top of page
Buscar

A DOENÇA DA MORTE

Foto do escritor: DESIGUALblog
DESIGUALblog
23 de abr. de 2021
4 min de leitura

Atualizado: 11 de mar. de 2022




A doença da morte, título do livro de Marguerite Duras, chegou recentemente até mim por indicação de um amigo sensível às questões que rondam o feminino. Disse ele com entusiasmo: “Jane, você tem que ler!” Eu havia lido outros livros e assistido alguns filmes de Duras, os quais revisito com certa frequência, porque neles encontro o feminino que me escapa para perdê-lo outra vez.

Nesse livro, cujo título situa a morte não como um fim em si mesmo, mas como uma doença que pode vir a padecer um sujeito, Duras se detém no vazio e no inapreensível que habita o feminino como um lugar que revela e fomenta o embaraço de um homem impossibilitado de amar.

Tudo começa com um “você” que interpela, tal qual um diretor no palco, um homem e uma mulher, sem nunca se dirigir a ela. A esse “você” ela escapa, se furta ao controle, indeterminada e irreal e se deixa entrever no uso que Duras faz do uso do tempo verbal no condicional numa presença dormida e ausente, que remete ao sonho.

“Você deveria não conhecê-la, tê-la encontrado em todos os lugares ao mesmo tempo, num hotel, numa rua, num trem, num bar, num livro, num filme, em você mesmo, em você, em ti, no acaso do teu sexo erguido na noite que clama por onde se pôr, por onde se desembaraçar dos choros que o impregnam.”


A doença da morte, enfermidade da qual sofre o personagem masculino, e que se manifesta na sua impossibilidade de amar, Duras a atrela ao embaraço de um homem com o gozo em relação a seu falo ereto. Não se trata, no livro, de um homem desfalicizado, muito pelo contrário, ele sabe o que fazer no ato sexual, ele goza no sexo da mulher.

Embora a personagem feminina afirme não ser uma puta, ele tem com ela um contrato pago e a procura porque quer conhecer o corpo, quer se habituar com os seios, com o cheiro, com a pele nua, com a beleza. O que se depreende é o gozo triste de um homem que, através da penetração no vazio do sexo da mulher, pensa em aprender algo sobre o gozo feminino - inapreensível porque foge a lógica fálica - afim de encontrar o amor que lhe é recusado.


“você deveria tê-la pago.

Você teria dito: Será preciso vir cada noite durante vários dias.

Ela o teria olhado longamente, e depois ela lhe teria dito que nesse caso era caro.

(...)

Você diz a ela que você quer experimentar, experimentar vários dias talvez.

Talvez várias semanas.

Talvez inclusive durante toda a sua vida.

Ela pergunta: Experimentar o quê?

Você diz: Amar.”


Poder-se-ia dizer que esse homem, personagem de Duras, em que se observa a função fálica predominante, não sabe que o gozo não é amor ou, como afirma Lacan no seminário Encore, que gozar do corpo do outro, não é signo de amor. Por isso, saber sobre o amor custa caro, o que é o mesmo que dizer que para saber sobre o amor é preciso pagar o preço. Não deveríamos escutar o que nos ensina a puta que, embora não ofereça amor, cobra pelo seu corpo? Alguns anos atrás ouvi de uma das minhas diaristas e a qual menciono em uma crônica “Cenas cariocas” escrita para esse blog: “Puta não dá o cu de graça”. Volto ao romance de Duras:

“Ela pergunta: Quais seriam as outras condições?

Você diz que ela deverá se calar como as mulheres dos seus ancestrais, se curvar completamente a você, ao seu querer, ser-lhe completamente submissa como as camponesas nas granjas após as colheitas, quando exaustas deixam vir a elas os homens, dormindo – isso para que você possa se habituar pouco a pouco com essa forma que desposará a sua, que estará à sua mercê como as mulheres de religião estão para Deus – isso também, para que pouco a pouco, com o dia crescente, você tenha menos medo de não saber onde colocar o seu corpo nem qual vazio amar.

(...)

Depois ela responde.

Diz que nesse caso é ainda mais caro. Ela diz a quantia do pagamento.

Você aceita.”


No livro de Duras, assim como custa caro o embaraço em saber qual vazio amar, isto é, saber sobre o amor, custa caro também fomentar e se deixar afetar pela doença da morte. Aqui quero pontuar a outro lado da moeda, se assim posso dizer. É comum atualmente as mulheres adotarem o discurso masculino, isto é, agirem como os homens que se interessariam apenas pelo sexo; o sexo pelo sexo. Não fazem mais do que vestirem a mascarada. Na clínica, é muito difícil, para não dizer raro, receber uma mulher que não se importe em oferecer o corpo como objeto de desejo de um homem, mesmo que bem pago, sem que isso não implique em uma aposta feminina em uma relação amorosa. Mesmo que a queixa não diga respeito à relação entre um homem e uma mulher, o amor estará implicado em seu discurso que pode girar em torno de uma demanda em receber o amor da mãe, do pai, ou obter amor na forma de um filho.

Ao contrário do homem que precisa do sexo para chegar ao amor, a mulher precisa, antes que o sexo aconteça, de algo que ela possa admirar no homem. Arrisco até mesmo dizer que a mulher precisa inventar o amor para que do lado dela a relação sexual seja possível.


J Silveira

 
 
 

9 comentários


clau_fattori
02 de mai. de 2021

Nossa, agraciada com o texto. Obrigada. Sempre pensei que inventamos o amor, mas nunca pensei quanto se paga por pela invenção. A ideia de Maria de que se o pagamento é exigido a mulher escapa de ser a mãe, isso sim parece um bom negócio.

Curtir
DESIGUALblog
DESIGUALblog
03 de mai. de 2021
Respondendo a

Oi Clau, boa sacada! Trata-se de dar um limite. Pagar, pagar caro para poder ter acesso a um pouco do gozo feminino.

Curtir

rmisailidis
rmisailidis
25 de abr. de 2021

Boa tarde, Jane. Gostei muito do teu texto! Quanta verdade jogada na cara, tive que respirar fundo para chegar a última linha...triste para mim foi perceber as varias historias de amor que inventei na ilusão infantil de que a boa menina me salvaria. Só o amor verdadeiro vale a pena, aquele onde ambos começam por mostrar o que não se tem porque aquele amor que nasce no desespero, esse se paga muito caro

Curtir
DESIGUALblog
DESIGUALblog
26 de abr. de 2021
Respondendo a

Oi, Rosario. Obrigada pelo comentário. Sim, só o amor verdadeiro vale a pena e com certeza nasce da contingência e não da necessidade. Vc me fez lembrar de "Memórias de uma moça bem-comportada" de Simone de Beauvoir, talvez um bom tema para escrever para o blog. Um abração!

Curtir

lemosteresamaria
lemosteresamaria
24 de abr. de 2021

Oi Jane,

Parabéns! Existem outras doenças que te interessam que além da/o (?) Covid! Só isso já seria uma benção. Além disso, seu texto não pretende vacinar ninguém além de você mesma, outra benção que só posso agradecer, porque eu não quero a vacina contra a doença da morte. Você me dá oportunidade de dizer como me sinto hoje. Acordei e, logo com o café, peguei para ler esse livro de Duras que havia comprado e nunca lido. Eu resisto à Marguerite, a dura, a didática da não-relação sexual! Ela e Lacan me parecem dois gêmeos siameses, cada qual nos exigindo pagar por uma verdade que não pedimos para ouvir e logo depois: adeus. Artífices do corte. Nada justo, n…


Curtir
DESIGUALblog
DESIGUALblog
24 de abr. de 2021
Respondendo a

Oi, Teresa. sempre é bom te ouvir...obrigada pelo comentário. Meu café é doce, então Dura(s) na taça de vinho; pago o Uber e a diarista. Vacina? pro gozo que não serve pra nada, essa é a morte. Sigo aqui no blog, dando rasteira na Covid, oferecendo o(s) vazio(s) do texto, esses de fato me pertencem. Quem é que pode dizer se há futuro senão os filhos criados ou ainda incriados? São eles que não nos deixam cair no (a)pagamento.

Abração!

Jane

Curtir
bottom of page