A DIFERENÇA SEXUAL, A LÍNGUA E O SINTOMA

Atualizado: 27 de fev. de 2021
De que modo um sujeito elege uma posição feminina ou masculina de acordo ou não com seu sexo biológico?
Um episódio citado por Gerard Pommier me permite dizer algo sobre isso. Trata-se de um episódio de fala de um de seus pacientes em uma sessão de análise citado no seu livro A exceção feminina, e o qual transcrevo abaixo:
“Uma vez quando eu era criança, minha mãe estava tomando banho, eu olhava para ela e de repente senti absoluta necessidade de ir roubar um bombom no seu armário. (...) - Quando roubei o bombom daquele armário, parece-me que realizei meu primeiro ato. Digo meu primeiro ato pondo aí um sentido masculino. Esse roubo de bombom é meu primeiro ato masculino. Agora sei porque tenho esta certeza. Independentemente da lembrança de que falei na última sessão, e à qual só agora posso juntá-lo, lembrei-me de um detalhe da minha maneira de falar. Durante muito tempo, fui incapaz de saber se armoire era do gênero masculino ou feminino. Mais exatamente, eu tinha a tendência a colocar essa palavra no masculino, mas quando o fazia logo ficava em dúvida. Para acabar com essa hesitação, empregava um recurso mnemônico cujo sentido me parece hoje em toda a sua extensão. Quando eu tinha que escrever ou pronunciar armoire eu pensava em incendie. A palavra incendie termina pela letra “e”, e, no entanto, é masculina; constitui uma exceção na língua. Tem uma aparência feminina, mas não o é.” (Pommier, G. 1987)
Na citação acima, o paciente do psicanalista Pommier situa o roubo do bombom do armário de sua mãe, justificando-o como tendo sido tomado por uma absoluta necessidade, como o seu primeiro ato masculino.
A lembrança do paciente do roubo do bombom evoca a questão do interdito, do proibido em relação ao materno e se junta ainda a outra lembrança a de um detalhe na sua maneira de falar, não menos importante na constituição da sua posição masculina.
Se o roubo do bombom do armário da mãe diz respeito à proibição do incesto, por outro lado, a lembrança de que por muito tempo ele foi incapaz de saber se a palavra armoire era do gênero masculino ou feminino, e seus desdobramentos, diz respeito não só ao não-saber inerente à diferença sexual – daí falarmos indefinidamente sobre o que é um homem, o que é uma mulher – como o fato de que a diferença sexual só se inscreve como oposição e diferença graças à linguagem.
* Em francês, armoire (armário) é um substantivo feminino e incendie (incêndio), masculino.
J Silveira



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