pela dor e ele não sabe o que fazer. É então que Benigno, levemente irritado e com o ar cansado de quem precisa ensinar algo elementar, lhe diz: “fale com ela”. A resposta de Javier, por sua vez, é paradigmática e previsível: “mas ela não pode ouvir”. Está no trailer do filme para quem quiser ver ou re-ver.
Confesso que saí eufórica do cinema, agradeci aos céus e me perguntei que graça divina havia inspirado Almodóvar. Hoje, muitos anos depois, sei que não é impossível um homem escutar verdadeiramente uma mulher, mas apenas sob uma condição: de que ela não encarne para ele sua fantasia. Este é o caso dos homens que preferem sexualmente outros homens mas é também, por uma outra via, o caso do psicanalista. A mal-dita “neutralidade” do psicanalista não se deve a uma ascese espiritual mas ao fato de que, enquanto escuta, o olhar repousa num ponto atrás do quadro, no vértice para o qual toda significação está destinada a naufragar. Esse ponto que, se não abordável seria pelo bordeável pela lógica, é equivalente ao dizer do aforismas: “não há relação sexual” e “A Mulher não existe” (com barra no A).
Graças ao fazer-saber da criação, resta intacto até hoje o meu espanto e minha admiração pela ficção almodovariana: por um breve instante ele fez existir uma palavra no justo momento em que mais Ela precisa. Olé!
Campinas, 13/01/2020
MT Lemos



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