A diferença sexual na fala de crianças

Atualizado: 14 de dez. de 2020
A diferença sexual na fala de crianças
(Parte I)
Jane Silveira
É com um instigante episódio de fala de um menino citado no artigo La différence des sexes: quelle différence?, de Marjolaine Hatzfeld, que inicio este texto. Eis o episódio:
Un petit garçon rentre à la maison et raconte à sa mère, tout excité:
« Maman, Maman, on a été se baigner dans la rivière avec les autres enfants!
Et, demande celle-ci..., il y avait des petites filles?
Surpris, ralenti dans son élan, le garçon répond:
Ah ça...je ne sais pas...on était tout nu ».
(HATZFELD, 2011)
Um menino chega em casa animado e conta a sua mãe:
Mamãe, mamãe, tomei banho no rio com outras crianças!
E havia meninas?, pergunta a mãe.
Surpreso o menino responde:
Ah...eu não sei... estávamos todos nus. (tradução minha)
Ao dar destaque a esse episódio de fala de crianças, Hatzfeld afirma que, se para o menino o vestuário e a gramática constituem insígnias distintivas do feminino e do masculino, entretanto, a nudez dos corpos, cuja visão poderia ser tomada como uma prova incontestável da diferença entre os sexos, não é levada absolutamente em conta.
Assim, a pergunta enunciada no título de seu artigo, La différence des sexes: quelle différence? evoca, entre outras questões, o fato, tal como teorizou Freud, de que a diferença sexual não se apresenta para a criança como já dada, passível de ser apreendida pela percepção, uma vez que pressupõe um longo processo de elaboração psíquica que a criança deve atravessar.
Nos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, no capítulo A sexualidade infantil, referindo-se ao pequeno Hans, Freud destaca a articulação entre o sexual e a fala da criança:
“Ademais, a ‘Análise de uma Fobia num menino de Cinco Anos’ ensinou-nos muitas coisas novas para as quais não fôramos preparados pela psicanálise: por exemplo, o fato de que o simbolismo sexual, a representação sexual por objetos e relações não-sexuais, remonta a esses primeiros anos de domínio da fala.”
Ainda, no texto que sucede o relato da análise do caso do pequeno Hans, intitulado Discussão, Freud afirma que é uma grave injustiça com o menino não considerar a raiz e os ramos de suas declarações, uma vez que essas atestariam as impressões experimentadas e exibiriam claramente o que estava realmente ocorrendo com ele. A esse propósito, afirma: “É lamentável que nenhum relatório de psicanálise possa reproduzir as impressões recebidas pelos analistas enquanto ele a conduz, e que um sentido final de convicção nunca possa ser obtido pela leitura sobre ela, mas somente experimentando-a diretamente”.
A que Freud estaria se referindo senão ao efeito que a palavra produz sobre si e sobre o outro e ao que, em torno disso, escapa a um relatório de psicanálise? Não me passou despercebido que a afirmação de Freud se dá justamente quando discute o caso Hans, um menino de cinco anos, o que me remeteu a um fenômeno que irrompe na fala de algumas crianças em um determinado momento da captura da criança pela linguagem[1]. A saber, erros, réplicas e correções que irrompem segundo uma associação que consiste em fazer corresponder o sufixo “a” para menina e o sufixo “o” para menino, resultando numa modificação de gênero justamente por experimentarem o efeito que a palavra produz sobre si e sobre o outro.
Veja-se o que acontece nesses episódios de fala de crianças[2]:
1. (A e J, as duas irmãs, ouvem um programa de auditório na tv; a certa altura o apresentador dirige-se ao auditório com a saudação: Bom dia!)
A. (a mais velha). Bom dio!
(J. a mais nova, faz uma intervenção, “corrigindo” a irmã.)
J. Bom dio é para homem. Bom dia é para mulher.
(D - 5; 2.17)[3]
2. (O pai de duas crianças, um menino e uma menina, costumava declarar seu amor às crianças, dizendo “Eu te amo”. Quando se dirigia à menina era assim corrigido pelo garoto.)
M: Não é “eu te amo”. É “eu te ama”.
3. (J dá uma batida no braço; forma um galo; a mãe mostra à avó, dizendo:)
M: Fez um galo.
J: Não é “galo”, é “galinha”.
(D -3;3)
4. (A mãe de J tenta pôr um biquíni que não lhe serve; J segue o que faz a mãe.)
J: (Avaliando.) Esse não dá mãe.
M: Ah Ju! Você é um barato.
J: “Barata”, mãe, “barata”.
(D – 2;3)
5. (J brinca de fazer entrevistas, como se fosse o repórter da televisão.)
M: Eu tava perguntando se ia sair ou não a reportagem, Ju. E você é o repórter.
J: (Levantando a voz.) Reporta.
M: (Rindo.) “Reporta”? Por que “reporta”?
J: Porque reporta é mulher. Que eu não quero ser homem. Eu sou reporta, vai.
(D – 4; 6. 1)
O que a criança busca ao exibir ou qual a função dessa associação que consiste em fazer corresponder o sufixo “a” para a menina e o sufixo “o” para menino?
Como se pode ver, nesse último episódio de fala, Juliana, tomando a palavra “repórter” como referida a ela, recusa o efeito que essa produz sobre si, substituindo-a por “reporta”. A modificação de gênero que se dá a ver na produção de “reporta” é um indício de que a menina toma o efeito que a palavra tem sobre si e sobre o outro sob forma de uma prova do que é ser uma mulher, manifestando, com isso, uma resistência ao apagamento da diferença sexual. Pode-se dizer que, ao experimentar o efeito que a palavra produz, Juliana sentencia que ser uma mulher não se resume à ordem das constatações, das certezas, mas ao contrário, padece de provas.
* A continuação desse texto será publicada em outro post intitulado "A diferença sexual na fala de crianças - Parte II
[1] O termo “captura da criança pela linguagem” veio do trabalho teórico de Claudia Lemos, no qual a autora afirma que o corpo da criança é capturado pela linguagem. [2] Os episódios de fala de criança citados foram extraídos do trabalho de pesquisa Rosa Attié Figueira na área de aquisição de linguagem. [3] 5 anos, 2 meses e 17 dias



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