A diferença sexual na fala de crianças (parte II)

A diferença sexual na fala de crianças - (Parte II)
Jane Silveira
5. (J brinca de fazer entrevistas, como se fosse o repórter da televisão.)
M: Eu tava perguntando se ia sair ou não a reportagem, Ju. E você é o repórter.
J: (Levantando a voz.) Reporta.
M: (Rindo.) “Reporta”? Por que “reporta”?
J: Porque reporta é mulher. Que eu não quero ser homem. Eu sou reporta, vai.
(D – 4; 6. 1)
Como se pode ver, nesse último episódio de fala, Juliana, tomando a palavra “repórter” como referida a ela, recusa o efeito que essa produz sobre si, substituindo-a por “reporta”. A modificação de gênero que se dá a ver na produção de “reporta” é um indício de que a menina toma o efeito que a palavra tem sobre si e sobre o outro sob forma de uma prova do que é ser uma mulher, manifestando, com isso, uma resistência ao apagamento da diferença sexual. Pode-se dizer que, ao experimentar o efeito que a palavra produz, Juliana sentencia que ser uma mulher não se resume à ordem das constatações, das certezas, mas ao contrário, padece de provas.
Cabe aqui situar a expressão “sob forma de uma prova”, para tanto me sirvo da definição de Freud sobre o que é uma psicanálise: “uma psicanálise não é uma investigação científica imparcial, mas uma medida terapêutica. Sua essência não é provar nada, mas simplesmente alterar alguma coisa.” (Freud, 1996 p. 97)
Se a essência da psicanálise não é provar nada, mas alterar alguma coisa, o fato é que “alterar” em latim significa diferença, assim dizer que a criança toma o efeito que a palavra tem sobre si e sobre o outro sob forma de uma prova, se ancora na ideia de que penso ecoar na definição de Freud. Isto é, a associação que a criança faz do sufixo “a” para menina e do sufixo “o” para o menino não corresponde à tomada da diferença sexual como uma simples questão de constatação, de correspondência entre um percepto ou uma representação mental da diferença sexual e um sufixo, mas é um reflexo da própria constituição sexual da criança, ou seja, um efeito da captura do sujeito pela linguagem relacionado à questão que o complexo de Édipo impõe para ela, a castração.
Detenho-me nisso.
Nos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade Freud afirma que a menina ao avistar os genitais do menino, está pronta a reconhecê-lo de imediato e é tomada pela inveja do pênis, culminando no desejo de ser também um menino, tão importante em suas consequências. Desse modo, a passagem da menina pelo complexo de Édipo implica numa tensão entre a posição masculina e a posição feminina, isso, a meu ver, permite uma articulação com que Freud ([1909] 2006) afirma sobre a existência, na criança, por um tempo considerável, de pares de emoções contrárias, atribuindo a essas a ocorrência das repressões e neuroses. Sendo assim, a contradição parece ser constitutiva da passagem da menina pelo complexo de Édipo, uma vez que ser menina é estar pronta a reconhecer a falta de pênis sem que isso não implique na inveja do pênis. Pode-se dizer que a inveja do pênis situa para a menina de que lado está o falo. Isso permite um desdobramento, ser uma menina não é desejar ser um menino, mas invejar ser também um menino.
No intuito de avançar a esse respeito, reproduzo e comento o episódio de fala de crianças citado por Freud no livro Os chistes e a sua relação com o inconsciente. Eis o episódio:
“Uma menina de três anos e meio avisa a seu irmão: ‘Olha, não coma tanto pudim, senão vai ficar doente e tomar um “Bubizin”.’ “Bubizin”? pergunta a mãe, ‘O que é isso?’ ‘Quando fico doente’, disse a menina autojustificando-se, ‘tenho que tomar um Medizin’. A criança pensava que aquilo que o médico lhe prescrevia chamava-se ‘Mädi-zin’ quando era para uma ‘Mädi [garotinha]’ e concluía que, quando era para um ‘Bubi [garotinho]’, devia chamar-se ‘Bubi-zin’.”(Freud [1905] 2006: 172-173)
Ao se referir ao episódio Freud afirma:
“Um comentário inocente – e.g. ‘Bubizin’ [p.171] – pode atuar ele próprio como um chiste menor não fornecendo qualquer causa à indignação. Esta alternativa é, decerto, menos frequente, mas é mais pura e bem mais instrutiva. Na medida em que estamos interessados no fato de que a criança tenha acreditado, sem qualquer arrière pensée, que a sílaba ‘Medi’ em ‘Medizin’ é idêntica a seu próprio nome ‘Mädi’, nosso prazer recebe uma intensificação que nada mais tem a ver com o prazer em um chiste. Podemos encarar o que se disse a partir de dois pontos de vista – na perspectiva do que aconteceu na criança e na perspectiva do que aconteceu em nós; ao fazer essa comparação verificamos que a criança achou uma identidade e ultrapassou uma barreira que existia para nós;” (...) (Freud [1905] 2006, p.176)
Lacan no seminário 5 ao comentar este chiste ingênuo afirma que o essencial não consiste na graça, mas na evocação daquele tempo da infância em que a relação com a linguagem é tão íntima que por isso nos evoca diretamente a relação da linguagem com o desejo que constitui a satisfação própria ao chiste.
O que demais importante se pode extrair das palavras de Freud e Lacan no sentido de iluminar o que afirmei, ser uma menina é invejar ser também um menino, é o fato de que o que está em causa para a menina, ao considerar idênticas as sílabas “Medi” [Medizin] e “Mädi” [garotinha] é o reconhecimento de uma identidade. Assim, por meio de uma operação simbólica, a menina toma Medizin como uma palavra que diz respeito singularmente a ela, fato que leva a pensar em um efeito de identificação.
Com efeito, essa operação simbólica evidencia a tentativa da menina em se apoiar em uma identificação e, com isso, uma tentativa de equivalência com a posição do menino em relação ao falo, no reconhecimento de sua posição feminina, já que imagina que o menino possui uma vantagem sobre ela. Sabe-se que a única identificação que o complexo de Édipo oferece se dá do lado do menino, a qual se trata de se identificar com o pai como possuidor do pênis, ser alguém como o pai.
Desse modo, o fato da menina invejar ser também um menino, implica na tentativa dessa de fazer equivaler a inveja do pênis à identificação. A saída do complexo de Édipo, isto é, o efeito da etapa da identificação com o pai é diferente na menina. Para o menino se trata de se identificar com o pai possuidor do pênis, para a menina se trata de reconhecer o homem como aquele que o possui. Sobre isso afirma Lacan:
“Ressalto-lhes que isso quer dizer que, na medida em que é viril, um homem é sempre mais ou menos sua própria metáfora. (...)
Também lhes saliento que o desfecho do complexo de Édipo, como todos sabem, é diferente na mulher. Para ela, com efeito, essa terceira etapa, como sublinha Freud – leiam seu artigo sobre o declínio do Édipo –é muito mais simples. Ela, a mulher, sabe onde ele está, sabe onde deve ir buscá-lo, o que é do lado do pai, e vai em direção àquele que o tem”. (Lacan, 1999 Seminário 5, p. 202)
Assim, a feminilidade para a menina parece se definir pela impossibilidade de se ancorar em si própria, mas em um movimento de pôr-se em direção ao falo. Nota-se que, na citação acima, Lacan dá mais ênfase ao movimento da menina ir em direção, de buscar o falo, de saber onde deve ir, do que o fato dessa saber que não o tem.
Em relação à tentativa da menina de fazer equivaler a inveja do pênis à identificação, Diana Rabinovich, ao comentar o texto de Lacan “A significação do falo”, tem algo a dizer sobre o termo “equivaler”: “O que significa a equivalência de duas coisas? Significa identidade? Duas coisas que têm um mesmo valor são equi-valentes, e, de maneira geral, equivalência significa igualdade, identidade.” (Rabinovich, 2005 p. 38)
Nesse sentido, o que está em causa na tentativa da menina de fazer equivaler a inveja do pênis à identificação é um valor, isto é, uma relação com o falo na tentativa de equivalência entre os dois sexos[1] como uma forma de subjetivar a castração, o que coloca a posição feminina na ordem de uma contradição e de resistência ao apagamento da diferença sexual.
Termino com as palavras de Lacan no seminário 24, L'insu que sait de l'une bévue s'aile à mourre (1976-1977), como aquilo que me anima e anima este trabalho:
“A gente se reconhece no chiste porque o chiste tem a ver com aquilo que eu chamei lalangue, alingua, a gente se reconhece no chiste, a gente desliza aí...e sobre isso aí Freud fez algumas considerações que não são negligenciáveis. Quero dizer que o essencial do chiste para o inconsciente consiste na relação íntima deste com a aquisição de lalangue.”
BIBLIOGRAFIA
FREUD, S. (1905) Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, Edição Standard Brasileira das Obras Completas, Rio de Janeiro: Imago Editora, 2006, vol. VII.
FREUD, S. (1905) Os chistes e a sua relação com o inconsciente, Edição Standard Brasileira das Obras Completas, Rio de Janeiro: Imago Editora, 2006, vol. VIII.
FREUD, S. (1909) Análise de uma fobia em um menino de cinco anos, Edição Standard Brasileira das Obras Completas, Rio de Janeiro: Imago Editora, 2006, vol. X.
HATZFELD, Marjolaine. « La différence des sexes : quelle différence ? Retour sur la phase phallique dans La Relation d'Objet », Essaim, vol. 26, no. 1, 2011, pp. 137-152.
LACAN, J. O Seminário, livro 5 – As formações do inconsciente, tradução de M. D.Magno, Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988.
LE GAUFEY, GUY. L’éviction de l’origine, E.P.E.L, Paris, 1994.
RABINOVICH, D. A significação do falo, Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2005.
[1] Le Gaufey pontua que se Freud pode sustentar a unicidade da fase fálica para os dois sexos é porque, longe de ser um dado apenas anatômico, o falo é uma referência e não uma abstração comum para duas realidades “concretas” diferentes.



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